Entrevista a Bruno Vieira Amaral
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17 de janeiro de 2020
Bruno Vieira Amaral é um dos escritores mais aclamados da sua geração. O seu primeiro romance, As Primeiras Coisas, acumulou em 2015 os prémios PEN Clube Narrativa, Prémio Literário Fernando Namora, Prémio Time Out e Prémio Literário José Saramago. E o seu último livro de ficção, Uma Ida ao Motel, recebeu o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco.
Entretanto, publicou a biografia de outro grande escritor, José Cardoso Pires, e estivemos à conversa com ele para descobrir como é, para um romancista, escrever sobre a vida de outro autor. Saiba tudo lendo a entrevista!
Entretanto, publicou a biografia de outro grande escritor, José Cardoso Pires, e estivemos à conversa com ele para descobrir como é, para um romancista, escrever sobre a vida de outro autor. Saiba tudo lendo a entrevista!
Bruno Vieira Amaral © Contraponto Mário Santos
O seu livro mais recente, Integrado Marginal, é a biografia de José Cardoso Pires. Foi uma ideia sua ou foi-lhe proposta?
Tinha a ideia de fazer uma biografia já há algum tempo, praticamente desde que comecei a escrever e a publicar. Mas a biografia que tinha em mente exigia muito tempo, um grande investimento da minha parte e a certeza de que o livro seria depois publicado, o que não dependia apenas de mim. Acabei por ficar à espera das condições ideais e há cerca de três anos e meio tive um convite por parte do Rui Couceiro, editor da Contraponto, para fazer uma biografia no âmbito desta coleção de biografias de figuras da cultura portuguesa. Foi-me sugerido um nome (que não era o de José Cardoso Pires), mas depois de pensar um pouco fiz uma contraproposta e propus o Cardoso Pires, que o editor aceitou. A partir daí, comecei a trabalhar.
No fundo, juntou-se a fome à vontade de comer, juntou-se o útil ao agradável, juntou-se a minha vontade de fazer uma biografia com a oportunidade, com um convite.
Então acabou por ser o Bruno a escolher o biografado. Porque é que escolheu José Cardoso Pires? Pela obra? Pela vida? Pela conjugação das duas coisas?
Da vida de José Cardoso Pires, sabia pouco. Conhecia aquilo que os leitores da obra dele acabam por saber, mas hoje, olhando para trás, apercebo-me de que sabia muito pouco sobre a vida e até sobre a obra dele. No fundo, conhecia os livros mais importantes, apesar de não ser uma obra muito extensa.
O que me interessou foi sobretudo a qualidade de José Cardoso Pires enquanto escritor, isso foi decisivo. E o biografado tinha de ser também alguém com uma vida marcante. Por um lado, tinha de ser um escritor cuja obra eu admirasse e, por outro, alguém que tivesse tido uma vida suficientemente rica para me permitir não só fazer o retrato íntimo e pessoal desta figura, mas também o retrato da época e da sociedade em que ele viveu e escreveu.
O Bruno já publicou outros livros de não ficção, nomeadamente um sobre Lisboa em estado de emergência e outro sobre minorias religiosas, mas esta é a sua primeira biografia. É muito diferente escrever romances e contos de escrever uma biografia? Foi fácil controlar a imaginação ao longo da escrita? Nunca sentiu a tentação de ficcionar os acontecimentos?
Não. O que aconteceu foi que, ao adquirir um conhecimento mais pormenorizado de alguns meios da época, como o intelectual e o literário, e também ao ter conhecimento do que fazia o Estado Novo diariamente, usando a PIDE para reprimir e vigiar as pessoas, aquilo em que pensei foi, no futuro, aproveitar esse material para fazer algo mais próximo da ficção.
Para se escrever sobre um determinado ambiente é preciso conhecê-lo bem e, se não o vivemos, temos de estudá-lo, fazer pesquisa e investigação. Por isso surgiu essa ideia, de aproveitar até algumas das personagens, para explorar o meio intelectual e a sociedade daquela época, sobre os quais nunca tinha escrito antes, na minha ficção, posteriormente. Não quer dizer que isso vá acontecer, mas é uma possibilidade. A acontecer, é para projetos independentes e completamente à parte da biografia. Nunca me senti tentado, ao escrever a biografia, de ficcionar o que quer que fosse.
O livro exigiu um intenso trabalho de pesquisa tanto acerca do contexto histórico como da vida de José Cardoso Pires. Como fez essa pesquisa? O facto de ter estudado História ajudou? Conversou com os herdeiros?
Sim, falei com muitas pessoas que conheceram José Cardoso Pires, que trabalharam e conviveram com ele em situações muitos distintas e diversas. Pessoas que colaboraram com ele nos jornais e revistas, pessoas do meio literário, editores que ainda estão vivos, falei com a família, com a viúva, a Edite, e com as filhas, a Ana e a Rita. Conversei também com um sobrinho que é jornalista do Público e com muitas outras pessoas: amigos, pessoas ligadas ao jornalismo, pessoas que o conheceram numa fase anterior, quando ele era mais jovem, e outras que o conheceram já na fase final da vida.
Como nasceu em 1925, já não consegui falar com ninguém que o tivesse conhecido durante a infância. A irmã, que era mais nova dois ou três anos, morreu poucos meses antes de eu começar esta investigação.
As entrevistas foram um dos meios que usei para saber mais sobre a vida do José Cardoso Pires, mas também consultei muitos documentos: desde a imprensa da época à correspondência que trocou com intelectuais e amigos, também eles figuras relevantes do meio literário e político. E claro, outra documentação, desde os arquivos da PIDE aos do Exército onde fez a tropa.
Tentei lançar mão a toda a informação que consegui encontrar sobre a vida de Cardoso Pires e depois então, com base nisso, comecei o trabalho criativo. Não no sentido da ficção, mas de organizar essa informação de modo a formar uma narrativa coerente, que é, aliás, apenas uma das narrativas que se pode contar a partir dos mesmos factos. Acredito que outra pessoa na posse dos mesmos dados e documentos escreveria uma biografia complemente diferente.
