Wook Prize 30% OFF

Campo Pequeno

by João Pedro Vala
Book eBook
Publisher: Quetzal Editores, February of 2024 ‧
17,70€
12,39€
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WINNER OF THE WOOK NEW AUTHORS AWARD
Em Grande Turismo, seu romance de estreia, João Pedro Vala era narrador e personagem principal; agora, em Campo Pequeno, é o demiurgo criador de um universo em que ora participa, de que ora se abstém, mas que manipula a seu bel-prazer.

Em Campo Pequeno, um bebé prestes a nascer, uma freira semiatropelada, um conquistador mongol, uma mulher roxa, um beatboxer amador, um casal sadomasoquista, um caçador ocasional, um cangalheiro que tira cervejas durante os Santos Populares, uma mãe negligenciada, um ator italiano, um jogador de futebol dos campeonatos distritais, um consultor chato como tudo e um cão ajudam Heitor, Laura, Gabriel e Mafalda na procura de um sentido para as suas vidas.

Se em Grande Turismo João Pedro Vala olhava para dentro, à procura de si mesmo, aqui as atenções viram-se para um mundo que procura, sem grande sucesso, invadir.
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Prémio WOOK Novos Autores: celebrar a literatura emergente em língua portuguesa

Além de sermos a maior livraria portuguesa online, gostamos de dar voz e apoiar os escritores que dão vida à nossa língua. Por isso, decidimos criar o Prémio WOOK Novos Autores. Com esta iniciativa, damos um passo crucial na descoberta de talentos literários, destacando escritores que prometem marcar o futuro da literatura de língua portuguesa.
O nosso prémio distingue novos autores que tenham até duas obras de ficção literária editadas em Portugal (1.ª edição), publicadas originalmente em língua portuguesa, até 30 de setembro de 2024. De 80 livros elegíveis, foram selecionadas seis obras finalistas, que primam pela diversidade, criatividade e qualidade da produção literária em língua portuguesa.
O que falta? Para ajudar a apurar o vencedor, convidámos o escritor João Tordo, para presidir ao nosso júri, formado também por dois membros da WOOK. Mas vão ter de esperar um pouco mais para saber quem irá receber o nosso galardão. O vencedor da 1º edição do Prémio WOOK Novos Autores é anunciado na terceira semana de janeiro de 2025. Até lá, tem tempo de conhecer os finalistas e as obras a concurso – vá por nós, vale muito a pena descobrir estas vozes emergentes da literatura em português! Apresentamos agora os finalistas selecionados:

(os finalistas são apresentados por ordem alfabética da primeira letra dos seus sobrenomes) Stênio Gardel, A Palavra que Resta Stênio Gardel é um escritor brasileiro nascido em 1980 no Ceará, onde trabalha no Tribunal Regional Eleitoral e é especialista em Escrita Literária. Enquanto escritor, além de ter em diversas coletâneas de contos, conquistou grande reconhecimento com sua obra de estreia, A Palavra Que Resta (2021). Neste romance, Gardel explora temas como identidade, memória, sexualidade e os desafios enfrentados por um homem analfabeto que relembra uma carta nunca lida, o que marca profundamente a sua vida. Um romance sobre o poder da palavra e da linguagem, sobre repressão, violência e vergonha, mas acima de tudo sobre a coragem de lhes resistir. A narrativa sensível e poética rendeu ao autor as distinções do National Book Award para a melhor obra traduzida, de semifinalista do Prémio Jabuti e finalista do Prémio São Paulo de Literatura. O livro começa assim:

Raimundo
«Raimundo de Freitas, traço incerto, arredio ao toque do papel. Lápis danado, domado, e ele escrevia o nome completo pela primeira vez. Setenta e um aos e essa invenção, como ele diz, de aprender a ler e escrever depois de velho. Raimundo não foi difícil. Complicado era Gaudêncio, denso de saudade, as cinco vogais e acentuado. Freitas era feito de sangue.

