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Eu?

de Peter Flamm
Livro eBook
Editor: Livros do Brasil, fevereiro de 2025 ‧
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... a guerra fez de mim uma besta risível...

Hans, um reputado cirurgião, regressa a casa, vindo dos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial. A mulher, a mãe, os amigos e colegas de profissão acolhem-no de braços abertos e tratam-no com a esperada familiaridade. Mas ele sente-se outro e a verdade é que o cão lhe ladra como a um estranho. Será aquela realmente a sua casa, aquelas as suas gentes, aquele o seu corpo? Poderá ele ser culpado pelos atos cometidos por alguém que não é ele? Assombroso monólogo sobre a existência, este pequeno romance de Peter Flamm deixa no ar uma grande interrogação: posso continuar a considerar-me eu se as experiências vividas me transformaram? Publicado originalmente na Alemanha em 1926 e durante quase um século por reeditar, Eu? é uma pérola literária da prosa expressionista que chega agora a Portugal com tradução de Sara Seruya.
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Pequenas Bombas Emocionais

Os livros não se medem aos palmos. Alguns parecem discretos, ocupam apenas algumas centenas de páginas e, ainda assim, conseguem instalar-se dentro de nós com uma intensidade difícil de explicar. Não desperdiçam palavras, preferem o silêncio ao excesso e encontram na contenção uma força emocional rara. Os cinco livros desta lista partilham essa capacidade de concentrar mundos inteiros em narrativas breves. Entre relações falhadas, memórias dolorosas, amores suspensos e personagens incapazes de se sentirem totalmente pertencentes ao mundo, todos deixam uma marca persistente. Pequenas bombas emocionais feitas de papel que continuam a explodir muito depois da última página. Eu?, de Peter Flamm Começar Eu?, de Peter Flamm, é entrar num território de desconforto moral. Publicado em 1926, o romance acompanha Hans, um médico que regressa da Primeira Guerra Mundial profundamente transformado pela experiência da frente de batalha. Aquilo que encontra no seu retorno não é apenas um mundo incapaz de compreender o horror da guerra, mas também uma estranha sensação de alienação em relação a si próprio e aos outros. Apercebemo-nos desde as primeiras páginas de que qualquer coisa se perdeu naquele homem. O próprio título funciona como uma interrogação identitária e a narrativa gira em torno dessa fissura. Flamm escreve de forma seca, quase clínica, o que torna tudo ainda mais perturbador. Não há sentimentalismo nem dramatização excessiva, e a violência emocional nasce dessa contenção. O protagonista move-se pelas ruas, pelas conversas e pelas relações com os outros como alguém que trouxe consigo uma experiência impossível de partilhar. Talvez seja isso que torna o livro tão atual. Mais do que um romance sobre a guerra, é um retrato da dificuldade de regressar ao mundo depois de se ter visto demasiado. COMPRO NA WOOK! » Um Chapéu de Leopardo, de Anne Serre Enquanto Peter Flamm trabalha a fragmentação interior através de uma escrita austera, Anne Serre, em Um Chapéu de Leopardo, prefere o território da estranheza e da sugestão. Este é um daqueles livros difíceis de resumir porque o essencial acontece nas entrelinhas. A história centra-se na relação entre o narrador e Fanny, uma mulher instável e enigmática, marcada por desaparecimentos repentinos e mudanças bruscas de humor. A autora francesa começou a escrever o romance após o suicídio da irmã e, talvez por isso, exista nele uma delicadeza percorrida por uma inquietação subtil. Muitas vezes, sentimos que estamos prestes a compreender aquelas personagens para, no momento seguinte, elas voltarem a escapar-nos. Essa ambiguidade acaba por ser uma das grandes forças do livro. Em vez de oferecer respostas claras, Serre cria atmosferas. E algumas dessas atmosferas ficam coladas à nossa pele durante semanas. COMPRO NA WOOK! » A Trégua, de Mario Benedetti Essa sensação de suspensão aparece também em A Trégua, de Mario Benedetti, embora num registo diferente. O romance é construído sob a forma de diário e acompanha Martín Santomé, um homem obcecado com a proximidade da reforma e preso a uma rotina sem grandes expectativas. Tudo muda quando conhece Laura, uma colega mais nova por quem acaba por se apaixonar. Aquilo que poderia transformar-se num romance sentimental torna-se, nas mãos de Benedetti, uma reflexão devastadora sobre a solidão e a possibilidade tardia da felicidade. O autor uruguaio dominava como poucos a arte da simplicidade. Não encontramos aqui frases exuberantes nem grandes demonstrações emocionais. É o tom comedido e desencantado do narrador que torna o livro tão humano. Santomé escreve como alguém que já desistiu de esperar demasiado da vida e, talvez por isso, os pequenos momentos de alegria tenham tanto impacto. Percebemos desde cedo que a felicidade do protagonista é frágil, temporária, talvez impossível de sustentar. Ainda assim, continuamos a avançar pelas páginas como quem tenta prolongar um instante antes do inevitável. COMPRO NA WOOK! » Terra de Neve, de Yasunari Kawabata Em Terra de Neve, Yasunari Kawabata leva essa ideia de fragilidade emocional até um extremo quase hipnótico. O romance começa com uma das aberturas mais célebres da literatura japonesa do século XX, quando um comboio atravessa um túnel e entra numa paisagem coberta de neve. A partir daí, acompanhamos a relação entre Shimamura, um homem rico e ocioso vindo de Tóquio, e Komako, uma gueixa de uma região termal isolada. Mais do que uma história de amor, Terra de Neve é um romance sobre distância. Distância entre pessoas, entre desejos, entre aquilo que sentimos e aquilo que conseguimos realmente viver. Kawabata descreve tudo com uma precisão visual impressionante. Cada gesto, cada silêncio e cada detalhe da paisagem parecem carregados de significado emocional. A neve, o frio e a quietude do cenário funcionam como extensões do estado interior das personagens. Existe uma enorme beleza no romance, mas é uma beleza melancólica, sempre consciente da impermanência das coisas. Tudo acontece de forma ténue, quase silenciosa, e talvez seja isso que torna o impacto final tão forte. COMPRO NA WOOK! » Património, de Philip Roth Depois da contenção elegante de Kawabata, entrar em Património, de Philip Roth, é confrontar uma intimidade muito mais direta. Neste memoir autobiográfico, o escritor relata a doença e o declínio físico do pai. O tema poderia facilmente cair no sentimentalismo, mas acontece o contrário. A relação entre ambos é descrita com brutal honestidade, incluindo momentos de irritação, impaciência, humor e ternura. Ao longo do livro, acompanhamos consultas médicas, conversas familiares, pequenos gestos quotidianos e o desgaste inevitável provocado pela doença. No entanto, aquilo que torna Património tão poderoso é a forma como detalhes aparentemente banais se transformam em matéria emocional universal. O medo de perder os pais, a culpa associada ao envelhecimento e a sensação de impotência perante a fragilidade do corpo atravessam o livro sem nunca parecerem artificiais. Há também qualquer coisa de corajoso nesta forma de escrever. Ao contrário de muitos livros sobre o luto, Património não tenta embelezar a dor nem procurar grandes lições reconfortantes. Não obstante toda a dor provocada por esta experiência, Roth mantém-se firme, limitando-se a observar, recordar e escrever com uma honestidade quase desconfortável. COMPRO NA WOOK! »