Somos, é claro, condicionados pelos factos, mas temos de pôr em causa e questionar criticamente as fontes. Isso talvez tenha sido um dos maiores ensinamentos que aprendi enquanto estudante de História e que me foi muito útil. Não podemos ler da mesma forma uma entrevista à imprensa para promoção de um livro como lemos a correspondência que trocou imaginando que nunca seria lida por mais ninguém a não ser o destinatário da carta. É importante fazer essa valoração crítica das fontes e do que está lá contido, questionando, pondo em causa e não dando por certo e factual tudo o que é dito, mesmo pelo biografado. E depois, respeitando a verdade dos factos, tentar chegar a uma narrativa que dê uma ideia de uma vida a decorrer à nossa frente, diante dos olhos do leitor. Foi o que tentei fazer.
No livro percebemos que, para Cardoso Pires, o facto de ter tido uma infância «de menino rico de classe média, num meio pequeno-burguês, sem acidentes na vida» era de certa forma um entrave para se tornar escritor. É uma ideia curiosa. Enquanto escritor, como é que o Bruno encara essa questão?
Não sei. De uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde, com mais ou menos intensidade, todos nos revoltamos contra a nossa situação e passamos por períodos de construção e de afirmação da nossa personalidade. E, quando nos revoltamos, normalmente fazemo-lo contra aquilo que nos rodeia, contra o que nos moldou e nos formou. Claro que isto varia de grau e consoante a personalidade de cada um.
No caso de Cardoso Pires, até ao início da adolescência ele viveu um período de muita obediência, com ocasionais surtos de rebeldia. Era um menino da igreja, fez a catequese, depois deu aulas aos catequistas em formação… Mas a partir daí revolta-se, não só contra esses valores que lhe foram inoculados, mas também contra todos os valores da sua classe social de origem, dessa pequena burguesia, que na minha opinião foi o sustentáculo social do Estado Novo. Muitas dessas pessoas tinham passado por esse período efervescente da Primeira República e desejavam acima de tudo ordem e paz social. O Cardoso Pires revoltou-se muito depressa contra isso.
Achava que poderia ter tido uma educação mais livre, mais progressista, se o pai se tivesse imposto em relação à mãe. O pai era um bonacheirão que deixava essas coisas a cargo da mulher e não se preocupava muito. E de alguma forma o Cardoso Pires recriminava-o por isso. Gostava muito do pai, mas achava que ele tinha sido dominado pela mãe. Nesse sentido, revoltou-se contra tudo. Como tinha sido formado no clima um pouco claustrofóbico do Estado Novo, como ele próprio dizia, naturalmente também se revoltou contra isso.
Revoltamo-nos, muitas vezes, contra aquilo que nos é mais próximo e que sentimos que ameaça sufocar a nossa liberdade e a nossa personalidade. No caso dele, acho que era mais do que isso, também era um traço de personalidade. Os irmãos, por exemplo, cresceram no mesmo ambiente e tinham personalidades diferentes e comportamentos distintos. Ele era de facto o rebelde da família, o que é curioso, porque era o mais velho, e normalmente são os mais novos ou os irmãos do meio que são mais revoltados.
Uma vez Cardoso Pires encontrou Alves Redol num café do Chiado e, apesar de em tempos ter chorado com os livros deste, atacou-o, dizendo-lhe que era responsável pela literatura mais detestável que se publicava. Eram tempos diferentes, como eram tempos diferentes os do Manifesto Anti-Dantas, mas, atualmente, existem ódios de estimação ou animosidades na nossa literatura entre movimentos e gerações diferentes? Vivemos tempos mais pacíficos ou continua a existir essa picardia?
Não, nessa época era assim mesmo, tanto em termos públicos como privados. Havia inimizades e animosidades que se tornavam públicas e há uma razão muito simples para isso: existia mais convívio entre os escritores, havia redes de relações completamente diferentes das que temos hoje em dia. Havia correntes literárias, tertúlias, e apesar do Cardoso Pires não ser grande adepto, frequentava algumas.
No caso de Alves Redol, quando Cardoso Pires o criticou publicamente estava muito ligado a Mário Cesariny e ao Alexandre O'Neill, que, na época, apesar de serem muito jovens, eram opositores ao regime e começaram a achar que o Neorrealismo seguia fórmulas um pouco sentimentais e demagógicas. Consideravam que era uma literatura muito puxada ao sentimento, maniqueísta, com bons e maus de um lado e de outro. Sentiam que isso era um espartilho e queriam uma maior liberdade artística, experimentar outro tipo de literatura que não estivesse tão condicionada pela política, pelas questões ideológicas e também pela questão social. O Surrealismo acabou por ser uma saída para esse grupo, mas não para Cardoso Pires, que não sentia afinidade com esse tipo de sensibilidade artística e não era poeta. Quase todos os surrealistas eram poetas ou pintores e, ainda que ele fosse um diletante das artes plásticas, não era um artista desse tipo. Havia alguns prosadores que admirava e de quem se aproximou, como Carlos de Oliveira e Mário Dionisio, que aliás também era crítico foi a pessoa a quem o Cardoso Pires deu a ler o seu primeiro livro, ainda em manuscrito, em 1947. O convívio com esse grupo criou amizades, mas também desconfiança e conflitos. Teve vários ao longo da carreira, porque frequentavam todos os mesmos locais e tinham amigos em comum.
Hoje acho que temos algo diferente. Vivemos um meio literário de certo forma mais atomizado e cada escritor está um pouco no seu canto, a fazer o seu trabalho. É claro que pode haver preferências e até casos de amizade, mas já não há aquele aspeto de convívio social tão forte como existia na época de Cardoso Pires, nem um convívio social que se confunda com a adesão a ideologias políticas e estéticas. Creio que atualmente também haverá alguns conflitos, há sempre, porque as pessoas acabam por se cruzar, o meio é pequeno e é normal que haja desentendimentos e invejas. Obras de que não gostamos, pessoas de que não gostamos e pessoas que não gostam do que fazemos. Faz parte, mas não com a dimensão que tinha há sessenta ou setenta anos.
