Cidades imaginárias e seres invisíveis

Por Álvaro Curia/Ludgero Cardoso
@Literacidades
17 de janeiro de 2020
Às vezes torna-se difícil encontrar inspiração. Esta pode surgir através da observação da natureza, das pessoas, de uma simples conversa, num passeio pela praia, na vida de outra pessoa e até em livros. É o caso das duas obras que aqui apresentamos: exigem que os leitores abram os seus horizontes e que se deixem levar pela criatividade, talento e inspiração de dois grandes génios literários. Leia e inspire-se!



CIDADES INVISÍVEIS
Este livro de Italo Calvino pode ser lido de várias formas: da mais tradicional, seguindo a ordem sequencial dos capítulos, ou em função dos números dos subcapítulos, para os que apreciam um bom desafio. Cada subcapítulo diz respeito a uma cidade diferente, associada a algo inerente ao ser humano, como a memória, o desejo, o nome ou a morte.
As Cidades Invisíveis centra-se na descrição soberba que Marco Polo faz, ao imperador Kublain Kan, das cidades que visitou ao longo das suas missões. E em cada uma delas sobressai uma característica peculiar, sendo as suas descrições como metáforas da vida ou do próprio ser humano. É por isso quase impossível não personificá-las e, reforçando essa ideia, todas elas recebem nomes femininos, como Isaura, Doroteia ou Isidora.
Cada cidade é diferente e, ao longo da leitura, ficamos com uma vontade incontrolável de visitá-las a todas, transportando o que vamos lendo e imaginando para a nossa realidade. Afinal de contas, quem não gostaria de viver em Zirma, para passear pumas pelas ruas? Ou de visitar cidades subterrâneas como Eusápida, onde não há forma de saber quais são os lugares dos vivos e dos mortos, de tão semelhantes que são? Ou ainda Anastásia, que julgamos desejar, mas onde na verdade não passamos de escravos. São todas elas cidades cujo passado adivinhamos, através das marcas que o tempo foi deixando pelas ruas, e que nos marcam também a nós de tal forma que é impossível apagá-las da nossa memória. Haverá sempre algo em cada uma delas que nos fará recordar de nós próprios.
A certa altura a descrição das cidades parece, a quem a escuta, irreal. Não estará Marco Polo a contar todas estas histórias apenas para ganhar a confiança do imperador? E será que Calvino nos quis transmitir que cada leitor interpretará esta obra de maneira diversa, conforme a cidade que mora dentro de si? Não temos a resposta para estas questões, mas o autor sabe definitivamente como inquietar o leitor e levá-lo a dar asas à sua imaginação.
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O LIVRO DOS SERES IMAGINÁRIOS
Neste livro, Jorge Luís Borges criou um bestiário com cerca de 116 seres que são fruto da invenção humana, da religião, de mitologias, ou que nasceram na própria literatura. A maioria deles estão muito presentes no nosso imaginário, sobretudo aqueles que se tornaram lendas e mitos, como é o caso do Centauro: uma figura mencionada na mitologia védica, nas Metamorfoses, de Ovídio, e presente também no Templo de Zeus, em Olímpia.
Os lápitas, na mitologia grega, eram um povo da Tessália, que combateu contra os Centauros. Essa luta (Centauromaquia Tessaliana), esculpida por Fídias, ficou representada nos famosos mármores de Elgin, retirados do Pártenon e levados para o Museu Britânico. Já mais perto da nossa era, no século XVI, quando o povo indígena do Peru viu os soldados de Francisco Pizarro a cavalgar, invadindo as suas terras, confundiu-os, curiosamente, com centauros.
Em O Livro dos Seres Imaginários uma das criaturas mais intrigante é A Bao A Qu, um ser quase translúcido, “sensível aos valores das almas humanas”. Vive na Torre da Vitória, em Chitor, que tem um terraço circular onde qualquer peregrino que a visita pode ter uma visão total do horizonte. À medida que vamos progredindo na subida da torre, constituída por 157 degraus, mais A Bao A Qu se transforma num ser visível e se aperfeiçoa. Infelizmente só atinge a sua forma perfeita quando o visitante, sendo um ser evoluído espiritualmente, atinge o último degrau. Caso contrário, a criatura sofre e cai até ao degrau inicial, voltando à sua forma primária, e aí fica à espera do próximo visitante. Apenas uma vez, ao longo dos séculos, é que a pobre criatura atingiu a perfeição. Quem terá sido esse humano?
Este é um livro soberbo, recheado de histórias e mitos capazes de inspirar todos os sonhadores. É, no entanto, uma leitura exigente, sendo mesmo recomendado no prólogo que o leitor não opte por lê-lo de forma consecutiva.
Para terminar e aguçar um pouco a curiosidade, a capa d’O Livro dos Seres Imaginários é um recorte da obra de arte As Tentações de Santo Antão, de Hieronymus Bosch, também referenciada no livro. Como complemento da leitura, recomendamos que procure o quadro de Bosch e que veja todas as criaturas que aí aparecem com detalhe; e não deixe também, claro, de aproveitar para (re)ler as outras obras do grande génio argentino, que a Quetzal tem vindo a reeditar.
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