Entrevista a Arturo Pérez-Reverte
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28 de dezembro de 2022
Arturo Pérez-Reverte considera-se um marinheiro-leitor que acidentalmente escreve romances. Até agora, foram 34. Traduzidos em cerca de 40 idiomas, chegaram a mais de 20 milhões de leitores em todo o mundo e vários deles foram adaptados ao cinema e à televisão.
Pérez-Reverte possui um olhar de uma lucidez extraordinária sobre o ser humano, que deve aos 21 anos em que foi repórter de guerra – aí, nas trincheiras, todos são iguais e nem sempre é claro qual é o lado bom ou o lado mau. Escreveu Linha da Frente, o romance sobre a Guerra Civil Espanhola que acaba de lançar em Portugal, como consequência da situação política em Espanha, esperando contribuir para a reconciliação nacional. E está a consegui-lo.
Pérez-Reverte possui um olhar de uma lucidez extraordinária sobre o ser humano, que deve aos 21 anos em que foi repórter de guerra – aí, nas trincheiras, todos são iguais e nem sempre é claro qual é o lado bom ou o lado mau. Escreveu Linha da Frente, o romance sobre a Guerra Civil Espanhola que acaba de lançar em Portugal, como consequência da situação política em Espanha, esperando contribuir para a reconciliação nacional. E está a consegui-lo.
Arturo Pérez-Reverte
Quando vem a Portugal, vem à sua pátria. Defende que uma Ibéria unida seria uma grande potência frente e esta Europa que olha para o sul com desprezo. Crítico da desvalorização da História, avisa que estão a criar-se gerações de órfãos de memória, facilmente manipuláveis, excedentes em sentimentos e carentes de razão.
Está convicto de que, no dia em que deixar de escrever romances, será esquecido, e não vê mal nenhum nisso. Sente-se realizado, porque é lido em vida, e grato aos seus leitores, porque lhes deve a sua liberdade.
Esta entrevista foi originalmente publicada na revista Wookacontece nº 8.
Está convicto de que, no dia em que deixar de escrever romances, será esquecido, e não vê mal nenhum nisso. Sente-se realizado, porque é lido em vida, e grato aos seus leitores, porque lhes deve a sua liberdade.
Esta entrevista foi originalmente publicada na revista Wookacontece nº 8.
«Um romance é um pretexto para ler, para viajar. Escrevo romances porque preciso de viver, cada dia, histórias que imagino e que vivo na minha cabeça.»
O seu romance mais recentemente lançado em Portugal, Linha da Frente, foi distinguido com o Prémio da Crítica 2020 em Espanha, que o considerou «a Ilíada do século XX». Nas suas palavras, quando se escreve há tantos anos, «um prémio não tem demasiada importância». O que é o mais importante para si, enquanto escritor?
Um romance, na realidade, é um pretexto para ler, para viajar, para imaginar. É como ser criança e continuar a brincar, assumir outras personagens. Cada um dos meus romances proporciona-me um ano, ano e meio, de prazer, de imaginação, de leituras… Por isso escrevo romances e sou escritor profissional, porque preciso de viver, cada dia, histórias que imagino e que leio e que vivo na minha cabeça.
Afirma que a única forma de contar a batalha a partir do interior é tê-la vivido. Este é um romance sobre homens e mulheres, não só na Guerra Civil Espanhola, mas em qualquer guerra. Independentemente do período, a guerra tem o mesmo efeito sobre aqueles que lutam e aqueles que sofrem, que são os mesmos seres humanos?
Na verdade, desde a Guerra de Troia até à Guerra na Ucrânia, nada mudou a não serem as formas técnicas de destruir ou de matar – os drones, os mísseis, os aparelhos inteligentes, os visores noturnos. Mas o facto básico é o mesmo: homens contra homens, seres humanos contra seres humanos, barbárie, crueldade, sangue e morte. Nada disso mudou. A experiência e o olhar que a minha vida enquanto repórter desses conflitos me deixou, é o que me serve para documentar, para fazer com que o leitor se aproxime com mais nitidez da história que lhe estou a contar.
Apesar das feridas ainda abertas desta guerra, conseguiu um retrato muito equilibrado dos combatentes de ambos os lados da batalha, porque na trincheira «todos são iguais». Por esta razão, são várias as vozes que consideram que Linha da Frente contribui para a reconciliação nacional. Tinha essa intenção, ou trata-se de uma consequência que vê com satisfação?
Este livro é consequência de uma situação política em Espanha. A Guerra Civil estava fechada, as feridas estavam a sarar-se. O ano de 1975, quando morreu Franco, foi o ano da reconciliação dos espanhóis. Mas nos últimos tempos há uma geração de políticos em Espanha que foram resgatar a Guerra Civil como ferramenta política, como arma de arremesso, esquecendo a reconciliação. Gente que não viveu a guerra, não conhece nada sobre ela, mas que, no entanto, a utiliza para [fazer acusações como] «tu és franquista!» ou «tu és comunista!». E isso está a criar uma muito má relação com a memória da guerra. Eu acreditava que um livro como este ajudaria a centrar outra vez a paisagem, o panorama, no que realmente importa.
Diz que um homem bom é aquele que, vendo o mundo como um lugar hostil, não perde lealdade e compaixão, e não se vê como «bom». No entanto, mostra compaixão ao retratar o ser humano no seu estado mais puro, bem como ao empenhar-se em devolver às novas gerações a memória histórica. Afinal, isso não é ser «um homem bom»?