Excerto de A Palavra Que Resta, de Stênio Gardel, p. 13 COMPRO NA WOOK! » Marta Hugon, Souvenir Marta Hugon (Lisboa, 1971) tem cinco discos em nome próprio e várias colaborações como cantora e compositora. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, escreve para publicidade, é professora na Escola de Jazz Luiz Vilas Boas e cocriadora do projeto a três vozes «Elas e o Jazz». Depois de se ter estreado na literatura com a publicação do conto «Conceição» na 10.ª edição da revista Granta em Língua Portuguesa, Hugon lançou, em abril deste ano, Souvernir, o seu primeiro livro. Souvenir é uma coletânea de contos habitados por personagens comuns que giram em torno da memória e da intimidade humana. Cada história é como uma peça de um quebra-cabeça emocional, unida por objetos, lugares e músicas que evocam experiências do passado, explorando temas como trauma, redenção e coragem diante das adversidades. A memória é quase palpável, transportando-nos para as vivências das personagens, numa linguagem de sensibilidade poética na forma como aborda o tempo e a nostalgia. O livro começa assim:

Conceição
«A casa tinha uma sala grande, plantas trepando suspensas por invisíveis fios de nylon, competindo com as estantes dos livros que, em colorida desarrumação, circunscreviam o espaço. Enquanto limpava o pó, Conceição ia lendo as lombadas, saltando os títulos em francês e em inglês, que não lhe diziam nada. Os quatro anos de escola, muito trabalho no campo e a fome repartida com os oito irmãos estavam agora longe, mas ainda lhe fazia confusão que as meninas não quisessem mais e deixassem restos de comida nos pratos.»

Excerto de Souvenir, de Marta Hugon, p. 13 COMPRO NA WOOK! » Rita Canas Mendes, Teoria das Catástrofes Elementares Rita Canas Mendes (Lisboa, 1984) é formada em Filosofia e pós-graduada em Edição, tendo trabalhado em diversas editoras. Atualmente, dedica-se à tradução literária e à escrita. Tem várias obras publicadas, do guia prático ao livro infantil, e o seu amor pelos livros está espelhado em O Que Vem a Ser Isto ou Como Publicar o Seu Livro.
Teoria das Catástrofes Elementares, o primeiro romance da autora, decorre entre Lisboa e Cascais nas décadas de 1990 e 2000, e revisita a história recente do país, passando pontualmente pela Guerra Colonial, o norte de Portugal e a Euro Disney. Com humor e ironia, a narrativa percorre episódios que testemunham as vivências das várias gerações de uma família. O seu enredo compõe uma espécie de vitral de memórias, recuperando estilhaços dispersos para construir uma narrativa que liga o passado ao que há de vir. O livro começa assim:

«Durante muitos anos, pensei que «atropelar» quisesse dizer passar por cima, não apenas dar uma pancada, um encontrão. No meu imaginário, um atropelamento significava ser-se passado a ferro por um carro, primeiro as rodas da frente, depois as de trás. Quando a minha mãe foi atropelada, julguei que tivesse ficado esmigalhada por dentro, bolacha de água e sal. Perdeu uns dentes, partiu o nariz, o queixo, um pulso, mas esmigalhada, por sorte, só uma perna, onde ainda mora uma trave metálica que o osso, com o tempo, adotou. Já não a pode tirar, agora. Pirata de ferro, com cicatriz ao longo da canela, apitando para sempre nos aeroportos.»

Excerto de Teoria das Catástrofes Elementares, de Rita Canas Mendes, p. 13 COMPRO NA WOOK! » Henrique Raposo, As Três Mortes de Lucas Andrade Henrique Raposo (Loures, 1979) é escritor e cronista do Expresso e da Renascença. Licenciado em História e mestre em Ciência Política, fez investigação académica, foi editor da revista Atlântico e colaborou com vários jornais nacionais. As Três Mortes de Lucas Andrade é o seu primeiro romance. Nele, acompanha a saga de um jovem que sofre com os códigos masculinos da pobreza, da rua e da fábrica. A história desenrola-se na segunda metade do século XX e retrata o êxodo rural, os choques entre a cidade e a periferia – e entre as classes –, e o surgimento dos subúrbios dos anos 60 e 80. Um retrato poderoso da pobreza, que nos faz questionar se será possível manter a decência quando o caos e o mal prevalecem. O livro começa assim:

