Natureza Urbana

de Joana Bértholo
Editor: Relógio D'Água, abril de 2023 ‧
«Eu era uma pessoa simples urbana, uma planta que insistiu em crescer entre os paralelepípedos do passeio, na rua mais concorrida da metrópole, cujo destino é conhecer a sola dos sapatos de milhares de turistas e transeuntes e respirar violentas concentrações de dióxido de carbono. Eu sabia chamar um táxi, mas não o rebanho; sabia levar uma muda de roupa à lavandaria self-service e trazê-la limpa, mas não sabia levar um cântaro à teta da vaca e trazê-lo cheio. Não sabia atear fogo, construir um abrigo, nem situar-me olhando as estrelas. Não conhecia o significado dos ventos nem descodificava as nuvens, quando antecipam temporal. Os elementos do mundo em meu redor que eu considerava naturais eram indecifráveis.»
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As sugestões de leituras de verão de Joana Bértholo

Hoje é o primeiro dia de verão deste ano, e queremos entrar na época estival com livros que nos entrem alma adentro. Convidamos, para nos ajudar na escolha, a escritora e dramaturga Joana Bértholo. A autora, premiada com o Prémio Literário Fundação Eça de Queiroz/F. M. BCP 2023 pelo seu A História de Roma, acaba de lançar mais um livro: Augusta B. ou As Jovens Instruídas 80 Anos Depois.
Partindo de um desafio que lhe fora lançado pelo Festival Correntes d’Escritas para escrever sobre a Póvoa de Agustina Bessa-Luís, Bértholo escreveu um texto que extrapolou o repto inicial e «uma espécie de extensão e vida própria». O ponto de partida foi o episódio, verdadeiro, e ocorrido há 80 anos, em que Agustina publicou um anúncio no jornal à procura de correspondência «inteligente e culta» e que obteve cerca de 30 respostas – entre as quais a do que viria a ser o seu marido e pai da filha de ambos. Pegando nessa história, Bértholo criou toda uma narrativa que faz a ponte para o presente, protagonizada por duas amigas de 22 anos, alter-egos criados pela autora para transmitir o que sentiu quando, ela própria, publicou o anúncio de Agustina nos jornais e aplicações de encontros atuais. Terá sido rejeitada? Leiam o livro e descubram. Depois, leiam também os que Joana Bértholo recomenda, e tenham um fantástico verão! Sobre o Céu (The Overstory) Vencedor do Pulitzer de Ficção, em 2019, este livro reúne nove retratos de personagens cujas vidas ficarão entrelaçadas pela chegada de uma catástrofe natural. Não tendo relação entre si, todas têm uma relação determinante com uma árvore ou com a floresta. A palavra overstory, em inglês, refere-se justamente ao conjunto das copas das árvores, a parte mais alta da floresta, crucial para os ecossistemas florestais. É um título difícil de traduzir, mas que apresenta logo as protagonistas deste romance e situa o leitor imediatamente antes do céu, ou sobre o céu. É essa perspetiva sobre a vida terrena que este livro nos devolve; e a perceção de um planeta que, por vezes, temos dificuldade em ver como um todo, um organismo vivo, profundamente interligado. QUERO LER!







  Caruncho Este é o primeiro romance da escritora madrilena Layla Martínez. Um texto voraz e visceral, para se ler de assentada, que produzirá efeitos bem para lá da contracapa. Transporta-nos para um ambiente rural dominado por aventesmas, vozes e sombras, superstições e bruxedos. Uma casa é o elemento agregador das histórias de uma avó e da sua neta, que retorna depois de ter sido acusada de um crime. Trata-se de um testemunho duro da forma como o rancor e o ódio calcificam, geração após geração, até se tornarem tão densos quanto as paredes de uma casa. Tem lugar no interior profundo que cada país tenta esquecer, espacial e temporalmente; neste caso, a Espanha rural, mas também a Espanha Franquista, das denúncias, das valas comuns, dos milhares de desaparecidos. Um espectro coletivo que nos relembra dos efeitos duradouros das ditaduras, da sua herança silenciosa e corrosiva. QUERO LER! Os clássicos As férias são ideais para pôr a leitura dos clássicos em dia. O cânone ocidental está relativamente bem mapeado e estabilizado, a lista é grande mas não é infinita, e qualquer um dos títulos nela incluída carrega o selo da sua intemporalidade: desde os clássicos gregos às sagas da alma russa, passando pelo confronto entre um marinheiro e uma baleia branca, até aos labirintos que deram origem ao adjetivo “kafkiano”, ou a memória enquanto monumento de Proust, há muito por onde escolher e qualquer escolha é segura. Qualquer título que denominemos de “clássico” dialogará com a nossa cultura, e a sua leitura será útil para entendermos tudo o que lemos, vemos, e até pensamos. QUERO LER!