Não sei se sou bom ou se sou mau [sorriso]. O que sei é que estou muito seguro do que quero fazer enquanto romancista e na hora de escrever. Cada vez mais, estão a querer que o mundo se divida em linhas que separam o bem e o mal – de um lado o bom, do outro, o mau; de um, a bondade, do outro a perversidade – e isso não é verdade. O ser humano é muito complexo. Quando estamos do lado de fora, longe, vemos com clareza. República, boa – Franco, mau, teoricamente; Putin, mau – Ucrânia, boa. Essas são as ideias gerais. Mas quando te aproximas do ser humano, do indivíduo, as coisas já não são tão claras. Todos são seres humanos sujeitos a tensões, à tragédia de uma guerra. Em que se diferencia um jovem de 18 anos ucraniano de um jovem de 18 anos russo? Em nada. São as ideias que são diferentes, mas eles, enquanto indivíduos, não. Os meus romances, e este em especial, move-se neste terreno. Quero mostrar o lado humano: a contradição, a proximidade; quero que o leitor esteja do lado de dentro e que sinta as personagens, todas elas. Coincidam ou não com as suas ideias, que os sintam enquanto seres humanos e que, por muito que lhes custe, que os possam compreender.
É muito difícil para as pessoas compreenderem que a linha entre o bem e o mal não é sempre clara?
Sim, é. O retorno dos leitores foi muito agradável porque as pessoas entenderam o livro perfeitamente e, a algumas, sobretudo aos jovens, este ajudou-as a entender que a guerra não foi uma questão de bons ou maus, de preto e branco. Mas também houve pessoas que não gostaram do livro, como políticos ou vinculados politicamente, porque este livro desmonta o discurso de que há uma Espanha boa contra uma Espanha fascista. Não foi isso, foi muito mais complexo. Por exemplo, o meu pai e o meu tipo eram moços de boas famílias, que lutaram com a República, enquanto o meu sogro era um jovem esquerdista, que lutou com Franco. Uma Guerra Civil é algo muito complexo, que tem muito a ver com a sorte, com os acasos, com as vicissitudes da vida. Por isso, o discurso tão simplista que se está a fazer hoje da Guerra Civil em Espanha me desagrada tanto.
Linha da Frente é um romance duro, mas talvez por isso tão belo e humano. Na guerra, é mais a humanidade que se perde, ou a humanidade que se ganha (como consequência do sofrimento coletivo)?
Serão as duas coisas. Uma parte da guerra embrutece, torna o homem cruel, faz com que os instintos disparem, cria uma impunidade que seria impossível em tempo de paz. Mas também tem outras coisas positivas: quem vive uma guerra, ou até um tsunami, um incêndio, uma situação como a das Torres Gémeas, um serviço de urgência de um hospital à noite, enfim, uma desgraça humana, conhece melhor o ser humano. Palavras como compaixão, solidariedade, heroísmo, lealdade, tornam-se muito importantes. A guerra é as duas coisas: uma lição de horror e, ao mesmo tempo, uma lição da condição humana, da parte boa que, apesar do mal que faz, o ser humano tem sempre dentro de si.
Logo no início do livro, descreve o absurdo desta guerra num único parágrafo, contando-nos como Gorguell, um carpinteiro sem afiliações políticas, se viu recrutado pelos franquistas. Teve a preocupação de transmitir de forma muito clara aos leitores a falta de sentido de tudo o que aconteceu, como que dizendo: «a Guerra Civil Espanhola foi isto»?
Isso é qualquer guerra civil. Este tipo de guerra tem fatores muito complexos. Além de tudo o que sabemos, tem uma característica muito peculiar: é a guerra do vizinho contra o vizinho, entre gente que se conhece, o que é muito diferente de outras guerras. A guerra civil exacerba os rancores, as disputas – o vizinho que levou a cabra do outro, o que lhe tirou o terreno, … - permite ajustar contas. O que a torna mais terrível é que há muitas contas pessoais a acertar. Mas também tem outras coisas boas: as pessoas conhecem-se, é possível entenderem-se, falam a mesma língua. Por tudo isto, a guerra civil é um lugar tão complexo que me surpreende e me irrita que os políticos manipulem com tanta alegria e irresponsabilidade conceitos tão graves, tão sérios e tão profundos.
Nas explosões, nos acontecimentos que se sucedem no campo de batalha, também há algo que deslumbra, como a personagem Patricia Monzón deixa transparecer. Também a si, a guerra o fascina de alguma forma?
Eu fui à guerra muito jovem, com 20 anos e, nessa idade, a guerra é um espetáculo muito interessante por muitas razões. Dá o horror, vê-se a condição humana no pior que tem – a dor, a morte, a crueldade – mas também há lições muito interessantes de vida para um jovem: compaixão, solidariedade, heroísmo e lealdade. Na guerra aprendi muitas coisas sobre o ser humano, coisas que aqui tardaria 20 anos, toda uma vida, a aprender. A guerra foi uma escola de lucidez extraordinária e educou o meu olhar sobre os seres humanos; ensinou-me a não os valorizar demasiado e, também, a não os desprezar demasiado. Com esse olhar, que a vida me deixou, agora escrevo romances.
É preciso ter estado lá, na guerra, para compreender realmente o que significa?
Não é necessário. Qualquer pessoa que tenha estado em contacto com a dor e com o horror da vida, pode compreender. A diferença é que na guerra tudo se dá em doses muito mais intensas, fortes e imediatas. A guerra é tudo, em doses altas, é o espetáculo da condição humana, de horror e de fascínio e, ao mesmo tempo, de coisas positivas, na forma mais intensa que existem.
Por que é que Portugal e Espanha se conhecem tão mal, vivendo quase de costas voltadas um para o outro?
Não creio que seja verdade, do lado de Portugal. Aqui, sim, olha-se para Espanha; é em Espanha que não se olha para Portugal, o que é um erro histórico e social. Há um exemplo claro: muitíssimos portugueses falam espanhol e muito poucos espanhóis falam português.
