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Os Cus de Judas

Livro de bolso

de António Lobo Antunes
Editor: BIS, julho de 2021 ‧
7,50€
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Segunda obra do autor.

A memória das experiências vividas durante a guerra em Angola. A partir de um encontro nocturno, num bar, do narrador com uma mulher, sem nome e sem voz, surge num longo monólogo o percurso de um médico militar que, depois de passar vinte e sete meses em Angola a servir o exército colonial, a reconstituir os corpos explodidos na guerra ou a assistir à sua agonia, regressa à metrópole, perdido numa angústia sem saída.
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António Lobo Antunes – uma estranha força interior

António Lobo Antunes morreu hoje aos 83 anos, deixando um vazio raro na literatura portuguesa. Médico psiquiatra antes de se dedicar por inteiro à escrita, transformou a memória da Guerra Colonial, a violência íntima e a fragilidade humana em matéria literária de uma densidade inconfundível.
A sua obra, com mais de três dezenas de romances, marcou gerações pela forma como desmontava a linguagem, como escavava o labirinto interior e como recusava qualquer explicação fácil do mundo. Era, como tantos sublinham neste dia, um intérprete sensível da condição humana e um dos maiores escritores portugueses contemporâneos.
Os seus livros, marcados por memórias que regressam como feridas abertas e uma atenção radical ao sofrimento humano, deixam um legado maior do que o tempo de uma vida.

Na entrevista que concedeu ao wookacontece em 2020, e que agora recordamos, Lobo Antunes surge como sempre foi: frontal, irónico, cansado de entrevistas — “são um frete” — mas incapaz de fugir à verdade quando começava a falar. António Lobo Antunes – Foto © Georges Seguin (Okki), CC BY-SA 3.0 Durante essa conversa, quando lhe perguntámos se escrevia por gosto, respondeu-nos assim: «Não se pode dizer que seja por gosto. Não sei. É uma estranha força interior.»
Falou também da guerra, não como episódio histórico, mas como cicatriz permanente. A guerra ensinou-lhe a ver a morte de perto, e essa presença nunca o abandonou. A fé, quando surgia, era ambivalente: «Gostava de ter uma fé luminosa e tranquila e boa como tem um homem de quem eu gosto muito, que é o Frei Bento Domingues», disse. «Viver é difícil» disse, defendendo que «o Evangelho devia ser mudado. Em lugar de se pôr “no princípio era o verbo”, devia pôr-se “no princípio era a depressão”, que é o sentimento mais comum no Homem». De tal forma que «a depressão está sempre presente até à depressão final, que é a morte».
Havia humor, também. E o gosto pelos grandes escritores. E até ternura, quando mencionou o amigo Gabo, como quem fala de alguém que lhe ensinou a leveza possível no meio do peso do mundo.
Hoje, ao reler a sua obra e ao rever essa entrevista, percebe-se melhor o que perdemos: não apenas um escritor maior, mas alguém que acreditava que a literatura podia iluminar as zonas escuras da vida sem as domesticar. A sua morte deixa-nos órfãos de uma voz que não se preocupava em agradar, mas que sempre procurou compreender. E talvez seja essa a sua herança mais profunda: a de um homem que escreveu para escutar, e que escutou para sobreviver.
Pode também lê-la nesta edição da revista wookacontece. Entrevista de António Lobo Antunes ao wookacontece «ESCREVER É UMA COISA MUITO DIFÍCIL E EU FICO SEMPRE ESPANTADO POR HAVER TANTA GENTE A FAZER LIVROS»

