Entrevista a Richard Osman

17 de janeiro de 2020
É muito provável que nunca tenha ouvido falar de Richard Osman (apesar de o apresentador de televisão britânico ser um enorme sucesso no seu próprio país há décadas), mas já ouviu com certeza falar do seu primeiro livro de ficção: O Clube do Crime das Quintas-Feiras.
Policial sensação deste Verão, este é um livro inteligente, divertido e viciante, sobre um crime que tem lugar num dos cenários mais improváveis para um policial: um pacato bairro de residências privadas para reformados.
Curioso? Leia a nossa entrevista com o autor para saber mais!

Richard Osman
Richard Osman
Porque é que decidiu escrever ficção nesta altura da sua vida e porquê um romance policial?
Sempre fui viciado em policiais. Ao longo dos anos, fui devorando os livros de escritores como Ian Rankin, Val Mcdermid, Ruth Rendell, Reginald Hill - e as suas histórias infiltraram-se profundamente em mim.
Além disso, escrever um livro de mistério dá-nos a desculpa ideal para pensarmos no homicídio perfeito – no caso de algum dia precisarmos de cometer um.


Como é que surgiu a ideia de fazer de quatro amigos septuagenários os “detetives” de O Clube do Crime das Quintas-Feiras?
As pessoas na casa dos setenta têm uma vasta experiência de vida, o que de certa forma as torna nos detetives perfeitos. Além disso, façam que fizerem, para pessoas dessa idade já não há propriamente grandes consequências, e é muito divertido escrever sobre personagens assim.


O Clube do Crime das Quintas-Feiras tem lugar num pacífico lar da terceira idade, numa pequena cidade. Como é que surgiu essa ideia?
A ideia surgiu quando fiz uma visita a um lar de aposentados. Adorei as amizades que aí testemunhei e a natureza algo maliciosa de muitos dos residentes. Tantos risos, tanto vinho e tanta sabedoria… Descobri ali uma mescla de pessoas tão cativante, que fiquei com vontade de partilhá-la com o resto do mundo.

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O Clube do Crime das Quintas-Feiras é o primeiro livro de ficção de Richard Osman.



Joyce é a única personagem desse grupo de quatro amigos septuagenários que é também uma das narradoras do livro. Porquê?
A Joyce é a personagem mais parecida comigo, na forma de pensar. A sua mente vagueia constantemente em diferentes direções e foi um prazer enorme escrever assumindo a perspetiva dela: tanto fala de forma muito séria sobre o assassinato, como começa a divagar e conta uma anedota qualquer relacionada com o aspirador. Tem uma personalidade perspicaz e empática que lhe permite identificar coisas que os outros, especialmente a Elizabeth, deixam escapar. A Joyce gosta de se sentar a pensar e deslindar problemas.
Enquanto escrevia o livro, dava-me muito gosto “ouvi-la” e depois registar o que dizia. Às vezes sentia-me como se estivesse possuído pelo espírito de uma senhora de 76 anos, que é algo que recomendo a qualquer pessoa.





No final do livro, nos «Agradecimentos», conta que Mark Billingham lhe deu o incentivo de que precisava para escrever um romance e que também lhe disse que não existem regras no que toca à escrita de policiais, para logo depois lhe falar de duas excelentes, que manteve em mente ao longo da escrita deste livro. Pode partilhá-las connosco?
Tive de jurar segredo acerca dessas regras!


As quatro personagens principais do romance, Ron, Joyce, Elizabeth e Ibrahim, são muito diferentes entre si. Qual delas é mais parecida consigo?
Acho que sou muito parecido com a Joyce, que consegue sempre o que quer, mas com a gentileza e a cortesia britânicas.
Também tenho o amor de Ibrahim por listas e estatísticas, e o medo dele da espontaneidade.
Às vezes gostaria de ser um pouco mais como a Elizabeth e o Ron, que são capazes de seguir o seu caminho como autênticos ferros compressores, deixando um lastro de caos à passagem, mas sempre com boas intenções e de coração puro.
Acho que algures entre os quatro está provavelmente o ser humano perfeito!


Qual é o livro mias assustador que já leu?
Creio que é impossível ser mais assustador do que Stephen King ou Joe Hill.


E que policial de outro autor gostaria de ter escrito?
Adoro o Tom Ripley, de Patricia Highsmith. Sei que uma personagem como esta não deveria provavelmente suscitar um efeito apaziguador em ninguém, mas a verdade é que acho a ideia de que ele pode andar ainda por aí, escondido algures nos confins de França, estranhamente reconfortante.


Qual é o cenário perfeito para escrever?
Escrever um romance é muito, mas mesmo muito difícil. Quase desisti duas ou três vezes. Se há por aí alguém a ler isto que deitou recentemente um romance ao lixo, vá já recuperá-lo, porque vale a pena.
Ao longo de toda a minha carreira trabalhei sempre com equipas grandes, por isso escrever um livro é para mim uma experiência completamente diferente: sou só eu e o ecrã do computador. Tenho de admitir que fiquei surpreso com o quanto gostei da solidão envolvida no processo de escrita.


Qual é a sua palavra assustadora favorita?
Prazos.


Se pudesse jantar com uma personagem de ficção, quem escolheria?
É batotice se escolher o clube do crime das quintas-feiras? Imaginem as histórias que eles poderiam contar! E se a Joyce fizesse um bolo seria com certeza delicioso (e teria uma cobertura de vodka).


Qual é o maior mistério por resolver?
Porque é que a Inglaterra não ganha um torneio de futebol há mais de 50 anos?


Ler no banho: sim ou não?
Sim, embora seja um passatempo de alto risco se deixarmos cair o livro.


Qual é a sua paixão ou hobby mais surpreendente?
Não é nenhuma surpresa para quem vive no Reino Unido, mas em Portugal talvez não saibam que sou um fã apaixonado de futebol e tenho um lugar anual para os jogos do Fulham FC.

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