Ao longo do livro percebemos que a suposta animosidade entre Cardoso Pires e Saramago não era real. De qualquer forma, acha que para Cardoso Pires e a eternidade da sua obra foi mais positivo ou negativo ter sido contemporâneo de Saramago e de Lobo Antunes?
Creio que o facto de surgirem naquele período escritores tão bons, com marcas pessoais tão fortes, com estilos tão marcados e tão marcantes e com sucesso, foi algo positivo também nesse sentido. O próprio Cardoso Pires falava dessa espécie de idade de ouro da literatura portuguesa, com o aparecimento de uma série de romancistas de grande qualidade, como Saramago e Lobo Antunes, e do interesse que isso gerou no estrangeiro em torno da literatura portuguesa.
Penso que todos beneficiaram disso. Claro que o Nobel que depois é atribuído a Saramago também favoreceu a literatura portuguesa e a literatura de língua portuguesa no seu todo. Todos ficaram a ganhar nesse aspeto. Creio que não prejudicou a obra de ninguém o facto de haver um nome forte (Saramago) que se destacou internacionalmente em comparação com os seus contemporâneos. O facto de Saramago ser muito traduzido e reconhecido lá fora não foi algo feito às custas dos outros. Se os outros não foram tão traduzidos ou não conheceram o mesmo sucesso, isso não se deveu ao sucesso do Saramago, pelo contrário: o sucesso dele ajudou a divulgar autores que de outra forma nunca teriam sido traduzidos. Se conviviam bem com o sucesso uns dos outros? Às vezes não, mas isso não prejudicou a obra de ninguém.
Em relação ao Cardoso Pires, creio que sentiu a dada altura, depois de ter ganhado um prémio literário com a Balada da Praia dos Cães, que não podia ficar outros catorze anos sem publicar um romance. E isso, em parte, também se devia ao facto de escritores como Saramago e Lobo Antunes terem um ritmo de produção e de publicação muito forte. Não estou com isto a dizer que ele os imitou, mas que tinha noção de que era importante não perder o comboio e deixar passar outros catorze anos, como aconteceu entre a publicação de O Delfim e a Balada da Praia dos Cães.
O romance Alexandra Alpha, que foi publicado em 87, é um romance um pouco estranho na obra de Cardoso Pires, é muito mais longo do que os outros, por exemplo. Na altura houve até quem lhe dissesse que o romance poderia ter menos duzentas páginas e, de facto, tendo a concordar que é um livro um pouco desequilibrado. Tem partes muito boas e outras que são mais fracas, mas creio que isso corresponde a uma tentativa dele de mudar um pouco o estilo. Já o tinha feito em outras ocasiões, mudar o estilo e soltar um pouco a mão. Ele, que é um autor contido, muito preciso, em Alexandra Alpha tenta soltar realmente a mão e até há uns laivos de realismo mágico. Creio que, em parte, isso se deveu um pouco a esse contexto e ao facto de não demorar tanto tempo para publicar. A verdade é que Alexandra Alpha foi recebido de uma forma um pouco fria pela crítica e pelo público, e acabou por ser o último romance publicou.
A meio do livro, conta-nos como nos anos 60 houve uma mudança a nível dos prémios literários e refere inclusivamente o Prémio Camilo Castelo Branco, que recebeu há pouco tempo. Cardoso Pires achava que os prémios eram fundamentais para a promoção da profissão; o Bruno, que já recebeu tantos prémios literários, como vê essa questão? São importantes para a promoção dos autores?
Claro que são, sempre foram. Em Portugal, em comparação com outros países, têm um peso menor, porque há países em que um prémio significa um aumento exponencial das vendas. Aqui, senti isso com o prémio José Saramago: teve efeito na visibilidade dos meus livros e do romance que venceu esse prémio em particular, As Primeiras Coisas.
Alguns prémios são um bocado envergonhados e os próprios escritores às vezes têm quase pudor de receber um prémio, são acusados de se prostituírem ou estarem a vender. Cá ainda se gosta muito em alguns setores daquela falsa modéstia, daquele estilo Herberto Helder, de recusar prémios porque se está acima disso. Eu não estou. Este é o meu trabalho, gosto que o meu trabalho seja reconhecido e gosto de receber prémios. Não escrevo para isso, seria completamente tonto fazê-lo, até porque há um certo lado aleatório nos prémios e a composição do júri é determinante. O júri pode gostar de um determinado livro e não gostar de outro e isso tem que ver com as preferências pessoais de cada um. Um prémio não é um carimbo de qualidade, mas é um reconhecimento. Para vivermos em Portugal dos livros, e é muito difícil viver só dos direitos de autor, os prémios ajudam um pouco, até na dignificação do trabalho do escritor.
Uma das coisas que também percebi ao escrever a biografia é que situações como esta, que julgamos serem típicas do nosso tempo, já aconteciam há cinquenta ou sessenta anos. O Cardoso Pires tinha perfeita consciência de que um livro é uma obra de arte e que um escritor deve ser sério e rigoroso quando está a escrever, mas, a partir do momento em que o livro está pronto, passa a ser um produto. E ele queria vender o seu produto, que era a forma de ser recompensado pelo seu trabalho. A esse nível sempre teve uma atitude muito livre e descomplexada, não fazia nada aquele género do intelectual na torre de marfim. Queria ser um profissional da escrita, um escritor profissional, e olhava para essas coisas (prémios e promoções) como instrumentos fundamentais para a dignificação do ofício e do trabalho do escritor.
José Cardoso Pires passou pela experiência de ver a sua obra censurada. O Bruno nasceu depois do 25 de abril. Como foi viver isso através da experiência do seu biografado? Acha que ainda hoje existe alguma forma de censura ou livramo-nos realmente disso?
Há diferentes formas de censura. Hoje não temos uma censura oficial, que tenha poder para tirar um livro do mercado, por exemplo. Mas, às vezes, devido a determinado comportamento ou até a um crime cometido pelo autor, há livros que são retirados das lojas ou então as editoras não aceitam publicá-los. São outros mecanismos de censura, não oficiais, mas também perigosos.
Durante o Estado Novo havia uma censura de estado, oficial. Mas, ao contrário do que acontecia com a imprensa, não existia censura prévia para os livros de ficção, a não ser para o Alves Redol. Os livros eram publicados e só então passavam pela censura, o que representava um risco ainda maior para os editores. Publicavam, investiam na publicação do livro, sem saber se seria depois apreendido.
