A figura do pai em livros

Por Ana Bárbara Pedrosa
16 de março de 2023
Figura central na vida, figura central nos livros. A caleidoscópica relação entre pais e filhos tem tudo lá dentro, nenhuma relação é igual a outra. Ficam alguns exemplos.
 
A Morte do Pai
É o primeiro volume do monumento literário do autor norueguês e não havia como não começar por aqui. E vamos logo com um mau exemplo, uma experiência traumática. Em A Morte do Pai, Knausgård faz uma incursão à infância: perante o pai agressivo, havia uma criança com medo. O rapaz, como o irmão, crescia num ambiente tóxico, não conseguia ter sossego se tivesse o pai em casa, e chega a dar exemplos de coisas arrepiantes, como o dia em que bebeu leite estragado por achar que alguma coisa implodiria ou explodiria caso ele dissesse ao pai que o leite que lhe dera não estava bom. Ao longo das centenas de páginas, vemos uma relação feita de medo, descrita por um homem que chegou a afirmar que o seu maior triunfo como pai era poder estar numa sala sem que as filhas reparassem que lá estava: sem que, por isso, inspirasse o medo que muda o ar à volta. A morte do pai, ainda assim, desorientou-o, tendo canalizado essa desorientação para esta literatura.
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Cartas do Pai
Mudamos a mão que escreve, e para que outras mãos: neste volume, temos cartas de 16 homens que estavam presos em campos do Gulag, quase todos membros da intelligentsia soviética. No meio do inferno, escrevem ao essencial da vida: os filhos, as esposas. Para além da relação filial, imensidão que os grilhões são incapazes de conter ou amansar, o livro deixa ainda testemunhos do que foi, na prática, a repressão estalinista na URSS. Funciona como documento histórico, mas também, e até principalmente, como exemplo da humanidade que resta ante a monstruosidade. Estes pais morreram entretanto, tendo ficado, até mundo fora, um registo do que foram e um monumento ao amor pelos filhos.
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Carta ao Pai
Continuamos no registo epistolar, desta vez de filho para pai. Escrita em 1919, esta carta é hoje vista como um singular documento literário. O registo é epistolar, a prática é que nem por isso, já que, tendo o texto destinatário, nunca chegou a ser enviado. O conteúdo não é menor por isso, já que Kafka se lançou com tudo. No texto, escrito cinco anos antes da morte do autor, temos uma abordagem a uma relação filial permeada pela ambivalência. Nem todas as relações entre filho e pai são a preto e branco, e esta é uma delas. Por isso, ao ler o que foi escrito para outra pessoa, quem lê entra na intimidade alheia, sente a angústia alheia, é colocado no centro de uma relação densa.
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SEI PORQUE CANTA O PÁSSARO NA GAIOLA
E seguimos com Roth, que põe leveza nas frases para, sem enfeites, ir ao fundo da vida. Um dos meus preferidos, um dos que me acompanham há tanto tempo, o autor norte-americano mete frases num livro como quem arranca a turbo. Em Património, saímos do exercício ficcional, e o texto é apresentado como próximo do real. Roth viu a batalha que o pai travou com um tumor cerebral, acompanhando-o a cada passo, vendo a degeneração que acabaria por terminar em morte. Há um desconcerto naquele adivinhar de fim inevitável – de fim a acontecer. E, à medida que se encara a morte iminente, pensa-se na vida, havendo angústia no fim da vitalidade que marcara o homem que se acerca do fim. Se há a ansiedade que o medo da morte provoca, também não deixa de haver apego à vida. E, no meio disto tudo, as memórias, boas e más, que sustentam uma relação que, no caso de Philip Roth, foi fundamental a vida inteira.
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Beautiful Boy
Forte, poderoso, comovente. Assim é este relato que David Sheff fez da batalha que o seu filho travou com as drogas. E da batalha que, pelas drogas, trouxe para o seio da família. A dependência de um corpo tornou-se num drama coletivo, as tentativas de recuperação repetiam-se sem uma finalização à vista, e houve alturas em que até a esperança apareceu morta. Para o pai, o maior drama era ver o filho assim, e maior drama foi quando entendeu que não podia fazer nada. Os seus esforços pelo fim do vício morriam pela cedência à droga. E droga que pareceu aparecer de rompante, mudando a vida que tinham planeado. Antes dela, Nic era alegre, divertido, feliz. Era bom aluno, tinha uma boa relação com os irmãos mais novos, a quem agora o pai também tem de proteger. Depois da droga, veio uma sombra que existia para se drogar e ensombrar-se mais. Sem dúvida, Beautiful Boy é um livro em que o amor de um pai aparece com a força de um galope.
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