Abertura
«A meio do caminho, percebi que Lucas Andrade se matou enquanto se tentava salvar; o caminho que o levou ao suicídio é também o caminho que o conduziu à fé. Esta ambiguidade fascina e confunde ao mesmo tempo. Ainda hoje a tragédia de Lucas Andrade desperta debates acalorados entre diversas tribos: a tribo moralista que vê neste homem um símbolo da vilania egoísta e de vários pecados capitais; a tribo literária que vê nele uma metáfora libertadora, o herói merecedor de todas as comendas; a tribo científica que o reduz à condição de doente mental inimputável, o pobre coitado que não pode ser responsabilizado pelos seus próprios atos. Quem tem razão? Não sei.»

Excerto de As Três Mortes de Lucas Andrade , Henrique Raposo, p. 11 COMPRO NA WOOK! » João Pedro Vala, Campo Pequeno João Pedro Vala (Lisboa, 1990) é doutorado em Teoria da Literatura e licenciado em Gestão. Trabalha como crítico literário, revisor e tradutor. Em 2022 estreou-se no romance com Grande Turismo, seguido agora por Campo Pequeno. Nesta narrativa, Heitor, Laura, Gabriel e Mafalda, procuram um sentido para as suas vidas, ajudados por um caótico conjunto de personagens que inclui: um bebé prestes a nascer, uma freira semiatropelada, um conquistador mongol, um casal sadomasoquista, uma mãe negligenciada, um ator italiano, um jogador de futebol dos campeonatos distritais, um consultor chato como tudo e um cão. Um universo singular criado por João Pedro Vala, que toma múltiplas formas e se desdobra em situações que surpreendem o leitor. O livro começa assim:

«Durante uma semana, o Heitor mal conseguiu pregar olho. Normalmente, o ritual repetia-se: acabado o jantar, metia a loiça na máquina e dava um jeito na cozinha. Só depois, por uma mania que nunca hei-de entender, pegava numa peça de fruta e ia comê-la em frente à televisão. Já a Laura, lia a um canto do sofá e, passado um tempo, bem depois de o Heitor se ter levantado para ir deitar no lixo um pauzinho e dois ou três caroços, começava a pintar a um canto da sala, entre Novembro e Fevereiro, ou a tricotar, encostada a ele, nos meses mais quentes.»

Excerto de Campo Pequeno, de João Pedro Vala, p. 9 COMPRO NA WOOK! » Victor Vidal, Não Há Pássaros Aqui Victor Vidal, nascido no Rio de Janeiro em 1991, é historiador de arte e doutor em Estudos Críticos das Artes. É especializado em arte japonesa, tendo trabalhado no setor educativo de museus e centros culturais. Fez a sua estreia literária com o romance Não Há Pássaros Aqui e venceu, com esta obra, o Prémio Leya 2023.
Neste livro, Vidal debruça-se sobre a relação entre uma mãe e uma filha, explorando como os traumas de infância marcam a vida adulta. Quando a mãe de Ana, a protagonista, desaparece, esta regressa à casa em que passou a sua infância e, aí, vê-se confrontada com as feridas do seu passado, marcado pela violência que a mãe, desequilibrada e alcoólica, lhe infligiu. Perante o insólito da situação, Ana recorre ao seu único amigo de infância, um rapaz frágil que a fazia cúmplice dos seus traumas, e que ela sabe ter desiludido. Cada personagem revela-se na sua complexidade desconcertante, numa reflexão madura. sobre como tendemos a reproduzir os comportamentos que vivemos na infância, por muito que os condenemos. O livro começa assim:

«O telefone tocou insistentemente até eu me convencer a atendê-lo. Num primeiro momento, não reconheci a voz de Célia do outro lado da linha. Fazia muito tempo desde a última vez que nos tínhamos visto ou falado e por pouco não desliguei o aparelho afirmando nunca ter ouvido aquele nome. «Sou a vizinha de sua mãe», disse a mulher, esganiçada, tentando não parecer magoada. Antes que eu conseguisse assimilar essa informação, ela deu início a um falatório apressado e confuso, atropelando as próprias palavras enquanto tentava explicar o motivo do telefonema. Aparentemente, minha mãe havia desaparecido.»