No caso do único livro de Cardoso Pires que foi apreendido pela censura, por ser considerado imoral (e não por razões políticas), imagino que tenha sido um valente murro no estômago para o autor, depois de ter dedicado anos a escrevê-lo. E em parte condicionou-o porque, no livro seguinte, que tinha um contexto político algo sensível e lhe poderia trazer, portanto, problemas com a censura, Cardoso Pires arranjou um artifício para garantir que o livro não seria apreendido, que foi publicá-lo primeiro no estrangeiro. Mas também disse, ainda em ditadura, que não se desculpava com a censura. As condições eram o que eram e ele escrevia, conhecedor dessas condições, mas dentro disso, e, fora isso, em total liberdade.
Não desculpava eventuais fracassos estéticos ou literários com a censura. Os livros eram os livros que conseguia escrever. Claro que é melhor escrever havendo liberdade, sem censura, mas Cardoso Pires nunca se desculpou com isso, nunca justificou livros menos conseguidos com a censura e nisso revelou uma grande seriedade.
Que relação tinha com Cardoso Pires antes de escrever este livro? Houve alguma coisa que mudou?
Mudou. Hoje considero-o um contista extraordinário, que era uma faceta da sua obra que não conhecia tão bem. Não conhecia o Jogos de Azar, que é um livro de 1963 que reúne contos dos seus dois primeiros livros, mas já extensamente revistos. É um livro extraordinário, com contos magníficos como «Os Caminheiros», que é um dos melhores contos de sempre em língua portuguesa. Hoje estou até em crer que ele era, acima de tudo, um grande contista. Um escritor de folgo curto.
Também passei a ler de forma diferente O Delfim. Não foi um livro que me tivesse conquistado quando o li pela primeira vez, há mais de vinte anos, mas hoje acho que é a sua obra-prima. É um livro de rutura dentro da obra dele e também na língua portuguesa. É formalmente inovador e tem também algumas ideias algo inesperadas, que até lhe valerem críticas por parte de correligionários da esquerda. Hoje aprecio de facto de forma diferente aquilo que fez nesse livro.
Acredito que os textos valem por si, mas conhecer melhor a obra no geral e o contexto em que foram escritas não prejudica. É possível ter o prazer da leitura sem outros acessórios, ou sem conhecimento profundo da obra e das circunstâncias, mas, se soubermos mais, não perdemos nada com isso e tornamo-nos melhores leitores, com mais ferramentas. Espero que a biografia sirva para isso, para trazer novos leitores para a obra de Cardoso Pires e para dar também novos instrumentos de leitura àqueles que já o liam.
Logo no início da nossa conversa o Bruno disse que já tinha há muito tempo a ideia de fazer uma biografia. Com este livro saciou essa sua vontade ou faria mais biografias? Esquecendo a questão de funcionarem em termos de mercado ou não, ainda sente vontade de escrever biografias?
Foi um trabalho muito esgotante, cansativo, mas também me trouxe muito prazer. É uma mistura de duas coisas: por um lado, descobrir factos que não eram praticamente do conhecimento de ninguém e, por outro, o trabalho de montar toda essa informação, a arquitetura que implica uma obra deste género.
Mas, sim, gostava de fazer outra biografia, desde que tivesse condições para isso. Estamos a falar de três anos de vida, três anos de trabalho intenso, de viver, comer e pensar, sempre com Cardoso Pires por companhia. É muito exigente e desgastante, mesmo em termos físicos.
Claro que nunca há condições ideais, mas dentro de um contexto… Este é um trabalho que funciona de forma diferente, porque não é um trabalho artístico, é uma biografia sobre uma figura importante para a literatura portuguesa: dar a conhecer a vida e a obra deste homem. Faria até sentido que funcionasse com mecenato, com o patrocínio de empresas, por exemplo.
Ruy Castro, que é um autor brasileiro cujas biografias são para mim a referência máxima do género, escreveu a biografia do Garrincha, da Carmen Miranda e do Nelson Rodrigues, por exemplo, mas teve o apoio de empresas brasileiras que financiaram essas obras, que lhe pagaram para que fizesse esse trabalho.
Tem de haver uma certa dose de loucura e de ambição para nos lançarmos em projetos como este sem sabermos se vamos conseguir levá-lo a bom porto. E depois há a outra parte: saber se o livro vai chegar ou não aos leitores. Porque, se não chegar, há aquela sensação de que ficamos a meio-caminho.
Já sabe o que vai escrever a seguir?
Estou sempre a escrever, escrevo, todos os dias, escrevo crónicas...
Um livro, não sei, se calhar já estou a escrever um e ainda não sei…. Tenho várias ideias, mas, respondendo assertivamente à pergunta, ainda não me sentei a escrever. Mas um livro começa muito antes disso.
Neste momento sinto vontade de escrever qualquer coisa mais próxima da ficção, que me permita uma maior liberdade, não estar tão preso aos factos como tive de estar na biografia. Ou talvez até um cruzamento entre ficção e não ficção…
E qual foi o último livro de que gostou muito?
Estou a terminar O Homem do Casaco Vermelho, de Julian Barnes. Não é exatamente um dos meus autores de eleição, mas é um autor de que gosto muito. Agrada-me sobretudo a forma como trabalha os factos e a ficção. Este é um livro de não-ficção, mas, por vezes, parece até um livro de ficção. Ouvimos a voz a que estamos habituados dos livros de ficção do autor; livros de ficção esses que já têm muita não-ficção também, um disfarce. É um livro de que estou a gostar muito e que se calhar também servirá de inspiração para coisas que ainda virei a fazer.
Também estou a ler um livro que saiu recentemente em Espanha, que é a tese de doutoramento do Mario Vargas Llosa e que é sobre a obra do García Márquez. Foi publicado no início dos anos 70, quando ainda eram amigos. São dois deuses e fazem parte do meu panteão. Vargas Llosa junta a uma arte incrível de romancista, uma inigualável capacidade ensaística e de compreensão teórica do que é um romance. Creio que é o escritor que melhor escreve sobre ficção, sobre o que é um romance. Tem outra obra, La Orgía Perpetua, que é uma autêntica lição de literatura. Funciona quase como um curso de escrita criativa, de compreensão e construção do romance.