Quando venho a Portugal, não venho ao estrangeiro, venho à minha pátria e quando um português vai a Espanha, viaja também para a sua pátria. É o mesmo lugar, somos a mesma gente, a mesma comida, a mesma forma de ser, tudo isto nos é familiar. Há uma comunidade ibérica e neste ponto estou com Saramago, éramos iberistas e eu continuo a sê-lo. Portugal e Espanha serem países diferentes é um acidente histórico. Foi um erro grave Filipe II de Espanha não ter fixado a corte em Lisboa, em vez de em Madrid. Teríamos uma Ibéria atlântica, americana e índica e não essa Espanha europeia que tanta desgraça nos causou e tantos males nos continua a causar no presente.
Mas como funcionaria esse reino seiscentista com a corte em Lisboa? Portugal não perderia a sua independência?
Consistiria em que Espanha reconhecesse Portugal como um igual e que Portugal interviesse no governo de Espanha e da Ibéria tanto quanto os espanhóis. Não seria Espanha situada aqui [em Lisboa] como um invasor, mas sim unida a Portugal. Afinal, até a mãe de Filipe II era portuguesa.
Será possível mudar isso? Estaremos demasiado orgulhosos de um passado de grandeza que se foi, para nos unirmos (como uma federação ibérica) perante um futuro em que seremos perdedores face a potências mais fortes?
Eu estou seguro de duas coisas. A primeira é que, se Espanha e Portugal se tivessem unido, realmente, num plano de igualdade, no século XVII, teríamos sido nós a grande potência durante muito mais tempo, teria sido um império extraordinário. Por outro lado, também lamento que Espanha e Portugal não atuem unidos, sempre, porque uma Ibéria unida seria uma grande potência frente a essa Europa que, frequentemente, olha para o sul com desprezo. Essa Espanha hispano-americana e esse Portugal luso-americano, com o Brasil, seriam elementos poderosíssimos frente à indiferença do Norte da Europa. Penso que o erro grave é que não haja nenhuma forma de aliança política, de um organismo que coordene, já que somos iguais em tantas coisas. Portugal é mais Atlântico, mas Galiza também o é. Seríamos a grande potência do Sul da Europa, mas essa diferença mantém-nos [afastados], com complexos. Insisto, somos o mesmo lugar e por isso é tão triste o desconhecimento, mas os espanhóis pecaram mais por indiferença do que os portugueses.
Disse numa entrevista que Portugal tem muitos acontecimentos que dariam bons livros - como a tentativa de assassinato de Salazar e a espionagem durante a II Guerra Mundial – pensa escrever um livro sobre algum destes temas?
Um romancista é um projeto de romances futuros que escreverá ou não, mas há alguns temas que me interessam muito: o Portugal da época da II Guerra Mundial e do pós-guerra e o governo de Salazar. Não sei se a minha vida será suficientemente longa, mas se o for, como romancista, espero um dia ocupar-me de alguns assuntos de Portugal que me interessam muito.
Menciona frequentemente o problema, exacerbado com a proliferação das redes sociais, de que querer silenciar quem pensa de forma diferente em relação ao mainstream. Sem cultura, sem conhecimento da História, como se combate este efeito pernicioso?
O problema que há hoje na Europa, em Espanha e em Portugal é que estão a apagar a História dos planos curriculares dos jovens e estes crescem sem saber História. Se não se conhece a História não se tem ferramentas para se conhecer o presente. Somos o que somos porque fomos o que fomos no passado e Espanha e Portugal não se explicam sem todos esses séculos de memória. Não ensinar a História aos jovens, não os levar a museus onde vejam quadros, a origem de onde tudo vem, é condená-los à orfandade e, quando alguém é órfão, qualquer um pode dizer que é seu pai, é esse o perigo. Um órfão é muito manipulável. Estamos a criar gerações de órfãos e isso é muito triste e muito perigoso.
Wokismo, feminismos cada vez mais militantes, modificar a linguagem com o pretexto de a tornar «inclusiva», são movimentos que assumem facetas persecutórias, reminiscentes da era da Inquisição. Mas atualmente é mais difícil identificar o inquisidor, que pode ser qualquer pessoa…
Exato, isso é que é terrível. Trocamos a razão pelos sentimentos. Agora já não importa o intelecto, importa o que sentes. Todos podem publicar no Twitter ou no Tiktok o que «sentem» e elevar isso a uma categoria geral. Estamos saturados de sentimentos e muito carentes de razão – essa é a grande tragédia das redes sociais hoje em dia, que são um ruído, uma torrente de sentimentos (de ofendidos, nomeadamente), mas que têm muito pouco raciocínio e intelecto. Isso é o mais triste: que o discurso populista, não dos políticos, mas também dos cidadãos normais, esteja a ocultar o discurso necessário, intelectualmente potente, sério e sólido.
Esse discurso populista generalizado é também muito o discurso do aparente, da não verdade.
Sim, sem dúvida. As redes sociais debitam uma quantidade de informação enorme e o problema está no recetor. Um recetor educado, culto, é capaz de distinguir o útil do inútil, o bom do mau, de selecionar aquilo que é realmente verdadeiro e necessário. Mas um recetor inculto ou pouco preparado não é capaz de fazer essa distinção e vê-se completamente ofuscado e confundido por essa quantidade imensa de mensagens contraditórias que não levam nunca a nenhum lugar concreto.
Sofreu censura na pele, quando a RTVE censurou o seu programa La Ley de la Calle, e consequentemente demitiu-se, não sem antes expressar o seu repúdio. Ainda é possível fazer jornalismo livre?
É possível, e mais: nunca foi tão fácil fazer jornalismo livre como agora. O problema é que é preciso lutar contra muito pseudojornalismo, falso, mediatizado e manipulado, é necessário que um se distinga do outro. E o público agora nem sempre é capaz de o fazer, mas sim, é possível.
A sua entrega à literatura também foi uma forma de escrever o que lhe apetece, sem qualquer tipo de censura?