Excerto de Não Há Passáros Aqui, de Victor Vidal COMPRO NA WOOK! »

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«A universalidade encontra-se quando mergulhamos a fundo na interioridade de alguém»

Em vésperas da rentrée literária deste ano, as palavras de João Pedro Vala, vencedor da 1ª edição do Prémio WOOK Novos Autores com Campo Pequeno, têm um sabor especialmente fresco.
Nesta primavera, Vala lançou o Dicionário de Proust – «uma perspectiva ao mesmo tempo unificada e caleidoscópica da vida e obra deste vulto literário que é, também, o seu autor favorito. Com ele, aprendeu que «a universalidade se encontra quando mergulhamos a fundo na interioridade de alguém», e é isso que procura ao escrever.
Além dos grandes clássicos, entre as suas influências mais improváveis estão a maneira, «cómica e violenta», como a sua avó conta histórias e a forma como as pessoas conversam em cafés. Ao explorar a universalidade da literatura e a influência das suas próprias vivências, reflete, a partir de si próprio, sobre a sociedade atual e sobre como gosta de ser surpreendido pelas suas personagens porque, de facto, estas desobedecem-lhe. Para Vala, a literatura é uma forma de fugirmos da vida e, talvez por isso, use o humor «sempre como carro-vassoura, limpando a tragédia».
Esta é a transcrição da entrevista ao autor anteriormente publicada em vídeo aqui.

O que despertou em ti, aos 23 anos, a vontade de escrever?
Comecei a escrever mais por um fascínio pela literatura e por estar à procura de um sítio que fosse meu. Não era uma pulsão por criar, queria pertencer a esse mundo, de alguma forma. Estudar os grandes clássicos inibiu-te, de alguma forma, de te lançares na escrita?
Comecei a estudar literatura pelos grandes – Dante, Homero, Shakespeare e Proust, o meu autor favorito –, percebi que era muito difícil ser escritor, e esse sonho foi adormecendo. Mas quando me apercebi de que a ideia de termos de ser os melhores para fazermos o que nos dá gozo é um pouco absurda, tudo se tornou muito mais fácil. «A universalidade encontra-se quando mergulhamos a fundo na interioridade de alguém.» O que te fascina em Proust?
A devoção inegociável pela coisa que ele mais ama, que é a literatura, o compromisso de uma vida inteira com esse com esse animal misterioso, e a capacidade de, com uma elegância extraordinária, escrever frases que captam na perfeição quem eu sou, e isso é bizarro. Dou por mim, muitas vezes, a repeti-lo nos meus livros. É algo um pouco irritante (riso).

Sentes que encontraste a tua voz literária com o teu primeiro romance, Grande Turismo?
Não sei se tenho uma voz, acho que tenho muitas, neste exercício de encontrar uma voz verdadeira. As pessoas às vezes falam da literatura como um exercício de sinceridade e eu não acho que seja isso. Acho que tem a ver com uma verdade que é completamente insincera. A tua escrita incorpora a comédia de costumes?
Quando estou a escrever nunca tento criticar os outros ou fazer uma comédia de costumes no sentido de mostrar a vaidade humana. Todos os defeitos que eu encontro nas personagens do meu livro são defeitos que estão dentro de mim, e, portanto, podem [até] ser tentativas de ridicularizar os outros, mas só porque eu faço parte dos outros com quem gozo.
Quais são os escritores que mais te inspiram?
Quando falo do Proust há imensas coisas que se aplicam aos meus romances, mas tento abstrair-se disso. O Philip Roth e a Flannery O’Connor são uma influência muito clara na minha escrita. O Simão Lucas Pires, que é um grande amigo meu, foi-me influenciando não na parte da escrita, mas em tudo o resto.

