As sugestões de leituras de verão de Joana Bértholo

20 de junho de 2024
Hoje é o primeiro dia de verão deste ano, e queremos entrar na época estival com livros que nos entrem alma adentro. Convidamos, para nos ajudar na escolha, a escritora e dramaturga Joana Bértholo. A autora, premiada com o Prémio Literário Fundação Eça de Queiroz/F. M. BCP 2023 pelo seu A História de Roma, acaba de lançar mais um livro: Augusta B. ou As Jovens Instruídas 80 Anos Depois.
Partindo de um desafio que lhe fora lançado pelo Festival Correntes d’Escritas para escrever sobre a Póvoa de Agustina Bessa-Luís, Bértholo escreveu um texto que extrapolou o repto inicial e «uma espécie de extensão e vida própria». O ponto de partida foi o episódio, verdadeiro, e ocorrido há 80 anos, em que Agustina publicou um anúncio no jornal à procura de correspondência «inteligente e culta» e que obteve cerca de 30 respostas – entre as quais a do que viria a ser o seu marido e pai da filha de ambos. Pegando nessa história, Bértholo criou toda uma narrativa que faz a ponte para o presente, protagonizada por duas amigas de 22 anos, alter-egos criados pela autora para transmitir o que sentiu quando, ela própria, publicou o anúncio de Agustina nos jornais e aplicações de encontros atuais. Terá sido rejeitada? Leiam o livro e descubram. Depois, leiam também os que Joana Bértholo recomenda, e tenham um fantástico verão!
Sobre o Céu (The Overstory)
Vencedor do Pulitzer de Ficção, em 2019, este livro reúne nove retratos de personagens cujas vidas ficarão entrelaçadas pela chegada de uma catástrofe natural. Não tendo relação entre si, todas têm uma relação determinante com uma árvore ou com a floresta. A palavra overstory, em inglês, refere-se justamente ao conjunto das copas das árvores, a parte mais alta da floresta, crucial para os ecossistemas florestais. É um título difícil de traduzir, mas que apresenta logo as protagonistas deste romance e situa o leitor imediatamente antes do céu, ou sobre o céu. É essa perspetiva sobre a vida terrena que este livro nos devolve; e a perceção de um planeta que, por vezes, temos dificuldade em ver como um todo, um organismo vivo, profundamente interligado.
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Caruncho
Este é o primeiro romance da escritora madrilena Layla Martínez. Um texto voraz e visceral, para se ler de assentada, que produzirá efeitos bem para lá da contracapa. Transporta-nos para um ambiente rural dominado por aventesmas, vozes e sombras, superstições e bruxedos. Uma casa é o elemento agregador das histórias de uma avó e da sua neta, que retorna depois de ter sido acusada de um crime. Trata-se de um testemunho duro da forma como o rancor e o ódio calcificam, geração após geração, até se tornarem tão densos quanto as paredes de uma casa. Tem lugar no interior profundo que cada país tenta esquecer, espacial e temporalmente; neste caso, a Espanha rural, mas também a Espanha Franquista, das denúncias, das valas comuns, dos milhares de desaparecidos. Um espectro coletivo que nos relembra dos efeitos duradouros das ditaduras, da sua herança silenciosa e corrosiva.
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Os clássicos
As férias são ideais para pôr a leitura dos clássicos em dia. O cânone ocidental está relativamente bem mapeado e estabilizado, a lista é grande mas não é infinita, e qualquer um dos títulos nela incluída carrega o selo da sua intemporalidade: desde os clássicos gregos às sagas da alma russa, passando pelo confronto entre um marinheiro e uma baleia branca, até aos labirintos que deram origem ao adjetivo “kafkiano”, ou a memória enquanto monumento de Proust, há muito por onde escolher e qualquer escolha é segura. Qualquer título que denominemos de “clássico” dialogará com a nossa cultura, e a sua leitura será útil para entendermos tudo o que lemos, vemos, e até pensamos.
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