Memória de Elefante
SINOPSE
O primeiro livro de um autor que ao longo dos anos se impôs como um nome cimeiro na literatura portuguesa.
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As curiosidades que lhe faltava saber sobre alguns dos maiores autores portugueses
Por ocasião do Dia do Autor Português, que se celebra a 22 de maio, revelamos curiosidades surpreendentes das vidas e obras de grandes autores nacionais – da pintura à música, da literatura ao cinema –, acompanhadas por boas sugestões de leitura, música e até visitas que despertam os sentidos.
Júlio Pomar – O pintor que também era poeta
Pomar não se limitava a pintar — escrevia poesia (lançou dois livros de poemas), fazia escultura e adorava banda desenhada. Defendia que um artista devia ter o direito de mudar de ideias, de estilo e de ferramenta. Pintou políticos, animais, fábulas e até Fernando Pessoa. Tinha humor, espírito crítico e uma obsessão por liberdade criativa.
🎨 Sugestão: Leia Prima Contradição, um livro de poemas que reúne os versos que o artista deixo por publicar e destinados à sua terceira obra poética, e depois visite o Cinema Batalha, no Porto, com os murais modernistas do pintor recuperados 75 anos após terem sido censurados e cobertos de pinta pela PIDE. Leve tempo e um olhar curioso — vai encontrar palavras escondidas entre pinceladas.
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Manoel de Oliveira – O cineasta eterno
Realizou filmes durante nove décadas, e manteve-se activo quase até ao final da sua vida, aos 106 anos – quando nasceu, em 1908, Portugal era ainda um reino! Do seu primeiro filme em 1931 (Douro, Faina Fluvial), ao último, em 2014 – a curta metragem O Velho do Restelo, deixou um legado único e duradouro. Adorava participar em corridas de automóveis, usava sempre fato e gravata e dizia que «a pressa é inimiga do cinema».
🎬 Sugestão: Veja O Gebo e a Sombra — depois respire fundo e aceite que a obra do cineasta tem como marca um tempo próprio, como pode perceber melhor no livro A Morte Não é Prioritária.
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Trailer de O Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira
António Lobo Antunes – O médico das palavras
Psiquiatra de profissão, Lobo Antunes foi mobilizado para a Guerra Colonial em Angola, nos anos 70, uma experiência que moldou toda a sua visão do mundo e vários dos seus romances. Tinha o hábito invulgar de escrever cartas aos leitores, numa crónica regular na Visão — quase como confissões escritas à mão e deixadas numa caixa de correio imaginária.
📘Sugestão de leitura: Memória de Elefante e Os Cus de Judas, os seus primeiro livros, marcadamente autobiográficos e muito ligados ao contexto da guerra colonial, que o consagraram como um dos autores contemporâneos mais lidos e discutidos dentro e fora de Portugal.
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Fausto – o navegador da música portuguesa
Fausto Bordalo Dias é um dos grandes alquimistas da música portuguesa. Compositor exigente com uma voz melodiosa, dedicou a vida a fundir a música popular, os sons do mundo e a História de Portugal. Foi um dos primeiros músicos portugueses a cruzar as sonoridades tradicionais com a música progressiva e elementos da cultura lusófona. Muitas das suas obras são verdadeiras epopeias cantadas — como se fossem romances em forma de álbum.
⛵🎵Sugestão: Ouça Por Este Rio Acima, uma verdadeira obra literária musicada, enquanto lê Peregrinação de de Fernão Mendes Pinto.
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Sérgio Godinho — músico, escritor e contador de histórias
É uma das vozes mais marcantes da música portuguesa. Viveu no exílio durante o Estado Novo, o que marcou a sua obra com temas de luta e liberdade. Godinho é também escritor, com livros de poesia, crónicas e romances, onde mantém o seu tom irónico e íntimo. E nunca perdeu aquele seu “brilhozinho nos olhos”.
