Pai, este livro é para ti
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@literacidades
17 de janeiro de 2020
Pensando bem, somos todos pais. Há quem o seja, de facto, de um ou mais filhos. Mas também há as mães que são pai e mãe. E os irmãos mais velhos que são a figura paterna de outros, mais novos. Há os avós que são pais a dobrar, os padrinhos, que não o são menos. E, ainda, os pais dos filhotes de quatro patas, que são cada vez mais parte da família, ou os pais de sonhos que se tornaram projetos e depois realidade e que tantas vezes mudaram a vida de tantos filhos emprestados. Há uma diversidade imensa de pais que, no entanto, têm algo em comum: é sempre boa ideia oferecer-lhes um livro. Confira aqui algumas sugestões.
OS DESPOJOS DO DIA
As reflexões que um mordomo inglês faz sobre a sua própria vida dão o mote a um livro que excede em larga escala a medida dos seus dias.
Stevens é o nosso homem e Darlington Hall a casa onde serviu um lorde inglês por mais de trinta anos. À altura em que inicia as suas reflexões, o grande casarão passou a ser propriedade de um americano e o contraste entre o rígido protocolo britânico e a descontração americana motivam vários momentos de embate entre o passado e o presente. A Stevens é-lhe dada pelo novo proprietário da mansão a possibilidade de fazer um passeio por Inglaterra, com o intuito de se reencontrar com Miss Kenton, antiga governanta de Darlington Hall. A viagem do nosso Stevens vai-se traduzindo em muitas lembranças sobre o seu passado e o brio com que serviu ao longo da vida. A retidão de um homem, a abnegação em nome da defesa da honra e do conforto de um lorde e a ideia de que de outra forma não poderia ser.
Os Despojos do Dia é um livro onde a partir da ideia de uma competência irredutível, somos levados a refletir sobre o que resta, sobre a utilidade de procurar um sentido na própria vida através dos outros. A figura sóbria, discreta, de Stevens, o constante relegar para segundo plano dos seus sentimentos em função da ordem e da moral colocam a pertinente questão: afinal, o que fazemos com o passar dos anos? Onde nos encontramos nos outros e na própria Humanidade? E, no fim, restam imaculadas as nossas certezas?
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Stevens é o nosso homem e Darlington Hall a casa onde serviu um lorde inglês por mais de trinta anos. À altura em que inicia as suas reflexões, o grande casarão passou a ser propriedade de um americano e o contraste entre o rígido protocolo britânico e a descontração americana motivam vários momentos de embate entre o passado e o presente. A Stevens é-lhe dada pelo novo proprietário da mansão a possibilidade de fazer um passeio por Inglaterra, com o intuito de se reencontrar com Miss Kenton, antiga governanta de Darlington Hall. A viagem do nosso Stevens vai-se traduzindo em muitas lembranças sobre o seu passado e o brio com que serviu ao longo da vida. A retidão de um homem, a abnegação em nome da defesa da honra e do conforto de um lorde e a ideia de que de outra forma não poderia ser.
Os Despojos do Dia é um livro onde a partir da ideia de uma competência irredutível, somos levados a refletir sobre o que resta, sobre a utilidade de procurar um sentido na própria vida através dos outros. A figura sóbria, discreta, de Stevens, o constante relegar para segundo plano dos seus sentimentos em função da ordem e da moral colocam a pertinente questão: afinal, o que fazemos com o passar dos anos? Onde nos encontramos nos outros e na própria Humanidade? E, no fim, restam imaculadas as nossas certezas?
RAIVA
Leitura galopante, coração aos saltos, páginas que se desvelam diante dos nossos olhos sem que as consigamos parar. José María e Rosa apaixonam-se. Um é operário da construção civil e a outra é funcionária numa mansão na zona rica de Buenos Aires. Conhecem-se por acaso, num supermercado, namoram às escondidas dos patrões, ela cozinha-lhe bifes panados, ele oferece-lhe o que tem. Veem televisão e sonham em ficar juntos para sempre. Até aqui, uma simples história de amor entre dois trabalhadores, ambos negros, de uma classe social desfavorecida. Após certo evento, porém, José María passa a ser procurado pela polícia. E resolve esconder-se precisamente onde ninguém poderá supor que ele está: na imensa mansão onde Rosa trabalha, e sem que nem a própria saiba. Vive num silêncio absoluto, medindo cada gesto, cada decisão, habituando-se a existir como um rato escondido numa casa imensa. E na sua qualidade de quase fantasma, José María vê e ouve tudo o que se passa. As humilhações a que Rosa é sujeita pela família deixam-no revoltado e é nesse estado de revolta que vai tomar várias decisões.
Raiva é um livro que nos tira o chão: estamos com ele naqueles corredores escuros, onde anda pelas sombras, nu, atento a que a sua respiração não o denuncie. Assistimos à decadência de uma família plena de privilégios e ao espezinhar da honra e da dignidade do ser humano. Nota máxima para um livro que não se esquece facilmente.
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Raiva é um livro que nos tira o chão: estamos com ele naqueles corredores escuros, onde anda pelas sombras, nu, atento a que a sua respiração não o denuncie. Assistimos à decadência de uma família plena de privilégios e ao espezinhar da honra e da dignidade do ser humano. Nota máxima para um livro que não se esquece facilmente.