Tinha a ideia de fazer uma biografia já há algum tempo, praticamente desde que comecei a escrever e a publicar. Mas a biografia que tinha em mente exigia muito tempo, um grande investimento da minha parte e a certeza de que o livro seria depois publicado, o que não dependia apenas de mim. Acabei por ficar à espera das condições ideais e há cerca de três anos e meio tive um convite por parte do Rui Couceiro, editor da Contraponto, para fazer uma biografia no âmbito desta coleção de biografias de figuras da cultura portuguesa. Foi-me sugerido um nome (que não era o de José Cardoso Pires), mas depois de pensar um pouco fiz uma contraproposta e propus o Cardoso Pires, que o editor aceitou. A partir daí, comecei a trabalhar.
No fundo, juntou-se a fome à vontade de comer, juntou-se o útil ao agradável, juntou-se a minha vontade de fazer uma biografia com a oportunidade, com um convite.
Então acabou por ser o Bruno a escolher o biografado. Porque é que escolheu José Cardoso Pires? Pela obra? Pela vida? Pela conjugação das duas coisas?
Da vida de José Cardoso Pires, sabia pouco. Conhecia aquilo que os leitores da obra dele acabam por saber, mas hoje, olhando para trás, apercebo-me de que sabia muito pouco sobre a vida e até sobre a obra dele. No fundo, conhecia os livros mais importantes, apesar de não ser uma obra muito extensa.
O que me interessou foi sobretudo a qualidade de José Cardoso Pires enquanto escritor, isso foi decisivo. E o biografado tinha de ser também alguém com uma vida marcante. Por um lado, tinha de ser um escritor cuja obra eu admirasse e, por outro, alguém que tivesse tido uma vida suficientemente rica para me permitir não só fazer o retrato íntimo e pessoal desta figura, mas também o retrato da época e da sociedade em que ele viveu e escreveu.
Integrado Marginal, a biografia do escritor José Cardos Pires pela pena de outro ficcionista, Bruno Vieira Amaral.
Não. O que aconteceu foi que, ao adquirir um conhecimento mais pormenorizado de alguns meios da época, como o intelectual e o literário, e também ao ter conhecimento do que fazia o Estado Novo diariamente, usando a PIDE para reprimir e vigiar as pessoas, aquilo em que pensei foi, no futuro, aproveitar esse material para fazer algo mais próximo da ficção.
Para se escrever sobre um determinado ambiente é preciso conhecê-lo bem e, se não o vivemos, temos de estudá-lo, fazer pesquisa e investigação. Por isso surgiu essa ideia, de aproveitar até algumas das personagens, para explorar o meio intelectual e a sociedade daquela época, sobre os quais nunca tinha escrito antes, na minha ficção, posteriormente. Não quer dizer que isso vá acontecer, mas é uma possibilidade. A acontecer, é para projetos independentes e completamente à parte da biografia. Nunca me senti tentado, ao escrever a biografia, de ficcionar o que quer que fosse.
O livro exigiu um intenso trabalho de pesquisa tanto acerca do contexto histórico como da vida de José Cardoso Pires. Como fez essa pesquisa? O facto de ter estudado História ajudou? Conversou com os herdeiros?
Sim, falei com muitas pessoas que conheceram José Cardoso Pires, que trabalharam e conviveram com ele em situações muitos distintas e diversas. Pessoas que colaboraram com ele nos jornais e revistas, pessoas do meio literário, editores que ainda estão vivos, falei com a família, com a viúva, a Edite, e com as filhas, a Ana e a Rita. Conversei também com um sobrinho que é jornalista do Público e com muitas outras pessoas: amigos, pessoas ligadas ao jornalismo, pessoas que o conheceram numa fase anterior, quando ele era mais jovem, e outras que o conheceram já na fase final da vida.
Como nasceu em 1925, já não consegui falar com ninguém que o tivesse conhecido durante a infância. A irmã, que era mais nova dois ou três anos, morreu poucos meses antes de eu começar esta investigação.
As entrevistas foram um dos meios que usei para saber mais sobre a vida do José Cardoso Pires, mas também consultei muitos documentos: desde a imprensa da época à correspondência que trocou com intelectuais e amigos, também eles figuras relevantes do meio literário e político. E claro, outra documentação, desde os arquivos da PIDE aos do Exército onde fez a tropa.
Tentei lançar mão a toda a informação que consegui encontrar sobre a vida de Cardoso Pires e depois então, com base nisso, comecei o trabalho criativo. Não no sentido da ficção, mas de organizar essa informação de modo a formar uma narrativa coerente, que é, aliás, apenas uma das narrativas que se pode contar a partir dos mesmos factos. Acredito que outra pessoa na posse dos mesmos dados e documentos escreveria uma biografia complemente diferente.
Somos, é claro, condicionados pelos factos, mas temos de pôr em causa e questionar criticamente as fontes. Isso talvez tenha sido um dos maiores ensinamentos que aprendi enquanto estudante de História e que me foi muito útil. Não podemos ler da mesma forma uma entrevista à imprensa para promoção de um livro como lemos a correspondência que trocou imaginando que nunca seria lida por mais ninguém a não ser o destinatário da carta. É importante fazer essa valoração crítica das fontes e do que está lá contido, questionando, pondo em causa e não dando por certo e factual tudo o que é dito, mesmo pelo biografado. E depois, respeitando a verdade dos factos, tentar chegar a uma narrativa que dê uma ideia de uma vida a decorrer à nossa frente, diante dos olhos do leitor. Foi o que tentei fazer.
«QUANDO NOS REVOLTAMOS, NORMALMENTE FAZEMO-LO CONTRA AQUILO QUE NOS RODEIA, CONTRA O QUE NOS MOLDOU E NOS FORMOU.»
No livro percebemos que, para Cardoso Pires, o facto de ter tido uma infância «de menino rico de classe média, num meio pequeno-burguês, sem acidentes na vida» era de certa forma um entrave para se tornar escritor. É uma ideia curiosa. Enquanto escritor, como é que o Bruno encara essa questão?