🎸 Sugestão de leitura: 75 Canções – Partituras, Letras, Cifras, a celebração de uma carreira cheia de boas músicas para tocar ou apenas cantar.
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Almada Negreiros – O dandy modernista
Poucos saberão, mas Almada Negreiros nasceu em S. Tomé e Príncipe. Já em Lisboa, começou a destacar-se ainda adolescente pelos seus dotes para o desenho e para a escrita. Almada escrevia, fazia teatro, pintava murais, fazia vitrais, e dizia ter nascido com o dom de escandalizar, com fez ao protagonizar a Conferência Futurista, onde apareceu de monóculo e casaca, desafiando os costumes da época. Até coreografou e participou em vários bailados!
🎭Sugestão: Veja o painel que o artista pintou na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa, e leia Ficções, que reúe todas as ficções almadianas conhecidas até à data, para além do romance Nome de Guerra, para um mergulho na energia única e modernista deste criador.
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Fernando Pessoa – O homem que era muitos
Apesar de e pouco ter viajado, Pessoa era um cidadão do mundo nas ideias e no espírito. Falava fluentemente inglês, francês e alemão, e lia autores de todos os continentes, o que lhe deu uma visão global muito rara para a época. Não só criou dezenas de heterónimos, como fazia horóscopos para eles, já que era fascinado por astrologia. Descreveu Ricardo Reis como médico e poeta melancólico, e Álvaro de Campos como engenheiro naval fanfarrão e futurista.
✏️Sugestão de leitura: Prosa – Antologia Mínima, o essencial da prosa de Fernando Pessoa (ortónimo e heterónimo, ideal para ler com um copo de vinho tinto e música clássica em fundo.
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António Lobo Antunes
Falar de António Lobo Antunes é tentar descrever alguém que escapa a explicações simples. Na literatura portuguesa contemporânea, poucas vozes são tão únicas, tão imediatamente reconhecíveis como a sua. Não escrevia por mero gosto, mas por uma “estranha força interior” que o impelia, quase como uma urgência vital.
Cresceu num ambiente familiar e intelectual que estimulou desde cedo a sua sensibilidade literária. Ainda assim, seguiu o caminho da família e ingressou em Medicina na Universidade de Lisboa, especializando se mais tarde em Psiquiatria, uma escolha que acabaria por marcar profundamente o escritor que viria a ser. No contacto diário com as fragilidades humanas, com aqueles que muitas vezes são ostracizados e apelidados de "malucos", encontrou histórias que o espantaram, o emocionaram e lhe deram, dizia ele, a melhor lição de teoria da literatura que poderia ter recebido.
Em plena Guerra Colonial, António Lobo Antunes foi mobilizado como médico militar para Angola. A violência, a morte e o sofrimento que testemunhou deixaram marcas profundas e tornaram se um dos alicerces da sua escrita. A guerra, nas suas obras, aparece como uma ferida portuguesa ainda por sarar, um trauma que atravessa gerações: o regresso difícil, a reintegração falhada e a perda de rumo. São temas que se repetem, não por insistência, mas porque continuam a doer.
A sua estreia literária, em 1979, com Memória de Elefante, já revelava a recusa firme das narrativas tradicionais. No mesmo ano, Os Cus de Judas afirmou o como uma das vozes mais marcantes da literatura portuguesa, expondo a experiência da guerra num discurso contínuo, visceral, por vezes quase alucinado. Com Conhecimento do Inferno, encerra um primeiro ciclo profundamente autobiográfico, mas já apontado para algo mais vasto: a exploração radical da condição humana.
Nos seus livros, o leitor é acolhido num fluxo de consciência onde passado e presente se confundem, onde as histórias surgem devagar, conduzidas por memórias, associações e imagens que nos atingem de forma íntima. A sua escrita exige atenção, entrega, e convida-nos a participar na construção do sentido. Não é uma leitura fácil, mas é uma travessia que recompensa profundamente quem se permite entrar nela.