Sim. O sucesso dos meus romances, que foi rápido, felizmente para mim, permitiu-me ser livre – escrever o que quero como romancista ou como escritor de artigos, dizer o que quero, sem repressões. Não dependo de nenhum partido político, de nenhum governo, dependo dos meus leitores. E nem sequer [apenas] dos meus leitores espanhóis, mas dos meus leitores coreanos, polacos, russos, hebraicos, franceses, ingleses ou chineses. Isso dá-me uma liberdade enorme, de que gosto muito. Mas devo-a os meus leitores, foram eles que me tornaram livre e estou-lhes profundamente agradecido.
E nem sequer faz nenhum tipo de autocensura?
Sim, faço autocensura, sim. Este ano faço 71 anos e estou cansado de certas polémicas. Há 10 anos, era mais combativo, lutava, defendia, escrevia, pegava-me com políticos em debates, mas agora já não, se não for por mais nada é porque cansa. Agora há coisas que prefiro não dizer, não entrar nelas, porque vão gerar debates estéreis e já não estou em condições intelectuais, psicológicas ou pessoais de responder. Não me apetece. E então há temas nos quais me censuro precisamente por isso. Nunca me autocensurei tanto como nos últimos 5 ou 6 anos..
Com a idade, aprendemos que o tempo é demasiado precioso.
Claro, claro. Não vou dedicar o meu tempo a discutir com um analfabeto que nem sei como se chama. Além disso, descobri que a velhice não é a fatiga física, intelectual, é a preguiça. O rasgo principal da velhice, para mim, é que há coisas que não te apetece fazer, gente que não queres conhecer, viagens que não te apetece fazer, debates que não te apetece manter. Essa espécie de retirar-se, pouco a pouco, dessas coisas, é a verdadeira velhice. E não é de todo desagradável.
A verdadeira liberdade, para além dos livros, encontra-a no mar, navegando no seu veleiro, sozinho?
Às vezes sim, às vezes não. Eu digo sempre que sou um marinheiro-leitor que acidentalmente escreve romances. A minha vocação é o mar, mas, por razões complexas, não pude navegar quando era jovem e agora navego há 25 anos no meu barco. E realmente é no mar onde sou verdadeiramente livre. Lá, há o mar, eu, o meu barco, os livros que levo para ler. A minha verdadeira felicidade começa a 10, 15 milhas da costa mais próxima.
Acompanha as obras das novas gerações de escritores espanhóis?
Há escritores excelentes, mas não faço o esforço de estar a par da atualidade literária em Espanha e fora dela. Releio, mais do que leio. Leio livros que li com 20 anos, e agora, 40 ou 50 anos depois, esses livros são obras distintas. Leio sobretudo clássicos gregos e latinos. Passo o tempo a reler ou então a ler temas que me fazem falta para os meus romances.
Quais foram os escritores mais importantes para si?
Na minha vida foram fundamentais, em diferentes momentos, Homero, Joseph Conrad, Stendhal, Miguel de Cervantes, Eça de Queiroz, Galdós, Dostoiévski. Poderia estar a citar nomes durante muito tempo, com uma vida de leitor como a minha. Tenho uma casa com 32 mil livros na biblioteca. Há autores que o tempo vai deixando para trás, já te deram tudo e quando os lês já não encontras nada nos seus livros. Mas há autores em que encontras sempre algo novo quando os lês. Cada vez há menos desses para mim, mas ainda os há. Joseph Conrad é um autor que envelhece comigo. Cada vez que o leio encontro algo que não tinha visto antes, que continua vivo para mim. Cervantes, também. Fazem-me sentir esse formigueiro de expectativa enquanto leitor, fascinado por algo que descobre. Permitem-me continuar a ser leitor. E um romancista deve continuar a ser leitor porque o dia em que deixa de o ser, está morto enquanto romancista.
Disse que passou a utilizar a sua memória, o seu arquivo pessoal, para contar histórias, criando um mundo imaginário no qual é feliz. E recorre à realidade para dar contexto histórico. É este equilíbrio que faz com que os seus romances digam tanto aos seus leitores?
Os meus romances são todos muito complexos estruturalmente e preciso de material, livros, planificação prévia muito serena. Eu sou um escritor profissional, pelo que um romance deve ser um produto o mais acabado possível para que o leitor entre nele e anseie pelo seguinte. Isso não se improvisa.
Um escritor, como o que eu sou, é aquilo que lê, mais aquilo que vive e aquilo que imagina – leituras, muitas, a minha imaginação, que continua viva e ativa e, depois, a biografia. E eu tive a sorte de ter uma biografia muito violenta, intensa, mexida, viajada, com muita aventura e muito sucesso. A minha vida deu-me muitas experiências, reflexões, perspetivas, que não levo diretamente, em cru, para os romances, mas que utilizo, para tirar dela elementos e personagens. Escrevo com esses 3 fatores. A minha vida e a minha biografia estão presentes em todos os meus romances, embora não de forma explícita. Sem a vida que tive e o olhar que ela me deixou, eu não poderia escrever os livros que escrevo.
Com Uma História de Espanha quis aproximar a História do cidadão comum, com humor e num registo informal. Diz que o fez pensando nos jovens, porque a História está a desaparecer dos programas de educação. Sente que alcançou o seu objetivo?
Sim, estou satisfeito com esse livro. Não sou um escritor didático, mas esse livro tem uma intenção didática, pedagógica: quero que entendamos o que fomos. Talvez seja o meu único livro realmente útil e com essa intenção. Estou muito orgulhoso do seu êxito tanto em Espanha como em Portugal.
Criou a chancela editorial Zenda como forma de contribuir para perpetuar a literatura clássica de aventura?
Eu tenho uma nostalgia – há livros que amei muito quando era jovem e que as pessoas já não leem, porque passaram de moda, ou simplesmente vêm filmes [inspirados nesses livros]. Criamos a Zenda, um projeto magnífico e de êxito – é neste momento a página de referência literária em espanhol tanto na América como em Espanha – para recuperar livros de aventura já esquecidos e que já têm pouca circulação atualmente. Tem tido um grande sucesso, com uma equipa muito competente, e estamos muito contentes com isso.