Não sei. De uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde, com mais ou menos intensidade, todos nos revoltamos contra a nossa situação e passamos por períodos de construção e de afirmação da nossa personalidade. E, quando nos revoltamos, normalmente fazemo-lo contra aquilo que nos rodeia, contra o que nos moldou e nos formou. Claro que isto varia de grau e consoante a personalidade de cada um.
No caso de Cardoso Pires, até ao início da adolescência ele viveu um período de muita obediência, com ocasionais surtos de rebeldia. Era um menino da igreja, fez a catequese, depois deu aulas aos catequistas em formação… Mas a partir daí revolta-se, não só contra esses valores que lhe foram inoculados, mas também contra todos os valores da sua classe social de origem, dessa pequena burguesia, que na minha opinião foi o sustentáculo social do Estado Novo. Muitas dessas pessoas tinham passado por esse período efervescente da Primeira República e desejavam acima de tudo ordem e paz social. O Cardoso Pires revoltou-se muito depressa contra isso.
Achava que poderia ter tido uma educação mais livre, mais progressista, se o pai se tivesse imposto em relação à mãe. O pai era um bonacheirão que deixava essas coisas a cargo da mulher e não se preocupava muito. E de alguma forma o Cardoso Pires recriminava-o por isso. Gostava muito do pai, mas achava que ele tinha sido dominado pela mãe. Nesse sentido, revoltou-se contra tudo. Como tinha sido formado no clima um pouco claustrofóbico do Estado Novo, como ele próprio dizia, naturalmente também se revoltou contra isso.
Revoltamo-nos, muitas vezes, contra aquilo que nos é mais próximo e que sentimos que ameaça sufocar a nossa liberdade e a nossa personalidade. No caso dele, acho que era mais do que isso, também era um traço de personalidade. Os irmãos, por exemplo, cresceram no mesmo ambiente e tinham personalidades diferentes e comportamentos distintos. Ele era de facto o rebelde da família, o que é curioso, porque era o mais velho, e normalmente são os mais novos ou os irmãos do meio que são mais revoltados.
Uma vez Cardoso Pires encontrou Alves Redol num café do Chiado e, apesar de em tempos ter chorado com os livros deste, atacou-o, dizendo-lhe que era responsável pela literatura mais detestável que se publicava. Eram tempos diferentes, como eram tempos diferentes os do Manifesto Anti-Dantas, mas, atualmente, existem ódios de estimação ou animosidades na nossa literatura entre movimentos e gerações diferentes? Vivemos tempos mais pacíficos ou continua a existir essa picardia?
Não, nessa época era assim mesmo, tanto em termos públicos como privados. Havia inimizades e animosidades que se tornavam públicas e há uma razão muito simples para isso: existia mais convívio entre os escritores, havia redes de relações completamente diferentes das que temos hoje em dia. Havia correntes literárias, tertúlias, e apesar do Cardoso Pires não ser grande adepto, frequentava algumas.
No caso de Alves Redol, quando Cardoso Pires o criticou publicamente estava muito ligado a Mário Cesariny e ao Alexandre O'Neill, que, na época, apesar de serem muito jovens, eram opositores ao regime e começaram a achar que o Neorrealismo seguia fórmulas um pouco sentimentais e demagógicas. Consideravam que era uma literatura muito puxada ao sentimento, maniqueísta, com bons e maus de um lado e de outro. Sentiam que isso era um espartilho e queriam uma maior liberdade artística, experimentar outro tipo de literatura que não estivesse tão condicionada pela política, pelas questões ideológicas e também pela questão social. O Surrealismo acabou por ser uma saída para esse grupo, mas não para Cardoso Pires, que não sentia afinidade com esse tipo de sensibilidade artística e não era poeta. Quase todos os surrealistas eram poetas ou pintores e, ainda que ele fosse um diletante das artes plásticas, não era um artista desse tipo. Havia alguns prosadores que admirava e de quem se aproximou, como Carlos de Oliveira e Mário Dionisio, que aliás também era crítico foi a pessoa a quem o Cardoso Pires deu a ler o seu primeiro livro, ainda em manuscrito, em 1947. O convívio com esse grupo criou amizades, mas também desconfiança e conflitos. Teve vários ao longo da carreira, porque frequentavam todos os mesmos locais e tinham amigos em comum.
Hoje acho que temos algo diferente. Vivemos um meio literário de certo forma mais atomizado e cada escritor está um pouco no seu canto, a fazer o seu trabalho. É claro que pode haver preferências e até casos de amizade, mas já não há aquele aspeto de convívio social tão forte como existia na época de Cardoso Pires, nem um convívio social que se confunda com a adesão a ideologias políticas e estéticas. Creio que atualmente também haverá alguns conflitos, há sempre, porque as pessoas acabam por se cruzar, o meio é pequeno e é normal que haja desentendimentos e invejas. Obras de que não gostamos, pessoas de que não gostamos e pessoas que não gostam do que fazemos. Faz parte, mas não com a dimensão que tinha há sessenta ou setenta anos.
Ao longo do livro percebemos que a suposta animosidade entre Cardoso Pires e Saramago não era real. De qualquer forma, acha que para Cardoso Pires e a eternidade da sua obra foi mais positivo ou negativo ter sido contemporâneo de Saramago e de Lobo Antunes?
Creio que o facto de surgirem naquele período escritores tão bons, com marcas pessoais tão fortes, com estilos tão marcados e tão marcantes e com sucesso, foi algo positivo também nesse sentido. O próprio Cardoso Pires falava dessa espécie de idade de ouro da literatura portuguesa, com o aparecimento de uma série de romancistas de grande qualidade, como Saramago e Lobo Antunes, e do interesse que isso gerou no estrangeiro em torno da literatura portuguesa.
