Pai, este livro é para ti

Por Álvaro Curia/Ludgero Cardoso
@literacidades
17 de janeiro de 2020
Pensando bem, somos todos pais. Há quem o seja, de facto, de um ou mais filhos. Mas também há as mães que são pai e mãe. E os irmãos mais velhos que são a figura paterna de outros, mais novos. Há os avós que são pais a dobrar, os padrinhos, que não o são menos. E, ainda, os pais dos filhotes de quatro patas, que são cada vez mais parte da família, ou os pais de sonhos que se tornaram projetos e depois realidade e que tantas vezes mudaram a vida de tantos filhos emprestados. Há uma diversidade imensa de pais que, no entanto, têm algo em comum: é sempre boa ideia oferecer-lhes um livro. Confira aqui algumas sugestões.


OS DESPOJOS DO DIA
As reflexões que um mordomo inglês faz sobre a sua própria vida dão o mote a um livro que excede em larga escala a medida dos seus dias.
Stevens é o nosso homem e Darlington Hall a casa onde serviu um lorde inglês por mais de trinta anos. À altura em que inicia as suas reflexões, o grande casarão passou a ser propriedade de um americano e o contraste entre o rígido protocolo britânico e a descontração americana motivam vários momentos de embate entre o passado e o presente. A Stevens é-lhe dada pelo novo proprietário da mansão a possibilidade de fazer um passeio por Inglaterra, com o intuito de se reencontrar com Miss Kenton, antiga governanta de Darlington Hall. A viagem do nosso Stevens vai-se traduzindo em muitas lembranças sobre o seu passado e o brio com que serviu ao longo da vida. A retidão de um homem, a abnegação em nome da defesa da honra e do conforto de um lorde e a ideia de que de outra forma não poderia ser.
Os Despojos do Dia é um livro onde a partir da ideia de uma competência irredutível, somos levados a refletir sobre o que resta, sobre a utilidade de procurar um sentido na própria vida através dos outros. A figura sóbria, discreta, de Stevens, o constante relegar para segundo plano dos seus sentimentos em função da ordem e da moral colocam a pertinente questão: afinal, o que fazemos com o passar dos anos? Onde nos encontramos nos outros e na própria Humanidade? E, no fim, restam imaculadas as nossas certezas?
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RAIVA
Leitura galopante, coração aos saltos, páginas que se desvelam diante dos nossos olhos sem que as consigamos parar. José María e Rosa apaixonam-se. Um é operário da construção civil e a outra é funcionária numa mansão na zona rica de Buenos Aires. Conhecem-se por acaso, num supermercado, namoram às escondidas dos patrões, ela cozinha-lhe bifes panados, ele oferece-lhe o que tem. Veem televisão e sonham em ficar juntos para sempre. Até aqui, uma simples história de amor entre dois trabalhadores, ambos negros, de uma classe social desfavorecida. Após certo evento, porém, José María passa a ser procurado pela polícia. E resolve esconder-se precisamente onde ninguém poderá supor que ele está: na imensa mansão onde Rosa trabalha, e sem que nem a própria saiba. Vive num silêncio absoluto, medindo cada gesto, cada decisão, habituando-se a existir como um rato escondido numa casa imensa. E na sua qualidade de quase fantasma, José María vê e ouve tudo o que se passa. As humilhações a que Rosa é sujeita pela família deixam-no revoltado e é nesse estado de revolta que vai tomar várias decisões.
Raiva é um livro que nos tira o chão: estamos com ele naqueles corredores escuros, onde anda pelas sombras, nu, atento a que a sua respiração não o denuncie. Assistimos à decadência de uma família plena de privilégios e ao espezinhar da honra e da dignidade do ser humano. Nota máxima para um livro que não se esquece facilmente.
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DORAMAR OU A ODISSEIA
Não foi à toa que Itamar Vieira Junior ganhou o Prémio LeYa, o Prémio Jabuti e o Prémio Oceanos. Quando um escritor tem esta qualidade de escrita, uma sensibilidade extrema para a criação de personagens com as quais nos importamos, os prémios tornam-se inevitáveis. Do que lhe conhecemos, gostamos de tudo. Apresenta-nos sempre histórias surpreendentes, trabalhadas numa linguagem cuidada, de quem conhece bem as voltas da pena e a forma de lhes dar um sentido do belo imbuído da sensibilidade feita de terra e raiz de árvore, que muito dificilmente surgiria noutro país que não o Brasil.
Nesta coletânea de histórias encontramos personagens diversas, onde quase sempre a história da exploração se entrelaça a uma escrita rica de fascínio e de futuro. Encontramos muitas personagens-mulher, como Alma, uma escrava fugida da casa dos seus senhores, ou Doramar, fiel servente até ao fim anunciado dos seus dias. Aos temas contemporâneos que aborda nestas histórias, como a destruição da floresta ou a luta pelos direitos humanos, nomeadamente dos povos indígenas, junta-se a exploração dos escravos negros ou as viagens entre África e o Brasil, em pleno colonialismo.
Diríamos que Itamar Vieira Junior representa a voz de um certo Brasil de hoje, cansado que a constante associação do país ao crime, ao futebol e ao sexo, esconda o verdadeiro Brasil, indígena, pacífico, mágico, para prolongar um preconceito colonialista que muda propositadamente o foco daqueles que são os temas prementes: a herança da exploração e o contínuo aniquilar das comunidades indígenas. Contado de uma forma que, de tão bela, se torna quase irreal.
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BONS SONHOS
Quem não gosta de um thriller nórdico, daqueles de andar a juntar pistas para vermos se descobrimos o que afinal se passou? É justamente isso que encontramos em Bons Sonhos.
Ewert Grens está de volta, em mais uma aventura escrita por Anders Roslund, autor best-seller que dispensa grandes apresentações. As vendas das suas histórias ultrapassaram já os cinco milhões: mais ou menos como se metade de Portugal já tivesse lido um livro seu.
Após a publicação de A Aniversariante em 2020, surge agora Bons Sonhos, trazendo de novo ao público as personagens que ficaram conhecidas por desvendar o mistério da menina que cantava sozinha os parabéns a si própria.
Neste novo livro, Roslund leva-nos ao cemitério, lugar onde o famoso superintendente vai para pensar na vida. Certo dia, senta-se ao lado dele uma desconhecida, que lhe fala na campa sem nome de uma criança ali enterrada. E não é preciso mais: os dados estão lançados e a curiosidade de Grens para resolver mais um mistério já não o sossega. Outro desaparecimento ocorre nesse mesmo dia, concorrendo ambos para uma trama que o superintendente da polícia de Estocolmo tem de deslindar. E, para isso, perceber de que forma ambos os casos se relacionam será a chave para a resolução do mistério.
O livro traz-nos o conforto de personagens que já conhecemos e um novo mergulho nesse país que cremos tão pacífico mas que, afinal, tem em si todos os crimes do mundo. Nunca olharemos a Suécia com os mesmos olhos.
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