Como gostaria de ser recordado?
Eu não serei recordado. Ninguém é. Quando estiver morto há 6 meses ou 1 ano, ninguém me lerá, tudo se irá apagando pouco a pouco. Assim aconteceu com outros. Mas não é dramático, é a lei da vida. Nunca tive esperança nenhuma de sobrevivência para lá do dia da minha morte – no dia em que deixar de escrever romances, mesmo que continue vivo, serei esquecido. E deve ser assim, é bom, há que deixar lugar para quem vem atrás.
Mas não acredita que os seus livros permanecerão, por mais gerações?
Alguns leitores, sim, passarão o livro aos filhos, mas a maioria não. Sempre haverá algum livro meu por aí nalgum lugar; publiquei 30 romances, é uma produção grande e algo restará. Mas eu não estarei cá para vê-lo, não tenho qualquer tipo de afã de sobrevivência como escritor. Tive uma vida estupenda, leem-me em vida, em muitos países [43], os leitores escrevem-me e isso é suficiente. Querer prolongar isso para além da morte parece-me uma ambição e uma pretensão injustificadas.
É um escritor realizado, feliz?
Sim, sou um homem feliz. Tive uma vida muito dura, mas isso ajudou-me, paradoxalmente, a ser feliz. Sou um escritor feliz, um homem que envelhece com serenidade e com calma e isso está muito bem, é uma boa forma de perecer [sorriso].
Um romance, na realidade, é um pretexto para ler, para viajar, para imaginar. É como ser criança e continuar a brincar, assumir outras personagens. Cada um dos meus romances proporciona-me um ano, ano e meio, de prazer, de imaginação, de leituras… Por isso escrevo romances e sou escritor profissional, porque preciso de viver, cada dia, histórias que imagino e que leio e que vivo na minha cabeça.
Afirma que a única forma de contar a batalha a partir do interior é tê-la vivido. Este é um romance sobre homens e mulheres, não só na Guerra Civil Espanhola, mas em qualquer guerra. Independentemente do período, a guerra tem o mesmo efeito sobre aqueles que lutam e aqueles que sofrem, que são os mesmos seres humanos?
Na verdade, desde a Guerra de Troia até à Guerra na Ucrânia, nada mudou a não serem as formas técnicas de destruir ou de matar – os drones, os mísseis, os aparelhos inteligentes, os visores noturnos. Mas o facto básico é o mesmo: homens contra homens, seres humanos contra seres humanos, barbárie, crueldade, sangue e morte. Nada disso mudou. A experiência e o olhar que a minha vida enquanto repórter desses conflitos me deixou, é o que me serve para documentar, para fazer com que o leitor se aproxime com mais nitidez da história que lhe estou a contar.
Linha da Frente, o romance de Arturo Pérez-Reverte mais recentemente publicado em Portugal.
Este livro é consequência de uma situação política em Espanha. A Guerra Civil estava fechada, as feridas estavam a sarar-se. O ano de 1975, quando morreu Franco, foi o ano da reconciliação dos espanhóis. Mas nos últimos tempos há uma geração de políticos em Espanha que foram resgatar a Guerra Civil como ferramenta política, como arma de arremesso, esquecendo a reconciliação. Gente que não viveu a guerra, não conhece nada sobre ela, mas que, no entanto, a utiliza para [fazer acusações como] «tu és franquista!» ou «tu és comunista!». E isso está a criar uma muito má relação com a memória da guerra. Eu acreditava que um livro como este ajudaria a centrar outra vez a paisagem, o panorama, no que realmente importa.
Diz que um homem bom é aquele que, vendo o mundo como um lugar hostil, não perde lealdade e compaixão, e não se vê como «bom». No entanto, mostra compaixão ao retratar o ser humano no seu estado mais puro, bem como ao empenhar-se em devolver às novas gerações a memória histórica. Afinal, isso não é ser «um homem bom»?
Não sei se sou bom ou se sou mau [sorriso]. O que sei é que estou muito seguro do que quero fazer enquanto romancista e na hora de escrever. Cada vez mais, estão a querer que o mundo se divida em linhas que separam o bem e o mal – de um lado o bom, do outro, o mau; de um, a bondade, do outro a perversidade – e isso não é verdade. O ser humano é muito complexo. Quando estamos do lado de fora, longe, vemos com clareza. República, boa – Franco, mau, teoricamente; Putin, mau – Ucrânia, boa. Essas são as ideias gerais. Mas quando te aproximas do ser humano, do indivíduo, as coisas já não são tão claras. Todos são seres humanos sujeitos a tensões, à tragédia de uma guerra. Em que se diferencia um jovem de 18 anos ucraniano de um jovem de 18 anos russo? Em nada. São as ideias que são diferentes, mas eles, enquanto indivíduos, não. Os meus romances, e este em especial, move-se neste terreno. Quero mostrar o lado humano: a contradição, a proximidade; quero que o leitor esteja do lado de dentro e que sinta as personagens, todas elas. Coincidam ou não com as suas ideias, que os sintam enquanto seres humanos e que, por muito que lhes custe, que os possam compreender.
É muito difícil para as pessoas compreenderem que a linha entre o bem e o mal não é sempre clara?
Sim, é. O retorno dos leitores foi muito agradável porque as pessoas entenderam o livro perfeitamente e, a algumas, sobretudo aos jovens, este ajudou-as a entender que a guerra não foi uma questão de bons ou maus, de preto e branco. Mas também houve pessoas que não gostaram do livro, como políticos ou vinculados politicamente, porque este livro desmonta o discurso de que há uma Espanha boa contra uma Espanha fascista. Não foi isso, foi muito mais complexo. Por exemplo, o meu pai e o meu tipo eram moços de boas famílias, que lutaram com a República, enquanto o meu sogro era um jovem esquerdista, que lutou com Franco. Uma Guerra Civil é algo muito complexo, que tem muito a ver com a sorte, com os acasos, com as vicissitudes da vida. Por isso, o discurso tão simplista que se está a fazer hoje da Guerra Civil em Espanha me desagrada tanto.