Penso que todos beneficiaram disso. Claro que o Nobel que depois é atribuído a Saramago também favoreceu a literatura portuguesa e a literatura de língua portuguesa no seu todo. Todos ficaram a ganhar nesse aspeto. Creio que não prejudicou a obra de ninguém o facto de haver um nome forte (Saramago) que se destacou internacionalmente em comparação com os seus contemporâneos. O facto de Saramago ser muito traduzido e reconhecido lá fora não foi algo feito às custas dos outros. Se os outros não foram tão traduzidos ou não conheceram o mesmo sucesso, isso não se deveu ao sucesso do Saramago, pelo contrário: o sucesso dele ajudou a divulgar autores que de outra forma nunca teriam sido traduzidos. Se conviviam bem com o sucesso uns dos outros? Às vezes não, mas isso não prejudicou a obra de ninguém.
Em relação ao Cardoso Pires, creio que sentiu a dada altura, depois de ter ganhado um prémio literário com a Balada da Praia dos Cães, que não podia ficar outros catorze anos sem publicar um romance. E isso, em parte, também se devia ao facto de escritores como Saramago e Lobo Antunes terem um ritmo de produção e de publicação muito forte. Não estou com isto a dizer que ele os imitou, mas que tinha noção de que era importante não perder o comboio e deixar passar outros catorze anos, como aconteceu entre a publicação de O Delfim e a Balada da Praia dos Cães.
O romance Alexandra Alpha, que foi publicado em 87, é um romance um pouco estranho na obra de Cardoso Pires, é muito mais longo do que os outros, por exemplo. Na altura houve até quem lhe dissesse que o romance poderia ter menos duzentas páginas e, de facto, tendo a concordar que é um livro um pouco desequilibrado. Tem partes muito boas e outras que são mais fracas, mas creio que isso corresponde a uma tentativa dele de mudar um pouco o estilo. Já o tinha feito em outras ocasiões, mudar o estilo e soltar um pouco a mão. Ele, que é um autor contido, muito preciso, em Alexandra Alpha tenta soltar realmente a mão e até há uns laivos de realismo mágico. Creio que, em parte, isso se deveu um pouco a esse contexto e ao facto de não demorar tanto tempo para publicar. A verdade é que Alexandra Alpha foi recebido de uma forma um pouco fria pela crítica e pelo público, e acabou por ser o último romance publicou.
«CÁ AINDA SE GOSTA MUITO DAQUELA FALSA MODÉSTIA, DAQUELE ESTILO HERBERTO HERLDER, DE RECUSAR PRÉMIOS PORQUE SE ESTÁ ACIMA DISSO. EU NÃO ESTOU. ESTE É O MEU TRABALHO E GOSTO QUE SEJA RECONHECIDO.»
A meio do livro, conta-nos como nos anos 60 houve uma mudança a nível dos prémios literários e refere inclusivamente o Prémio Camilo Castelo Branco, que recebeu há pouco tempo. Cardoso Pires achava que os prémios eram fundamentais para a promoção da profissão; o Bruno, que já recebeu tantos prémios literários, como vê essa questão? São importantes para a promoção dos autores?
Claro que são, sempre foram. Em Portugal, em comparação com outros países, têm um peso menor, porque há países em que um prémio significa um aumento exponencial das vendas. Aqui, senti isso com o prémio José Saramago: teve efeito na visibilidade dos meus livros e do romance que venceu esse prémio em particular, As Primeiras Coisas.
Alguns prémios são um bocado envergonhados e os próprios escritores às vezes têm quase pudor de receber um prémio, são acusados de se prostituírem ou estarem a vender. Cá ainda se gosta muito em alguns setores daquela falsa modéstia, daquele estilo Herberto Helder, de recusar prémios porque se está acima disso. Eu não estou. Este é o meu trabalho, gosto que o meu trabalho seja reconhecido e gosto de receber prémios. Não escrevo para isso, seria completamente tonto fazê-lo, até porque há um certo lado aleatório nos prémios e a composição do júri é determinante. O júri pode gostar de um determinado livro e não gostar de outro e isso tem que ver com as preferências pessoais de cada um. Um prémio não é um carimbo de qualidade, mas é um reconhecimento. Para vivermos em Portugal dos livros, e é muito difícil viver só dos direitos de autor, os prémios ajudam um pouco, até na dignificação do trabalho do escritor.
Uma das coisas que também percebi ao escrever a biografia é que situações como esta, que julgamos serem típicas do nosso tempo, já aconteciam há cinquenta ou sessenta anos. O Cardoso Pires tinha perfeita consciência de que um livro é uma obra de arte e que um escritor deve ser sério e rigoroso quando está a escrever, mas, a partir do momento em que o livro está pronto, passa a ser um produto. E ele queria vender o seu produto, que era a forma de ser recompensado pelo seu trabalho. A esse nível sempre teve uma atitude muito livre e descomplexada, não fazia nada aquele género do intelectual na torre de marfim. Queria ser um profissional da escrita, um escritor profissional, e olhava para essas coisas (prémios e promoções) como instrumentos fundamentais para a dignificação do ofício e do trabalho do escritor.
José Cardoso Pires passou pela experiência de ver a sua obra censurada. O Bruno nasceu depois do 25 de abril. Como foi viver isso através da experiência do seu biografado? Acha que ainda hoje existe alguma forma de censura ou livramo-nos realmente disso?
Há diferentes formas de censura. Hoje não temos uma censura oficial, que tenha poder para tirar um livro do mercado, por exemplo. Mas, às vezes, devido a determinado comportamento ou até a um crime cometido pelo autor, há livros que são retirados das lojas ou então as editoras não aceitam publicá-los. São outros mecanismos de censura, não oficiais, mas também perigosos.
Durante o Estado Novo havia uma censura de estado, oficial. Mas, ao contrário do que acontecia com a imprensa, não existia censura prévia para os livros de ficção, a não ser para o Alves Redol. Os livros eram publicados e só então passavam pela censura, o que representava um risco ainda maior para os editores. Publicavam, investiam na publicação do livro, sem saber se seria depois apreendido.
