Sem parar até à última página
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@Literacidades
17 de janeiro de 2020
Não são poucas as vezes em que a atenção se dispersa e o livro fica esquecido a um canto. Tal como são vários os momentos em que desejamos ter ali mesmo à mão um livro que nos faça pensar apenas no que virá depois da página seguinte.
Estas são três obras impossíveis de pousar antes de chegar ao final; sob pena de tudo o que fazemos entre uma leitura e outra correr menos bem, pois a nossa atenção está nos parágrafos que ainda não lemos.
Estas são três obras impossíveis de pousar antes de chegar ao final; sob pena de tudo o que fazemos entre uma leitura e outra correr menos bem, pois a nossa atenção está nos parágrafos que ainda não lemos.
MISERY
Nada atormenta mais do que viver à flor da obsessão. Em Misery, tudo começa quando a enfermeira Anne Wilkes encontra o seu ídolo, o escritor de histórias românticas Paul Sheldon, desmaiado na neve, na sequência de um acidente, e, em vez de o levar para o hospital, decide tratá-lo por conta própria, em sua casa. Enquanto lhe cura as feridas de um modo bastante peculiar, obriga-o a ressuscitar a sua mais famosa criação, a personagem Misery. São dias de absoluto desespero, em que Paul tenta livrar-se do culto obsessivo que lhe presta Anne, procurando trazer à razão a face da mais compenetrada loucura.
Misery, thriller de Stephen King, lê-se com a mesma voracidade com que Sheldon odeia o seu cárcere. É um livro de uma época em que King já era rei, mas a sua entronização enquanto mestre do horror ainda não havia acontecido e por isso temos páginas do mais envolvente temor psicológico. Temor mesmo, desse em que sentimos pavor de virar a página e descobrir o que a enfermeira viciada em analgésicos fez com o seu paciente forçado. Mas viramos mesmo assim, entrando cada vez mais na relação entre os dois.
Sustos à parte, Misery afirma-se como obra de culto, não apenas pela rapidez com que o queremos ler, mas por trazer temas que escapam ao modelo do thriller, como a vivência da solidão, o endeusamento e o desespero com que a realidade pode ser moldada à sombra da mais temível fantasia.
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Misery, thriller de Stephen King, lê-se com a mesma voracidade com que Sheldon odeia o seu cárcere. É um livro de uma época em que King já era rei, mas a sua entronização enquanto mestre do horror ainda não havia acontecido e por isso temos páginas do mais envolvente temor psicológico. Temor mesmo, desse em que sentimos pavor de virar a página e descobrir o que a enfermeira viciada em analgésicos fez com o seu paciente forçado. Mas viramos mesmo assim, entrando cada vez mais na relação entre os dois.
Sustos à parte, Misery afirma-se como obra de culto, não apenas pela rapidez com que o queremos ler, mas por trazer temas que escapam ao modelo do thriller, como a vivência da solidão, o endeusamento e o desespero com que a realidade pode ser moldada à sombra da mais temível fantasia.
O CASAMENTO
Há um antes e um depois de ler Nelson Rodrigues. Quem conseguir ultrapassar a fina camada folhetinesca deste O Casamento, quem não se deixar ficar pelo estalar das didascálias caraterísticas do homem de teatro que ele foi e conseguir mergulhar no último nível de relacionamento com esta obra, vai encontrar um enredo freudiano onde pouco interessa o que acontece. O importante está no esgar, no gesto fino, no desvio do olhar e na linha do decote.
Preparemo-nos para colocar a bolinha vermelha lá no canto superior direito: neste O Casamento entramos à espera de tudo e, revelações à parte, acontece mesmo de tudo.
O romance apresenta-nos a temática rodrigueana em todo o seu esplendor: a moça em vias de deixar de o ser, o pai demasiado torturado pelo passado, o noivo fraquejando e, finalmente, a revelação. A tal revelação que a princípio orientaria toda a obra, mas da qual somos desviados por um morder de lábios, pela iminência do revelar do desejo e pelo arriscar dos trunfos todos numa cena, mas depois noutra e, por fim, noutra ainda. Mas, então, e o casamento? Acontece? Teremos de esperar até à última página para saber se Glorinha diz “sim” e se o pai, Sabino, faz as pazes consigo próprio. O moralismo desenfreado, que desemboca em sexo e morte, é só um dos aspetos que levam a que seja impossível pôr de lado o livro deste “escritor maldito.”