Em Fado Alexandrino, um grupo de antigos combatentes reencontra-se muitos anos após a guerra, confrontando memórias que tentaram esquecer. Já em O Manual dos Inquisidores, Lobo Antunes desmonta, com lucidez dolorosa, as estruturas de poder e a hipocrisia social que marcaram a transição política portuguesa. São livros que procuram compreender as fraturas históricas que moldaram o país que somos hoje.
Em Portugal, foi distinguido com vários prémios, entre os quais se destaca o Prémio Camões, em 2007. A nível internacional, recebeu o Prémio Ovidio (2003) e o Prémio Europeu de Literatura (2001), sendo recorrentemente apontado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura.
A sua obra atravessou fronteiras: foi traduzido, estudado e reconhecido internacionalmente. No entanto, para ele, escrever nunca foi um destino glorioso, mas um trabalho duro, rigoroso, de permanente construção e reconstrução. Na sua última entrevista, disse com a franqueza que o caracterizava: «Escrever é uma coisa muito difícil e fico sempre espantado por haver tanta gente a fazer livros.»
Numa voz mais próxima e despojada do que aquela que encontramos nos seus romances, António Lobo Antunes abre-nos a porta para um universo vasto de temas nas suas crónicas que o tornaram um nome constante na imprensa ao longo de muitos anos e o aproximaram de leitores que, talvez, se sentiam demasiado intimidados pela restante obra.
As memórias de infância, a família que o moldou, as mulheres que passaram pela sua vida, os amigos, os amores e os desamores, a vida que pulsa e a morte que inquieta. Entrelaça tudo isto com encontros fortuitos com desconhecidos, pequenas histórias de viagem, descobertas em restaurantes de bairro e, como seria inevitável, reflexões sobre a escrita e os livros; sem dúvida oferecem um retrato mais amplo e humano da versatilidade e do talento de Lobo Antunes.
Hoje, ocupa um lugar incontornável na literatura portuguesa não só pela vastidão da sua obra, mas pela forma como expandiu os limites do romance e da linguagem. Foi um verdadeiro explorador da experiência humana, alguém que transformou a memória num território literário onde identidade, história e emoção se cruzam.
Ler António Lobo Antunes é aceitar entrar num espaço onde tudo é mais exigente, mas também mais verdadeiro. Onde há momentos de humor inesperado e outros em que a dor da vida se sente com toda a força. E não é isso a grande Literatura?
Este artigo foi originalmente publicado na revista Wookacontece de abril de 2026.
DETALHES
| Propriedade | Descrição |
|---|---|
| ISBN: | 9789722052542 |
| Editor: | Dom Quixote |
| Data de Lançamento: | julho de 2013 |
| Idioma: | Português |
| Dimensões: | 156 x 232 x 9 mm |
| Encadernação: | Capa mole |
| Páginas: | 160 |
| Tipo de produto: | Livro |
| Classificação Temática: |
Livros em Português
>
Literatura
>
Romance
|
| EAN: | 9789722052542 |
OPINIÃO DOS LEITORES
Muito bom
Sérgio
Um livro extremamente autobiográfico, relata um tempo, um outro Portugal, um desenrolar de pensamentos e reflexões, de observações do que rodeia e inquieta o narrador. Uma escrita crua mas acessível, reporta-nos às memórias de um dia na vida de um psiquiatra
O melhor livro do autor
Bernardo Gonçalves de Faria
Primeiro livro escrito por António Lobo Antunes. E curiosamente, o que mais gostei de todos. Uma escrita diferente dos trabalhos mais recentes. Mas já com o constante uso do adjetivo, da caraterização específica de qualquer coisa que apareça à frente do personagem e o faz lembrar um episódio, ou uma pessoa. Um dia na vida de um médico psiquiatra. Melhor seria impossível de o fazer.
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