Veja também o vídeo desta entrevista
Serão as duas coisas. Uma parte da guerra embrutece, torna o homem cruel, faz com que os instintos disparem, cria uma impunidade que seria impossível em tempo de paz. Mas também tem outras coisas positivas: quem vive uma guerra, ou até um tsunami, um incêndio, uma situação como a das Torres Gémeas, um serviço de urgência de um hospital à noite, enfim, uma desgraça humana, conhece melhor o ser humano. Palavras como compaixão, solidariedade, heroísmo, lealdade, tornam-se muito importantes. A guerra é as duas coisas: uma lição de horror e, ao mesmo tempo, uma lição da condição humana, da parte boa que, apesar do mal que faz, o ser humano tem sempre dentro de si.
Logo no início do livro, descreve o absurdo desta guerra num único parágrafo, contando-nos como Gorguell, um carpinteiro sem afiliações políticas, se viu recrutado pelos franquistas. Teve a preocupação de transmitir de forma muito clara aos leitores a falta de sentido de tudo o que aconteceu, como que dizendo: «a Guerra Civil Espanhola foi isto»?
Isso é qualquer guerra civil. Este tipo de guerra tem fatores muito complexos. Além de tudo o que sabemos, tem uma característica muito peculiar: é a guerra do vizinho contra o vizinho, entre gente que se conhece, o que é muito diferente de outras guerras. A guerra civil exacerba os rancores, as disputas – o vizinho que levou a cabra do outro, o que lhe tirou o terreno, … - permite ajustar contas. O que a torna mais terrível é que há muitas contas pessoais a acertar. Mas também tem outras coisas boas: as pessoas conhecem-se, é possível entenderem-se, falam a mesma língua. Por tudo isto, a guerra civil é um lugar tão complexo que me surpreende e me irrita que os políticos manipulem com tanta alegria e irresponsabilidade conceitos tão graves, tão sérios e tão profundos.
Nas explosões, nos acontecimentos que se sucedem no campo de batalha, também há algo que deslumbra, como a personagem Patricia Monzón deixa transparecer. Também a si, a guerra o fascina de alguma forma?
Eu fui à guerra muito jovem, com 20 anos e, nessa idade, a guerra é um espetáculo muito interessante por muitas razões. Dá o horror, vê-se a condição humana no pior que tem – a dor, a morte, a crueldade – mas também há lições muito interessantes de vida para um jovem: compaixão, solidariedade, heroísmo e lealdade. Na guerra aprendi muitas coisas sobre o ser humano, coisas que aqui tardaria 20 anos, toda uma vida, a aprender. A guerra foi uma escola de lucidez extraordinária e educou o meu olhar sobre os seres humanos; ensinou-me a não os valorizar demasiado e, também, a não os desprezar demasiado. Com esse olhar, que a vida me deixou, agora escrevo romances.
«A guerra é uma lição de horror e também uma lição da condição humana, da parte boa que, apesar do mal que faz, o ser humano tem sempre dentro de si.
É preciso ter estado lá, na guerra, para compreender realmente o que significa?
Não é necessário. Qualquer pessoa que tenha estado em contacto com a dor e com o horror da vida, pode compreender. A diferença é que na guerra tudo se dá em doses muito mais intensas, fortes e imediatas. A guerra é tudo, em doses altas, é o espetáculo da condição humana, de horror e de fascínio e, ao mesmo tempo, de coisas positivas, na forma mais intensa que existem.
Por que é que Portugal e Espanha se conhecem tão mal, vivendo quase de costas voltadas um para o outro?
Não creio que seja verdade, do lado de Portugal. Aqui, sim, olha-se para Espanha; é em Espanha que não se olha para Portugal, o que é um erro histórico e social. Há um exemplo claro: muitíssimos portugueses falam espanhol e muito poucos espanhóis falam português.
Quando venho a Portugal, não venho ao estrangeiro, venho à minha pátria e quando um português vai a Espanha, viaja também para a sua pátria. É o mesmo lugar, somos a mesma gente, a mesma comida, a mesma forma de ser, tudo isto nos é familiar. Há uma comunidade ibérica e neste ponto estou com Saramago, éramos iberistas e eu continuo a sê-lo. Portugal e Espanha serem países diferentes é um acidente histórico. Foi um erro grave Filipe II de Espanha não ter fixado a corte em Lisboa, em vez de em Madrid. Teríamos uma Ibéria atlântica, americana e índica e não essa Espanha europeia que tanta desgraça nos causou e tantos males nos continua a causar no presente.
Mas como funcionaria esse reino seiscentista com a corte em Lisboa? Portugal não perderia a sua independência?
Consistiria em que Espanha reconhecesse Portugal como um igual e que Portugal interviesse no governo de Espanha e da Ibéria tanto quanto os espanhóis. Não seria Espanha situada aqui [em Lisboa] como um invasor, mas sim unida a Portugal. Afinal, até a mãe de Filipe II era portuguesa.
Será possível mudar isso? Estaremos demasiado orgulhosos de um passado de grandeza que se foi, para nos unirmos (como uma federação ibérica) perante um futuro em que seremos perdedores face a potências mais fortes?
Eu estou seguro de duas coisas. A primeira é que, se Espanha e Portugal se tivessem unido, realmente, num plano de igualdade, no século XVII, teríamos sido nós a grande potência durante muito mais tempo, teria sido um império extraordinário. Por outro lado, também lamento que Espanha e Portugal não atuem unidos, sempre, porque uma Ibéria unida seria uma grande potência frente a essa Europa que, frequentemente, olha para o sul com desprezo. Essa Espanha hispano-americana e esse Portugal luso-americano, com o Brasil, seriam elementos poderosíssimos frente à indiferença do Norte da Europa. Penso que o erro grave é que não haja nenhuma forma de aliança política, de um organismo que coordene, já que somos iguais em tantas coisas. Portugal é mais Atlântico, mas Galiza também o é. Seríamos a grande potência do Sul da Europa, mas essa diferença mantém-nos [afastados], com complexos. Insisto, somos o mesmo lugar e por isso é tão triste o desconhecimento, mas os espanhóis pecaram mais por indiferença do que os portugueses.