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António Lobo Antunes

Falar de António Lobo Antunes é tentar descrever alguém que escapa a explicações simples. Na literatura portuguesa contemporânea, poucas vozes são tão únicas, tão imediatamente reconhecíveis como a sua. Não escrevia por mero gosto, mas por uma “estranha força interior” que o impelia, quase como uma urgência vital.
Cresceu num ambiente familiar e intelectual que estimulou desde cedo a sua sensibilidade literária. Ainda assim, seguiu o caminho da família e ingressou em Medicina na Universidade de Lisboa, especializando se mais tarde em Psiquiatria, uma escolha que acabaria por marcar profundamente o escritor que viria a ser. No contacto diário com as fragilidades humanas, com aqueles que muitas vezes são ostracizados e apelidados de "malucos", encontrou histórias que o espantaram, o emocionaram e lhe deram, dizia ele, a melhor lição de teoria da literatura que poderia ter recebido. Em plena Guerra Colonial, António Lobo Antunes foi mobilizado como médico militar para Angola. A violência, a morte e o sofrimento que testemunhou deixaram marcas profundas e tornaram se um dos alicerces da sua escrita. A guerra, nas suas obras, aparece como uma ferida portuguesa ainda por sarar, um trauma que atravessa gerações: o regresso difícil, a reintegração falhada e a perda de rumo. São temas que se repetem, não por insistência, mas porque continuam a doer.

A sua estreia literária, em 1979, com Memória de Elefante, já revelava a recusa firme das narrativas tradicionais. No mesmo ano, Os Cus de Judas afirmou o como uma das vozes mais marcantes da literatura portuguesa, expondo a experiência da guerra num discurso contínuo, visceral, por vezes quase alucinado. Com Conhecimento do Inferno, encerra um primeiro ciclo profundamente autobiográfico, mas já apontado para algo mais vasto: a exploração radical da condição humana.
Nos seus livros, o leitor é acolhido num fluxo de consciência onde passado e presente se confundem, onde as histórias surgem devagar, conduzidas por memórias, associações e imagens que nos atingem de forma íntima. A sua escrita exige atenção, entrega, e convida-nos a participar na construção do sentido. Não é uma leitura fácil, mas é uma travessia que recompensa profundamente quem se permite entrar nela. Em Fado Alexandrino, um grupo de antigos combatentes reencontra-se muitos anos após a guerra, confrontando memórias que tentaram esquecer. Já em O Manual dos Inquisidores, Lobo Antunes desmonta, com lucidez dolorosa, as estruturas de poder e a hipocrisia social que marcaram a transição política portuguesa. São livros que procuram compreender as fraturas históricas que moldaram o país que somos hoje.
Em Portugal, foi distinguido com vários prémios, entre os quais se destaca o Prémio Camões, em 2007. A nível internacional, recebeu o Prémio Ovidio (2003) e o Prémio Europeu de Literatura (2001), sendo recorrentemente apontado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura.
A sua obra atravessou fronteiras: foi traduzido, estudado e reconhecido internacionalmente. No entanto, para ele, escrever nunca foi um destino glorioso, mas um trabalho duro, rigoroso, de permanente construção e reconstrução. Na sua última entrevista, disse com a franqueza que o caracterizava: «Escrever é uma coisa muito difícil e fico sempre espantado por haver tanta gente a fazer livros.»
Numa voz mais próxima e despojada do que aquela que encontramos nos seus romances, António Lobo Antunes abre-nos a porta para um universo vasto de temas nas suas crónicas que o tornaram um nome constante na imprensa ao longo de muitos anos e o aproximaram de leitores que, talvez, se sentiam demasiado intimidados pela restante obra. As memórias de infância, a família que o moldou, as mulheres que passaram pela sua vida, os amigos, os amores e os desamores, a vida que pulsa e a morte que inquieta. Entrelaça tudo isto com encontros fortuitos com desconhecidos, pequenas histórias de viagem, descobertas em restaurantes de bairro e, como seria inevitável, reflexões sobre a escrita e os livros; sem dúvida oferecem um retrato mais amplo e humano da versatilidade e do talento de Lobo Antunes.

Hoje, ocupa um lugar incontornável na literatura portuguesa não só pela vastidão da sua obra, mas pela forma como expandiu os limites do romance e da linguagem. Foi um verdadeiro explorador da experiência humana, alguém que transformou a memória num território literário onde identidade, história e emoção se cruzam.
Ler António Lobo Antunes é aceitar entrar num espaço onde tudo é mais exigente, mas também mais verdadeiro. Onde há momentos de humor inesperado e outros em que a dor da vida se sente com toda a força. E não é isso a grande Literatura? Este artigo foi originalmente publicado na revista Wookacontece de abril de 2026.