Eu?

de Peter Flamm

Propriedade Descrição
ISBN: 978-989-711-266-9
Editor: Livros do Brasil
Data de Lançamento: fevereiro de 2025
Idioma: Português
Dimensões: 152 x 235 x 15 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 152
Tipo de produto: Livro
Coleção: Dois Mundos
Classificação Temática: Livros em Português > Literatura > Romance
EAN: 978989711266910
Idade Mínima Recomendada: Não aplicável

Introspectivo

Nuno

Emocionante e intenso. As imensas questoes o ser individual e crescimento. É uma obra para ler com atenção e sentir!

Assombroso monólogo

Marilia Correia de Barros

Quando se passa por uma dolorosa experiência na vida, ao olhar para trás, tal como Hans, não se sai desse trauma a mesma pessoa. Hans, personagem principal, ao regressar a casa depois da Primeira Guerra Mundial, não se sente o mesmo que era. Como poderia? Viu milhares de amigos serem mortos, matou também muitos. É assim a guerra matar alguém que não se conhece, ser morto ou ferido por alguém que não conhecemos só porque os políticos nos enfiaram nas trincheiras e nos mandaram matar "inimigos" desconhecidos. Não se pode deixar de ser um outro depois de se ter vivenciado experiências terríveis.

Um livro de primeira linha. De génio!

TeresaC

Um homem, médico cirurgião regressado a casa após o final da Primeira Grande Guerra, enfrenta o seu próprio Eu na redescoberta do seu espaço, na procura de encaixe num lugar que já foi seu, no reencontro com pessoas que deixou ao partir. Mas e quem terá efetivamente deixado? Quem é este homem que agora regressa? Para quem realmente volta? Publicado pela primeira vez em 1926, não me passou de forma alguma a sensação de estar perante um livro com quase 100 anos. A escrita é uma lufada de ar fresco e muito diferente daquilo que eu esperava encontrar num clássico, com um ritmo de escrita frenético, diria até que de urgência. Seguindo constantemente o pensamento do protagonista senti-me posta num lugar de desconforto pela exposição a uma ansiedade contínua, protagonista cujas dúvidas eram as minhas e sobre as quais esperava que me desse resposta. É todo um livro a vaguear pela cabeça de um homem perdido entre vidas e memórias, procurando desbravar um caminho que nem sempre sente como seu. A história não é plenamente clara nem objectiva. De inclinação surrealista, requer a análise de cada leitor e é na dificuldade dessa busca por uma verdade que será com certeza diferente para cada um de nós, que reside a beleza deste livro. Há já algum tempo que um livro não tinha este efeito encantatório em mim, porque uma coisa é gostar muito de um livro outra é terminá-lo em completa - radiosa - apaixonada euforia.

SOBRE O AUTOR

Peter Flamm

Peter Flamm (pseudónimo de Erich Mosse) nasceu em Berlim em 1891 e começou a publicar artigos e contos na imprensa quando era ainda aluno de Medicina. O seu romance de estreia, Eu?, lançado em 1926, surpreendeu o meio literário alemão e nos anos que se seguiram Flamm escreveu mais três livros. Judeu, viu-se forçado a deixar a Alemanha em 1933, mudando-se para Paris e depois para Nova Iorque, onde se fixou até à sua morte, em 1963. Distinguiu-se especialmente como psiquiatra e foi médico de figuras como Albert Einstein e Charlie Chaplin.

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