O Uso das Palavras

Livro 1

de Nathalie Sarraute
Editor: Difel, abril de 1987 ‧
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«As palavras vêm de longe e têm uma história que por vezes desconhecemos. O Uso das Palavras incorpora a memória perdida dessa história, talvez ignorada mas sempre fascinante, que Nathalie Sarraute reconstitui ao nível do percurso semântico, mas sem descurar a carga poética da sua própria reconstituição.»
A Capital

"Ich sterbe. Que vem a ser isto? São palavras alemãs. Significam eu morro. Mas a que propósito, porquê assim sem mais nem menos? Já vão ver, tenham um pouco de paciência. Estas palavras vêm de longe, voltam (como as almas do outro mundo) do princípio do século, de uma estância termal alemã. Mas na realidade voltam de ainda muito mais longe... Mas não nos adiantemos, vamos primeiro ao que fica mais perto.
Portanto, no princípio deste século - em 1904, para ser mais exacta - num quarto de hotel de uma estância termal alemã endireitou-se no seu leito um homem moribundo. Era russo. Vocês conhecem-no de nome: Tchekhov, Anton Tchekhov. Era um escritor de grande nomeada, mas para o caso isso pouco importa, podem ter a certeza de que ele não pretendeu deixar-nos uma frase célebre ao morrer. [...]
A única importância que a sua reputação tem aqui é ter permitido que essas palavras não se perdessem, como se teriam perdido se fossem proferidas por uma outra pessoa, por um moribundo qualquer. ...Também importa ainda outra coisa. Tchekhov, como sabem, era médico... E no último momento, tendo junto do leito sua mulher de um lado e do outro um médico alemão, endireitou-se, sentou-se e disse, não em russo, não na sua própria língua, mas na língua do outro, a língua alemã, disse em voz alta e articulando bem «Ich sterbe». E voltou a cair para trás, morto."

O Uso das Palavras

de Nathalie Sarraute

Propriedade Descrição
ISBN: 9789722901819
Editor: Difel
Data de Lançamento: abril de 1987
Idioma: Português
Dimensões: 188 x 119 x 15 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 116
Tipo de produto: Livro
Coleção: Pequenos Textos de Grandes Autores
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 9789722901819
Idade Mínima Recomendada: Não aplicável

SOBRE O AUTOR

Nathalie Sarraute

Nathalie Sarraute, de seu nome verdadeiro Natalyia Tcherniak, nasceu em Ivanovo (perto de Moscovo), na Rússia, a 18 de julho de 1900, numa família letrada da burguesia judia. Após o divórcio dos pais, a mãe leva-a para Paris, onde frequenta a primária. Irá partilhar a infância entre Paris e São Petersburgo. Tem uma educação cosmopolita, estuda inglês e história em Oxford, sociologia em Berlim e finalmente direito em Paris. Em1925, casa com Raymond Sarraute, colega de faculdade. Exerce a profissão de advogada até ser afastada dos tribunais em 1941, pelas leis nazis. Em 1932, escreveu o seu primeiro livro, a recolha de curtas narrativas que intitulou Tropismes, obra que veio a ser muito elogiada por Max Jacob e Jean-Paul Sartre, aquando da sua publicação, em 1939. Será Sartre quem, em 1947, irá prefaciar o seu Portrait d'un inconnu, lançando com ele a tese do "anti-romance". Mas é com a publicação de Martereau em 1953 que começa o seu reconhecimento, associado à prestigiosa Gallimard que será sempre a sua editora. Em 1956, publica o ensaio A Era da Suspeita, texto fundamental na renovação que veio a ser operada no romance. E continua a publicar obras como Planétarium (1959), Entre la vie et la mort (1968), Vous les entendez (1972), Disent les imbéciles (1976), L'Usage de la parole (1980), Enfance (1983), Tu ne t'aimes pas (1989), Ici (1995), Ouvrez (1997). Em 1963, foi-lhe atribuído o Prix international de littérature pelo romance Les Fruits d'Or. E é neste ano, por insistência de uma rádio alemã, a Süddeutscher Rundfunk, que, Sarraute inicia a sua obra teatral com Le Silence. A que se segue Le Mensonge (1966), As duas peças inauguram, em 1967, o Petit Odéon, com direção de Jean-Louis Barrault. Seguem-se Isma em 1970, C'est beau em 1975, Elle est là em 1980, e finalmente Pour un oui ou pour un non, em 1986.
Morreu aos 99 anos quando escrevia um novo texto para teatro. Sobre o seu teatro, disse Nathalie Sarrraute: "As personagens começaram a dizer coisas que normalmente não são ditas. O diálogo deixou a superfície, desceu e instalou-se no patamar dos movimentos interiores que são a substância dos meus romances, instalou-se no pré-diálogo. Mas é preciso que a sensação, o que se sente, sejam imediatos, trazidos por palavras comuns. Creio que para os espectadores a quem me dirijo, este contraste entre o fundo insólito e a forma costumeira dá a estes movimentos, tantas vezes escondidos, um carácter mais dramático, mais violento. E também um efeito cómico, de humor. (...) Nas minhas peças, não há ação, ela foi substituída pelo fluxo e refluxo das palavras.

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