Os Cus de Judas

Livro de bolso

de António Lobo Antunes

Propriedade Descrição
ISBN: 9789896611859
Editor: BIS
Data de Lançamento: julho de 2021
Idioma: Português
Dimensões: 126 x 195 x 10 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 224
Tipo de produto: Livro
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789896611859

Sem palavras

Rafael

Comprara este livro o ano passado para, finalmente, mergulhar num dos mais elogiados nomes da literatura portuguesa. Por questões alheias outras leituras se colocaram à frente e os coitados dos judas lá foram esperando. Foi só com a triste notícia do recente falecimento de Lobo Antunes que me vi na obrigação moral de resgatá-lo e lê-lo. É um livro cuja singularidade e beleza apenas podem ser compreendidos com a sua leitura. A escrita sagaz e rápida, contendo nas palavras o sabor da vida, a narração contínua pela forma de monólogo que comprime o peso de uma guerra que não acabou em 1974, as verozes críticas e denúncias do fascismo decadente que na sua queda desesperada afogou jovens e resistentes num mar de sangue. Os Cus de Judas é um retrato de uma época, um quadro de uma vida e uma fotografia da excecionalidade de António Lobo Antunes. Lê-lo é mantê-lo vivo junto de nós.

Um Livro no mínimo desconcertante,

MC

Pela escrita fria, rude, dura, sem apelo nem agravo, igualmente, intensa, cativante, poética Talvez porque o tema, a abordagem na primeira pessoa (Lobo Antunes, um jovem médico mandado por Portugal para atuar como médico na Guerra de Angola) assim o exija. Um livro cuja narrativa é descrita em época de colonização, em plena era salazarista. “A tropa faz um homem” A Abordagem da vivencia em campos de guerra como médico, a socialização de colonizadores versus colonizados, o distanciamento entre as colónias e a metrópole, o desamparo, a morte, o amor, o sexo, os ideais, a amizade, temperado por memorias de infância. A realidade encontrada, tão distinta do que se aprende na escola, chegado a Angola, se descobre o que realmente se fará em terras africanas. “Não te pertenço nem me pertences, tudo em ti me repele, recuso que seja este o meu país [...]” Portugal.. Um romance que dá voz a quem não a teve “Se a guerra acabou, percebe? e em certo sentido acabou de facto, é porque os mortos de África, de boca cheia de terra, não podem protestar [...]”

Diferente, Intenso

MariaS

Uma leitura rica, pois dessa forma é a escrita do autor. Quanto à narrativa, igualmente poderosa, o relato da "colonização", na pessoa do soldado jovem, médico, com uma vida lá outra na metrópole (Lisboa) . Nunca fora fácil, nem tão pouco uma realidade esclarecida, esta narrativa empoe de forma nua e crua parte dessa realidade, sem rodeios, filtrou, uma narrativa que não pede desculpas pela realidade vivida.

SOBRE O AUTOR

António Lobo Antunes

António Lobo Antunes (Benfica, Lisboa, 1 de setembro de 1942 - 5 de março de 2026) foi um escritor e médico psiquiatra português.
Estudou na Faculdade de Medicina de Lisboa e especializou-se em Psiquiatria. Exerceu, durante vários anos, a profissão de médico psiquiatra. Em 1970 foi mobilizado para o serviço militar. Embarcou para Angola no ano seguinte, tendo regressado em 1973. Em 1979 publicou os seus primeiros livros, Memória de Elefante e Os Cus de Judas, seguindo-se, em 1980, Conhecimento do Inferno. Estes primeiros livros são marcadamente biográficos, e estão muito ligados ao contexto da guerra colonial; imediatamente o transformaram num dos autores contemporâneos mais lidos e discutidos, no âmbito nacional e internacional. Todo o seu trabalho literário tem sido, ao longo dos anos, objeto dos mais diversos estudos, académicos ou não, e dos mais importantes prémios, nacionais e internacionais. A sua obra encontra-se traduzida em inúmeros países.

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