Disse numa entrevista que Portugal tem muitos acontecimentos que dariam bons livros - como a tentativa de assassinato de Salazar e a espionagem durante a II Guerra Mundial – pensa escrever um livro sobre algum destes temas?
Um romancista é um projeto de romances futuros que escreverá ou não, mas há alguns temas que me interessam muito: o Portugal da época da II Guerra Mundial e do pós-guerra e o governo de Salazar. Não sei se a minha vida será suficientemente longa, mas se o for, como romancista, espero um dia ocupar-me de alguns assuntos de Portugal que me interessam muito.
Menciona frequentemente o problema, exacerbado com a proliferação das redes sociais, de que querer silenciar quem pensa de forma diferente em relação ao mainstream. Sem cultura, sem conhecimento da História, como se combate este efeito pernicioso?
O problema que há hoje na Europa, em Espanha e em Portugal é que estão a apagar a História dos planos curriculares dos jovens e estes crescem sem saber História. Se não se conhece a História não se tem ferramentas para se conhecer o presente. Somos o que somos porque fomos o que fomos no passado e Espanha e Portugal não se explicam sem todos esses séculos de memória. Não ensinar a História aos jovens, não os levar a museus onde vejam quadros, a origem de onde tudo vem, é condená-los à orfandade e, quando alguém é órfão, qualquer um pode dizer que é seu pai, é esse o perigo. Um órfão é muito manipulável. Estamos a criar gerações de órfãos e isso é muito triste e muito perigoso.
Wokismo, feminismos cada vez mais militantes, modificar a linguagem com o pretexto de a tornar «inclusiva», são movimentos que assumem facetas persecutórias, reminiscentes da era da Inquisição. Mas atualmente é mais difícil identificar o inquisidor, que pode ser qualquer pessoa…
Exato, isso é que é terrível. Trocamos a razão pelos sentimentos. Agora já não importa o intelecto, importa o que sentes. Todos podem publicar no Twitter ou no Tiktok o que «sentem» e elevar isso a uma categoria geral. Estamos saturados de sentimentos e muito carentes de razão – essa é a grande tragédia das redes sociais hoje em dia, que são um ruído, uma torrente de sentimentos (de ofendidos, nomeadamente), mas que têm muito pouco raciocínio e intelecto. Isso é o mais triste: que o discurso populista, não dos políticos, mas também dos cidadãos normais, esteja a ocultar o discurso necessário, intelectualmente potente, sério e sólido.
Esse discurso populista generalizado é também muito o discurso do aparente, da não verdade.
Sim, sem dúvida. As redes sociais debitam uma quantidade de informação enorme e o problema está no recetor. Um recetor educado, culto, é capaz de distinguir o útil do inútil, o bom do mau, de selecionar aquilo que é realmente verdadeiro e necessário. Mas um recetor inculto ou pouco preparado não é capaz de fazer essa distinção e vê-se completamente ofuscado e confundido por essa quantidade imensa de mensagens contraditórias que não levam nunca a nenhum lugar concreto.
Sofreu censura na pele, quando a RTVE censurou o seu programa La Ley de la Calle, e consequentemente demitiu-se, não sem antes expressar o seu repúdio. Ainda é possível fazer jornalismo livre?
É possível, e mais: nunca foi tão fácil fazer jornalismo livre como agora. O problema é que é preciso lutar contra muito pseudojornalismo, falso, mediatizado e manipulado, é necessário que um se distinga do outro. E o público agora nem sempre é capaz de o fazer, mas sim, é possível.
«Linha da Frente desmonta o discurso de que há uma Espanha boa contra uma Espanha fascista.»
A sua entrega à literatura também foi uma forma de escrever o que lhe apetece, sem qualquer tipo de censura?
Sim. O sucesso dos meus romances, que foi rápido, felizmente para mim, permitiu-me ser livre – escrever o que quero como romancista ou como escritor de artigos, dizer o que quero, sem repressões. Não dependo de nenhum partido político, de nenhum governo, dependo dos meus leitores. E nem sequer [apenas] dos meus leitores espanhóis, mas dos meus leitores coreanos, polacos, russos, hebraicos, franceses, ingleses ou chineses. Isso dá-me uma liberdade enorme, de que gosto muito. Mas devo-a os meus leitores, foram eles que me tornaram livre e estou-lhes profundamente agradecido.
E nem sequer faz nenhum tipo de autocensura?
Sim, faço autocensura, sim. Este ano faço 71 anos e estou cansado de certas polémicas. Há 10 anos, era mais combativo, lutava, defendia, escrevia, pegava-me com políticos em debates, mas agora já não, se não for por mais nada é porque cansa. Agora há coisas que prefiro não dizer, não entrar nelas, porque vão gerar debates estéreis e já não estou em condições intelectuais, psicológicas ou pessoais de responder. Não me apetece. E então há temas nos quais me censuro precisamente por isso. Nunca me autocensurei tanto como nos últimos 5 ou 6 anos..
Com a idade, aprendemos que o tempo é demasiado precioso.
Claro, claro. Não vou dedicar o meu tempo a discutir com um analfabeto que nem sei como se chama. Além disso, descobri que a velhice não é a fatiga física, intelectual, é a preguiça. O rasgo principal da velhice, para mim, é que há coisas que não te apetece fazer, gente que não queres conhecer, viagens que não te apetece fazer, debates que não te apetece manter. Essa espécie de retirar-se, pouco a pouco, dessas coisas, é a verdadeira velhice. E não é de todo desagradável.