DORAMAR OU A ODISSEIA
Não foi à toa que Itamar Vieira Junior ganhou o Prémio LeYa, o Prémio Jabuti e o Prémio Oceanos. Quando um escritor tem esta qualidade de escrita, uma sensibilidade extrema para a criação de personagens com as quais nos importamos, os prémios tornam-se inevitáveis. Do que lhe conhecemos, gostamos de tudo. Apresenta-nos sempre histórias surpreendentes, trabalhadas numa linguagem cuidada, de quem conhece bem as voltas da pena e a forma de lhes dar um sentido do belo imbuído da sensibilidade feita de terra e raiz de árvore, que muito dificilmente surgiria noutro país que não o Brasil.
Nesta coletânea de histórias encontramos personagens diversas, onde quase sempre a história da exploração se entrelaça a uma escrita rica de fascínio e de futuro. Encontramos muitas personagens-mulher, como Alma, uma escrava fugida da casa dos seus senhores, ou Doramar, fiel servente até ao fim anunciado dos seus dias. Aos temas contemporâneos que aborda nestas histórias, como a destruição da floresta ou a luta pelos direitos humanos, nomeadamente dos povos indígenas, junta-se a exploração dos escravos negros ou as viagens entre África e o Brasil, em pleno colonialismo.
Diríamos que Itamar Vieira Junior representa a voz de um certo Brasil de hoje, cansado que a constante associação do país ao crime, ao futebol e ao sexo, esconda o verdadeiro Brasil, indígena, pacífico, mágico, para prolongar um preconceito colonialista que muda propositadamente o foco daqueles que são os temas prementes: a herança da exploração e o contínuo aniquilar das comunidades indígenas. Contado de uma forma que, de tão bela, se torna quase irreal.
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Nesta coletânea de histórias encontramos personagens diversas, onde quase sempre a história da exploração se entrelaça a uma escrita rica de fascínio e de futuro. Encontramos muitas personagens-mulher, como Alma, uma escrava fugida da casa dos seus senhores, ou Doramar, fiel servente até ao fim anunciado dos seus dias. Aos temas contemporâneos que aborda nestas histórias, como a destruição da floresta ou a luta pelos direitos humanos, nomeadamente dos povos indígenas, junta-se a exploração dos escravos negros ou as viagens entre África e o Brasil, em pleno colonialismo.
Diríamos que Itamar Vieira Junior representa a voz de um certo Brasil de hoje, cansado que a constante associação do país ao crime, ao futebol e ao sexo, esconda o verdadeiro Brasil, indígena, pacífico, mágico, para prolongar um preconceito colonialista que muda propositadamente o foco daqueles que são os temas prementes: a herança da exploração e o contínuo aniquilar das comunidades indígenas. Contado de uma forma que, de tão bela, se torna quase irreal.
BONS SONHOS
Quem não gosta de um thriller nórdico, daqueles de andar a juntar pistas para vermos se descobrimos o que afinal se passou? É justamente isso que encontramos em Bons Sonhos.
Ewert Grens está de volta, em mais uma aventura escrita por Anders Roslund, autor best-seller que dispensa grandes apresentações. As vendas das suas histórias ultrapassaram já os cinco milhões: mais ou menos como se metade de Portugal já tivesse lido um livro seu.
Após a publicação de A Aniversariante em 2020, surge agora Bons Sonhos, trazendo de novo ao público as personagens que ficaram conhecidas por desvendar o mistério da menina que cantava sozinha os parabéns a si própria.
Neste novo livro, Roslund leva-nos ao cemitério, lugar onde o famoso superintendente vai para pensar na vida. Certo dia, senta-se ao lado dele uma desconhecida, que lhe fala na campa sem nome de uma criança ali enterrada. E não é preciso mais: os dados estão lançados e a curiosidade de Grens para resolver mais um mistério já não o sossega. Outro desaparecimento ocorre nesse mesmo dia, concorrendo ambos para uma trama que o superintendente da polícia de Estocolmo tem de deslindar. E, para isso, perceber de que forma ambos os casos se relacionam será a chave para a resolução do mistério.
O livro traz-nos o conforto de personagens que já conhecemos e um novo mergulho nesse país que cremos tão pacífico mas que, afinal, tem em si todos os crimes do mundo. Nunca olharemos a Suécia com os mesmos olhos.
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Ewert Grens está de volta, em mais uma aventura escrita por Anders Roslund, autor best-seller que dispensa grandes apresentações. As vendas das suas histórias ultrapassaram já os cinco milhões: mais ou menos como se metade de Portugal já tivesse lido um livro seu.
Após a publicação de A Aniversariante em 2020, surge agora Bons Sonhos, trazendo de novo ao público as personagens que ficaram conhecidas por desvendar o mistério da menina que cantava sozinha os parabéns a si própria.
Neste novo livro, Roslund leva-nos ao cemitério, lugar onde o famoso superintendente vai para pensar na vida. Certo dia, senta-se ao lado dele uma desconhecida, que lhe fala na campa sem nome de uma criança ali enterrada. E não é preciso mais: os dados estão lançados e a curiosidade de Grens para resolver mais um mistério já não o sossega. Outro desaparecimento ocorre nesse mesmo dia, concorrendo ambos para uma trama que o superintendente da polícia de Estocolmo tem de deslindar. E, para isso, perceber de que forma ambos os casos se relacionam será a chave para a resolução do mistério.
O livro traz-nos o conforto de personagens que já conhecemos e um novo mergulho nesse país que cremos tão pacífico mas que, afinal, tem em si todos os crimes do mundo. Nunca olharemos a Suécia com os mesmos olhos.