António Lobo Antunes – uma estranha força interior

5 de março de 2026
António Lobo Antunes morreu hoje aos 83 anos, deixando um vazio raro na literatura portuguesa. Médico psiquiatra antes de se dedicar por inteiro à escrita, transformou a memória da Guerra Colonial, a violência íntima e a fragilidade humana em matéria literária de uma densidade inconfundível.
A sua obra, com mais de três dezenas de romances, marcou gerações pela forma como desmontava a linguagem, como escavava o labirinto interior e como recusava qualquer explicação fácil do mundo. Era, como tantos sublinham neste dia, um intérprete sensível da condição humana e um dos maiores escritores portugueses contemporâneos.
Os seus livros, marcados por memórias que regressam como feridas abertas e uma atenção radical ao sofrimento humano, deixam um legado maior do que o tempo de uma vida.

Na entrevista que concedeu ao wookacontece em 2020, e que agora recordamos, Lobo Antunes surge como sempre foi: frontal, irónico, cansado de entrevistas — “são um frete” — mas incapaz de fugir à verdade quando começava a falar.
 António Lobo Antunes
António Lobo Antunes – Foto © Georges Seguin (Okki), CC BY-SA 3.0
Durante essa conversa, quando lhe perguntámos se escrevia por gosto, respondeu-nos assim: «Não se pode dizer que seja por gosto. Não sei. É uma estranha força interior.»
Falou também da guerra, não como episódio histórico, mas como cicatriz permanente. A guerra ensinou-lhe a ver a morte de perto, e essa presença nunca o abandonou. A fé, quando surgia, era ambivalente: «Gostava de ter uma fé luminosa e tranquila e boa como tem um homem de quem eu gosto muito, que é o Frei Bento Domingues», disse. «Viver é difícil» disse, defendendo que «o Evangelho devia ser mudado. Em lugar de se pôr “no princípio era o verbo”, devia pôr-se “no princípio era a depressão”, que é o sentimento mais comum no Homem». De tal forma que «a depressão está sempre presente até à depressão final, que é a morte».
Havia humor, também. E o gosto pelos grandes escritores. E até ternura, quando mencionou o amigo Gabo, como quem fala de alguém que lhe ensinou a leveza possível no meio do peso do mundo.
Hoje, ao reler a sua obra e ao rever essa entrevista, percebe-se melhor o que perdemos: não apenas um escritor maior, mas alguém que acreditava que a literatura podia iluminar as zonas escuras da vida sem as domesticar. A sua morte deixa-nos órfãos de uma voz que não se preocupava em agradar, mas que sempre procurou compreender. E talvez seja essa a sua herança mais profunda: a de um homem que escreveu para escutar, e que escutou para sobreviver.
Pode também lê-la nesta edição da revista wookacontece.
Entrevista de António Lobo Antunes ao wookacontece
«ESCREVER É UMA COISA MUITO DIFÍCIL E EU FICO SEMPRE ESPANTADO POR HAVER TANTA GENTE A FAZER LIVROS»

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