«Sou um marinheiro-leitor que acidentalmente escreve romances. A minha vocação é o mar e é no mar que sou verdadeiramente livre.»
A verdadeira liberdade, para além dos livros, encontra-a no mar, navegando no seu veleiro, sozinho?
Às vezes sim, às vezes não. Eu digo sempre que sou um marinheiro-leitor que acidentalmente escreve romances. A minha vocação é o mar, mas, por razões complexas, não pude navegar quando era jovem e agora navego há 25 anos no meu barco. E realmente é no mar onde sou verdadeiramente livre. Lá, há o mar, eu, o meu barco, os livros que levo para ler. A minha verdadeira felicidade começa a 10, 15 milhas da costa mais próxima.
Acompanha as obras das novas gerações de escritores espanhóis?
Há escritores excelentes, mas não faço o esforço de estar a par da atualidade literária em Espanha e fora dela. Releio, mais do que leio. Leio livros que li com 20 anos, e agora, 40 ou 50 anos depois, esses livros são obras distintas. Leio sobretudo clássicos gregos e latinos. Passo o tempo a reler ou então a ler temas que me fazem falta para os meus romances.
Quais foram os escritores mais importantes para si?
Na minha vida foram fundamentais, em diferentes momentos, Homero, Joseph Conrad, Stendhal, Miguel de Cervantes, Eça de Queiroz, Galdós, Dostoiévski. Poderia estar a citar nomes durante muito tempo, com uma vida de leitor como a minha. Tenho uma casa com 32 mil livros na biblioteca. Há autores que o tempo vai deixando para trás, já te deram tudo e quando os lês já não encontras nada nos seus livros. Mas há autores em que encontras sempre algo novo quando os lês. Cada vez há menos desses para mim, mas ainda os há. Joseph Conrad é um autor que envelhece comigo. Cada vez que o leio encontro algo que não tinha visto antes, que continua vivo para mim. Cervantes, também. Fazem-me sentir esse formigueiro de expectativa enquanto leitor, fascinado por algo que descobre. Permitem-me continuar a ser leitor. E um romancista deve continuar a ser leitor porque o dia em que deixa de o ser, está morto enquanto romancista.
Disse que passou a utilizar a sua memória, o seu arquivo pessoal, para contar histórias, criando um mundo imaginário no qual é feliz. E recorre à realidade para dar contexto histórico. É este equilíbrio que faz com que os seus romances digam tanto aos seus leitores?
Os meus romances são todos muito complexos estruturalmente e preciso de material, livros, planificação prévia muito serena. Eu sou um escritor profissional, pelo que um romance deve ser um produto o mais acabado possível para que o leitor entre nele e anseie pelo seguinte. Isso não se improvisa.
Um escritor, como o que eu sou, é aquilo que lê, mais aquilo que vive e aquilo que imagina – leituras, muitas, a minha imaginação, que continua viva e ativa e, depois, a biografia. E eu tive a sorte de ter uma biografia muito violenta, intensa, mexida, viajada, com muita aventura e muito sucesso. A minha vida deu-me muitas experiências, reflexões, perspetivas, que não levo diretamente, em cru, para os romances, mas que utilizo, para tirar dela elementos e personagens. Escrevo com esses 3 fatores. A minha vida e a minha biografia estão presentes em todos os meus romances, embora não de forma explícita. Sem a vida que tive e o olhar que ela me deixou, eu não poderia escrever os livros que escrevo.
Com Uma História de Espanha quis aproximar a História do cidadão comum, com humor e num registo informal. Diz que o fez pensando nos jovens, porque a História está a desaparecer dos programas de educação. Sente que alcançou o seu objetivo?
Sim, estou satisfeito com esse livro. Não sou um escritor didático, mas esse livro tem uma intenção didática, pedagógica: quero que entendamos o que fomos. Talvez seja o meu único livro realmente útil e com essa intenção. Estou muito orgulhoso do seu êxito tanto em Espanha como em Portugal.
Criou a chancela editorial Zenda como forma de contribuir para perpetuar a literatura clássica de aventura?
Eu tenho uma nostalgia – há livros que amei muito quando era jovem e que as pessoas já não leem, porque passaram de moda, ou simplesmente vêm filmes [inspirados nesses livros]. Criamos a Zenda, um projeto magnífico e de êxito – é neste momento a página de referência literária em espanhol tanto na América como em Espanha – para recuperar livros de aventura já esquecidos e que já têm pouca circulação atualmente. Tem tido um grande sucesso, com uma equipa muito competente, e estamos muito contentes com isso.
Como gostaria de ser recordado?
Eu não serei recordado. Ninguém é. Quando estiver morto há 6 meses ou 1 ano, ninguém me lerá, tudo se irá apagando pouco a pouco. Assim aconteceu com outros. Mas não é dramático, é a lei da vida. Nunca tive esperança nenhuma de sobrevivência para lá do dia da minha morte – no dia em que deixar de escrever romances, mesmo que continue vivo, serei esquecido. E deve ser assim, é bom, há que deixar lugar para quem vem atrás.
Mas não acredita que os seus livros permanecerão, por mais gerações?
Alguns leitores, sim, passarão o livro aos filhos, mas a maioria não. Sempre haverá algum livro meu por aí nalgum lugar; publiquei 30 romances, é uma produção grande e algo restará. Mas eu não estarei cá para vê-lo, não tenho qualquer tipo de afã de sobrevivência como escritor. Tive uma vida estupenda, leem-me em vida, em muitos países [43], os leitores escrevem-me e isso é suficiente. Querer prolongar isso para além da morte parece-me uma ambição e uma pretensão injustificadas.
É um escritor realizado, feliz?
Sim, sou um homem feliz. Tive uma vida muito dura, mas isso ajudou-me, paradoxalmente, a ser feliz. Sou um escritor feliz, um homem que envelhece com serenidade e com calma e isso está muito bem, é uma boa forma de perecer [sorriso].