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Preparemo-nos para colocar a bolinha vermelha lá no canto superior direito: neste O Casamento entramos à espera de tudo e, revelações à parte, acontece mesmo de tudo.
O romance apresenta-nos a temática rodrigueana em todo o seu esplendor: a moça em vias de deixar de o ser, o pai demasiado torturado pelo passado, o noivo fraquejando e, finalmente, a revelação. A tal revelação que a princípio orientaria toda a obra, mas da qual somos desviados por um morder de lábios, pela iminência do revelar do desejo e pelo arriscar dos trunfos todos numa cena, mas depois noutra e, por fim, noutra ainda. Mas, então, e o casamento? Acontece? Teremos de esperar até à última página para saber se Glorinha diz “sim” e se o pai, Sabino, faz as pazes consigo próprio. O moralismo desenfreado, que desemboca em sexo e morte, é só um dos aspetos que levam a que seja impossível pôr de lado o livro deste “escritor maldito.”
OS PÁSSAROS E OUTROS CONTOS MACABROS
É impossível desviar os olhos por um segundo de qualquer um dos seis contos presentes neste livro.
O primeiro centra-se na viagem a Itália de um casal que aí conhece duas irmãs idosas. Uma delas diz-lhes que consegue ver a filha morta do casal e que devem abandonar Veneza o mais rapidamente possível. O que se segue é frenético: ficamos com suores frios e não descansamos até apanhar o susto final. Noutro conto, uma macieira ataranta um desgraçado viúvo recente, homem nada velho, pronto a reconstruir a vida após anos de convivência forçada com uma mulher demasiado possessiva. Uma macieira, sim, a árvore das maçãs. Numa terceira história, experienciamos o mundo através dos olhos de uma mulher a quem foram colocadas lentes intraoculares e que, na sequência disso, passa a ver os humanos com cabeças de animais: uma enfermeira cobra, um médico abutre… o que será que se passa?
E depois há os tais pássaros, o conto que inspirou a cinematografia de Hitchcock. Àquela praia, acorrem cada vez mais gaivotas. Pássaros de todos os feitios lançam-se numa luta desabrigada contra os humanos, contra as casas. A dedicação de um pai impede que cheguem à sua família. Mas… o que se passa lá fora?
Neste livro, não há um momento sequer em que possamos parar para respirar: o ritmo é o de uma apneia constante e o entrelaçar da sombra com a realidade, poucas vezes (alguma vez?) escapando para o plano do sobrenatural, é o que dá robustez a estas histórias intemporais.
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O primeiro centra-se na viagem a Itália de um casal que aí conhece duas irmãs idosas. Uma delas diz-lhes que consegue ver a filha morta do casal e que devem abandonar Veneza o mais rapidamente possível. O que se segue é frenético: ficamos com suores frios e não descansamos até apanhar o susto final. Noutro conto, uma macieira ataranta um desgraçado viúvo recente, homem nada velho, pronto a reconstruir a vida após anos de convivência forçada com uma mulher demasiado possessiva. Uma macieira, sim, a árvore das maçãs. Numa terceira história, experienciamos o mundo através dos olhos de uma mulher a quem foram colocadas lentes intraoculares e que, na sequência disso, passa a ver os humanos com cabeças de animais: uma enfermeira cobra, um médico abutre… o que será que se passa?
E depois há os tais pássaros, o conto que inspirou a cinematografia de Hitchcock. Àquela praia, acorrem cada vez mais gaivotas. Pássaros de todos os feitios lançam-se numa luta desabrigada contra os humanos, contra as casas. A dedicação de um pai impede que cheguem à sua família. Mas… o que se passa lá fora?
Neste livro, não há um momento sequer em que possamos parar para respirar: o ritmo é o de uma apneia constante e o entrelaçar da sombra com a realidade, poucas vezes (alguma vez?) escapando para o plano do sobrenatural, é o que dá robustez a estas histórias intemporais.