Natureza Urbana

de Joana Bértholo

Propriedade Descrição
ISBN: 9789897833403
Editor: Relógio D'Água
Data de Lançamento: abril de 2023
Idioma: Português
Dimensões: 111 x 159 x 4 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 64
Tipo de produto: Livro
Coleção: Contos Singulares
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Contos
EAN: 9789897833403

O NATURAL CATIVO

LUÍSA COSTA MACEDO

Um pequeno livro com muita coisa para dizer. A humanidade como parte de um todo natural, a subsistência no ambiente urbano e como a natureza está presente em tudo, mesmo na aparente frieza das fundações metálicas das construções das grandes cidades. Joana Bértholo leva-nos pelo olhar e pelos passos de uma mulher solitária a quem nunca foi dado o devido valor ou oportunidade. O caminho de descoberta de uma outra vida e de um outro caminhar surge possibilitado pela observação da natureza e pelo conhecimento através dos livros e da leitura, mas o tempo da personagem é outro, diferente da voragem consumista, atento aos sinais das árvores tão vivas que se movem a seus olhos numa linguagem simbiótica. Um conto que nos fala também de desigualdades sociais, de incompreensão, da não pertença, do desfasamento do homem/mulher natural face à violência da vida moderna, de uma necessidade de contemplação, da alegria da descoberta do saber, de lugares de liberdade como bibliotecas ou parques e de lugares de cativeiro como prisões ou matadouros. Texto Luísa Costa Macedo “A cidade, no fundo, era apenas o campo reordenado de uma maneira que nos parecia humana, ou artificial, mas não deixava de ser essencialmente natural…”

Surpreendente

Laura

Um livro tão pequeno com uma história tão grande. Mais uma vez, acabei surpreendida (e rendida) à escrita de Joana Bértholo.

Pequeno mas gigante em conteúdo

Susana Fernandes

Li e reli este livro duas vezes num fim de semana porque amei a escrita, a história e todos os pormenores. Este pequeno livro de 60 páginas levou o meu coração para sítios obscuros e por demais escondidos . Brilhante e fiquei fã da autora.

Viver ou Sobreviver

Monique M.

Mais um texto de Joana Bértholo que parece diferente de tudo o que já lemos desta escritora. Mas é sempre bom. Mesmo quando se encontra em poucas páginas. O registo de uma mulher que só depois da morte da mãe começa a adultecer.

SOBRE O AUTOR

Joana Bértholo

Escritora e dramaturga, nasceu em Lisboa, em 1982. Licenciada em Design de Comunicação na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e Doutorada em Estudos Culturais pela European University Viadrina, na Alemanha. Publicou na Editorial Caminho vários romances, livros de contos e literatura infantil. «Ecologia», o seu último romance, foi semifinalista do Prémio Oceanos 2019, finalista do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, finalista do Grande Prémio de Literatura DST e nomeado para o Grande Prémio Adamastor de Literatura Fantástica Portuguesa 2019. O «Museu do Pensamento» recebeu o prémio de melhor livro infantojuvenil da Sociedade Portuguesa de Autores 2018 e do Prémio Literário de Fátima na mesma categoria. Recebeu diversos outros prémios: Prémio Jovens Criadores 2005; Menção Honrosa no Prémio Nacional de Literatura Juvenil Ferreira de Castro (1998); Melhor Argumento para BD (SOSracismo e editora Baleiazul, 1999); Prémio Escrevendo a Partir da Pintura (Fundação Calouste Gulbenkian, 2000); Melhor Ensaio O Movimento Olímpico (Comité Olímpico Português, 2000); Prémio Jovens Criadores – Literatura (Clube Português de Artes e Ideias, 2005); Menção Honrosa no Prémio UP-Utopia (Universidade de Letras do Porto, 2005); 1.º lugar no Concurso Literário Persona (2006). E finalmente o Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho (CMLoures, 2009) para o seu primeiro romance «Diálogos para o Fim do Mundo» (editorial Caminho, 2010).

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