No caso do único livro de Cardoso Pires que foi apreendido pela censura, por ser considerado imoral (e não por razões políticas), imagino que tenha sido um valente murro no estômago para o autor, depois de ter dedicado anos a escrevê-lo. E em parte condicionou-o porque, no livro seguinte, que tinha um contexto político algo sensível e lhe poderia trazer, portanto, problemas com a censura, Cardoso Pires arranjou um artifício para garantir que o livro não seria apreendido, que foi publicá-lo primeiro no estrangeiro. Mas também disse, ainda em ditadura, que não se desculpava com a censura. As condições eram o que eram e ele escrevia, conhecedor dessas condições, mas dentro disso, e, fora isso, em total liberdade.
Não desculpava eventuais fracassos estéticos ou literários com a censura. Os livros eram os livros que conseguia escrever. Claro que é melhor escrever havendo liberdade, sem censura, mas Cardoso Pires nunca se desculpou com isso, nunca justificou livros menos conseguidos com a censura e nisso revelou uma grande seriedade.
Que relação tinha com Cardoso Pires antes de escrever este livro? Houve alguma coisa que mudou?
Mudou. Hoje considero-o um contista extraordinário, que era uma faceta da sua obra que não conhecia tão bem. Não conhecia o Jogos de Azar, que é um livro de 1963 que reúne contos dos seus dois primeiros livros, mas já extensamente revistos. É um livro extraordinário, com contos magníficos como «Os Caminheiros», que é um dos melhores contos de sempre em língua portuguesa. Hoje estou até em crer que ele era, acima de tudo, um grande contista. Um escritor de folgo curto.
Também passei a ler de forma diferente O Delfim. Não foi um livro que me tivesse conquistado quando o li pela primeira vez, há mais de vinte anos, mas hoje acho que é a sua obra-prima. É um livro de rutura dentro da obra dele e também na língua portuguesa. É formalmente inovador e tem também algumas ideias algo inesperadas, que até lhe valerem críticas por parte de correligionários da esquerda. Hoje aprecio de facto de forma diferente aquilo que fez nesse livro.
Acredito que os textos valem por si, mas conhecer melhor a obra no geral e o contexto em que foram escritas não prejudica. É possível ter o prazer da leitura sem outros acessórios, ou sem conhecimento profundo da obra e das circunstâncias, mas, se soubermos mais, não perdemos nada com isso e tornamo-nos melhores leitores, com mais ferramentas. Espero que a biografia sirva para isso, para trazer novos leitores para a obra de Cardoso Pires e para dar também novos instrumentos de leitura àqueles que já o liam.
Logo no início da nossa conversa o Bruno disse que já tinha há muito tempo a ideia de fazer uma biografia. Com este livro saciou essa sua vontade ou faria mais biografias? Esquecendo a questão de funcionarem em termos de mercado ou não, ainda sente vontade de escrever biografias?
Foi um trabalho muito esgotante, cansativo, mas também me trouxe muito prazer. É uma mistura de duas coisas: por um lado, descobrir factos que não eram praticamente do conhecimento de ninguém e, por outro, o trabalho de montar toda essa informação, a arquitetura que implica uma obra deste género.
Mas, sim, gostava de fazer outra biografia, desde que tivesse condições para isso. Estamos a falar de três anos de vida, três anos de trabalho intenso, de viver, comer e pensar, sempre com Cardoso Pires por companhia. É muito exigente e desgastante, mesmo em termos físicos.
Claro que nunca há condições ideais, mas dentro de um contexto… Este é um trabalho que funciona de forma diferente, porque não é um trabalho artístico, é uma biografia sobre uma figura importante para a literatura portuguesa: dar a conhecer a vida e a obra deste homem. Faria até sentido que funcionasse com mecenato, com o patrocínio de empresas, por exemplo.
Ruy Castro, que é um autor brasileiro cujas biografias são para mim a referência máxima do género, escreveu a biografia do Garrincha, da Carmen Miranda e do Nelson Rodrigues, por exemplo, mas teve o apoio de empresas brasileiras que financiaram essas obras, que lhe pagaram para que fizesse esse trabalho.
Tem de haver uma certa dose de loucura e de ambição para nos lançarmos em projetos como este sem sabermos se vamos conseguir levá-lo a bom porto. E depois há a outra parte: saber se o livro vai chegar ou não aos leitores. Porque, se não chegar, há aquela sensação de que ficamos a meio-caminho.
«SE CALHAR JÁ ESTOU A ESCREVER UM LIVRO E AINDA NÃO SEI… TENHO VÁRIAS IDEIAS, AINDA NÃO ME SENTEI A ESCREVER, MAS UM LIVRO COMEÇA MUITO ANTES DISSO.»
Estou sempre a escrever, escrevo, todos os dias, escrevo crónicas...
Um livro, não sei, se calhar já estou a escrever um e ainda não sei…. Tenho várias ideias, mas, respondendo assertivamente à pergunta, ainda não me sentei a escrever. Mas um livro começa muito antes disso.
Neste momento sinto vontade de escrever qualquer coisa mais próxima da ficção, que me permita uma maior liberdade, não estar tão preso aos factos como tive de estar na biografia. Ou talvez até um cruzamento entre ficção e não ficção…
E qual foi o último livro de que gostou muito?
Estou a terminar O Homem do Casaco Vermelho, de Julian Barnes. Não é exatamente um dos meus autores de eleição, mas é um autor de que gosto muito. Agrada-me sobretudo a forma como trabalha os factos e a ficção. Este é um livro de não-ficção, mas, por vezes, parece até um livro de ficção. Ouvimos a voz a que estamos habituados dos livros de ficção do autor; livros de ficção esses que já têm muita não-ficção também, um disfarce. É um livro de que estou a gostar muito e que se calhar também servirá de inspiração para coisas que ainda virei a fazer.
Também estou a ler um livro que saiu recentemente em Espanha, que é a tese de doutoramento do Mario Vargas Llosa e que é sobre a obra do García Márquez. Foi publicado no início dos anos 70, quando ainda eram amigos. São dois deuses e fazem parte do meu panteão. Vargas Llosa junta a uma arte incrível de romancista, uma inigualável capacidade ensaística e de compreensão teórica do que é um romance. Creio que é o escritor que melhor escreve sobre ficção, sobre o que é um romance. Tem outra obra, La Orgía Perpetua, que é uma autêntica lição de literatura. Funciona quase como um curso de escrita criativa, de compreensão e construção do romance.