Entrevista com David Lagercrantz
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17 de janeiro de 2020
David Lagercrantz, o autor sueco que escreveu os últimos três livros da saga Millennium, iniciada por Stieg Larsson, lançou em Portugal o seu primeiro thriller sem relação com essa saga.
No livro, Obscuritas, estamos no verão de 2003 e os Estados Unidos acabaram de invadir o Iraque. Em Estocolmo, um árbitro de futebol de origem afegã é espancado até à morte. Será a dupla de investigadores Hans Rekke e Micaela Vargas capaz de resolver este crime onde nada é o que parece?
Saiba mais na entrevista com o autor!
No livro, Obscuritas, estamos no verão de 2003 e os Estados Unidos acabaram de invadir o Iraque. Em Estocolmo, um árbitro de futebol de origem afegã é espancado até à morte. Será a dupla de investigadores Hans Rekke e Micaela Vargas capaz de resolver este crime onde nada é o que parece?
Saiba mais na entrevista com o autor!
David Lagercrantz, autor do bestseller A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha
Obscuritas mistura homicídio com futebol e política internacional. De onde veio a inspiração para escrever este livro?
Sempre me interessei por política. Há uns anos, quando soube que os músicos no Afeganistão estavam a ser perseguidos, isso perturbou-me bastante. Foi um choque para mim descobrir que a música podia ser considerada tão ameaçadora a ponto de ter de ser eliminada. E talvez também tenha sentido vontade de camuflar a história de Obscuritas sob um tema em que me sinto confortável. Creio que o árbitro de um dos jogos de futebol dos meus filhos também serviu de inspiração… tinha uma forma tão peculiar de gesticular…
Um dos protagonistas do livro, Hans Rekke, é um professor brilhante que partilha alguns traços com Sherlock Holmes: tem uma mente brilhante, é sofisticado, viciado em medicamentos, toca um instrumento musical e o seu endereço também inclui a letra «B». É fã de Sherlock Holmes?
Sim, sou. A minha primeira grande experiência literária foram os livros de Conan Doyle sobre as aventuras de Holmes. Há muito que sonhava modernizar e mudar um pouco a personagem. A sua altivez e arrogância incomodavam-me. E se as substituísse por insegurança em relação a si próprio e, talvez, depressão? Foi assim que «nasceu» Hans Rekke.
Hans Rekke trabalhou com a CIA e tem experiência em técnicas de interrogatório especiais. Como é que fez pesquisa para isso? Falou com alguém da CIA?
Sim, tenho as minhas fontes. Mas comecei por ler muito acerca da forma como os Estados Unidos reagiram ao 11 de Setembro. Fiquei horrorizado com o seu sentido ético e moral, com o facto de acharem que podiam retaliar violando direitos humanos. Sei que foram ultrapassados determinados limites, mas perceber que o próprio exército dos Estados Unidos torturava seres humanos foi um choque. Acho que nessa altura o mundo se quebrou.
A outra personagem principal, a jovem Micaela Vargas, é uma detetive obstinada, mas dois dos seus irmãos são criminosos. Por que é que decidiu atribuir-lhe esse background familiar conflituoso?
Os escritores adoram conflitos. Além disso, num mundo em que as diferenças sociais estão a aumentar, quis combinar personagens de diferentes origens.
Obscuritas é um thriller engenhoso e apaixonante onde nada é o que parece.
Sim, claro, mas como é habitual estou atrasado.
Obscuritas é também o primeiro livro que publica depois de ter terminado a série Millennium, iniciada por Stieg Larsson. Como foi a experiência de escrever três livros baseados no universo ficcional de outro autor?
Foi obviamente um desafio tremendo. A princípio não sabia se iria resistir a esta prova, enquanto escritor. Mas ao fim de algum tempo as personagens entranharam-se nas minhas veias, passaram a fazer parte de mim. E agora sinto-me muito feliz e orgulhoso por tê-lo feito.
Tornou-se conhecido na Suécia depois de escrever a biografia do futebolista Zlatan Ibrahimovic. Como é que se passa de escrever biografias para policiais? Há uma grande diferença na escrita desses dois géneros?
Sim, é diferente, naturalmente, mas, enquanto autor, creio que evoluímos à medida que vamos experimentando estilos e géneros diferentes.
Como é que planeia os seus policiais? Sabe sempre quem é o assassino antes de começar a escrever?
Geralmente (acho que) sei quem é o assassino desde o princípio, mas acabo sempre por mudar de ideias. O policial é um género muito exigente. São necessárias mais reviravoltas do que as que consigo prever antecipadamente. Mas para mim o mais importante é o início. Ter um bom início torna a escrita mais fácil e as dificuldades vão sendo resolvidas à medida que surgem.
Qual foi o livro mais assustador que já leu?
É difícil. Só me ocorre um clássico: O Silêncio dos Inocentes, de Thomas Harris. Não é apenas assustador, é uma história brilhante. Mas o que é assustador raramente é o mais óbvio, é muitas vezes algo que assume contornos difusos de ameaça. As coisas que sentimos mas não vemos de forma muito óbvia são as mais assustadoras.
Qual é a sua palavra assustadora favorita?
Lembro-me de, quando era jovem, ler o Coração das Trevas, de Joseph Conrad. Há aquela passagem em que Kurtz está deitado no meio da selva e recorda todo o mal na sua vida; quando as memórias o oprimem, diz: «HORROR, HORROR.» Essa cena é muitíssimo assustadora.
Qual é o seu hobby mais surpreendente?
Os meus hobbies e paixões são bastante previsíveis para um escritor: beber um copo de um bom vinho e ler um bom livro. Mas também tenho uma obsessão com remo. Tenho um velho barco de madeira que adoro usar no verão. Quando todos andam em lanchas velozes, eu pego no meu velho barco do século XX e começo a remar.
Se jantasse com uma personagem de ficção, quem escolheria?
Pode soar egocêntrico, mas seria bom entender e conhecer melhor as minhas personagens, por isso adoraria ter um longo jantar com Micaela Vargas e Hans Rekke. Talvez pudesse perguntar-lhes se estão satisfeitos com o que o fiz deles.
Qual é o maior mistério por resolver?
Bom, diria que é a singularidade versus o Big Bang. Porque é que a singularidade se tornou instável? Porque houve essa explosão e assim TUDO foi criado, incluindo todas as histórias que já existiram?