Consegues assinalar três influências improváveis que moldaram a tua escrita?
As três influências mais improváveis serão: a maneira, cómica e e violenta, como a minha avó conta histórias, que eu tento reproduzir muitas vezes; a forma como as pessoas conversam em cafés – eu tenho-me imposto a obrigação de chegar 20 minutos antes aos sítios e ficar sentado só a ouvi-las a falar; e os posts no Facebook de pessoas indignadas e a falar de futebol (e eu incluo-me nessas pessoas), pela forma como parece haver uma divisão entre “burros” e “génios”, em que os “génios” normalmente somos nós e os “burros” todas as outras pessoas. Isso é muito interessante do ponto de vista literário.

& Receber o Prémio WOOK trouxe-te um sentimento de validação enquanto autor?
Eu fico contente por ter ganho o prémio, mas fico mais contente pela forma como falaram do livro, porque achei bonito o que disseram. Não considero que haja uma validação, porque a literatura é um sítio para derrotados, e eu acho que sou uma pessoa derrotada; não há nenhum nível de validação que venha de fora que vá satisfazer-me. Agarramo-nos muito às coisas boas que dizem de nós para nos sentirmos validados, ou ignoramos as críticas, ou o contrário. Eu escrevo porque gosto de escrever, e enquanto isso acontecer está tudo bem. «Em literatura, não há uma fórmula, um modelo, ninguém em quem nos possamos amparar, estamos sozinhos.» Qual foi a ideia inicial que te levou a escrever Campo Pequeno?
Muitas vezes o mais importante na literatura é descobrir a maneira como nos posicionamos em relação a uma história. O Grande Turismo era a história na primeira pessoa de alguém que se vê de fora, e eu quis fazer o contrário: contar uma história na terceira pessoa, mas como se a visse por dentro, como se aquelas personagens fossem simultaneamente diferentes de mim, tivessem outros nomes, mas fossem eu. A ideia de um casal que vai ter um filho parecia-me em certo sentido semelhante e diferente de escrever um livro. Depois, como uma intuição, quis saber mais sobre eles, fui-lhes fazendo perguntas, eles não me respondiam, e lá apareceu uma história.

O enredo destes livros nasceu de uma estrutura com o início e o fim já delineados?
Comecei a construir o início da história com um casal que descobre que vai ter um filho, a pensar sobre o que isso implica, a sentir-se completamente desamparado e, de repente, percebi como é que acabava. Em literatura, não há uma fórmula, um modelo, ninguém em quem nos possamos amparar, estamos sozinhos. A escrita é um exercício que está constantemente a ensinar-nos a nós próprios a desenvolvê-lo. Eu queria perceber como é que, sabendo o início e o fim, construía uma narrativa longa, qual a maneira lógica de chegar até àquele desfecho tão estranho a partir de um início tão trivial, e foi esse o esforço. Planeavas juntar tantas personagens à história?
Sou muito racional, exceto quando escrevo. Penso muito na história quando não estou a escrever, mas gosto de ser surpreendido e a ideia que começou a surgir foi: há duas personagens, a Laura e o Heitor, que estão a olhar para este ponto específico, e a certa altura começamos a ouvir as histórias do Heitor e este refere outra personagem; depois, quando esta conta a história, o centro é outro ponto ao lado, então vamos desviar atenção para lá. E, deste modo, foram aparecendo muitas personagens.

Em Campo Pequeno, é o criador que se transforma em personagem, ou são estas que se tornam reais para ele?
Nós estamos sempre presos na nossa perspetiva e há pessoas que acham que vivemos numa espécie de matrix, o que tem um fundo da realidade. Não há nenhuma maneira concreta de sabermos se existe outra coisa que não nós mesmos. As personagens, nesse sentido, ganham uma vida tão grande como nós. Por outro lado, por vezes também nos sentimos irreais, e não sei se eu estou dentro ou fora do livro, assim como as personagens… Essa confusão pode ser enlouquecedora.

A tua literatura reflete a realidade que conheces?
As histórias partem sempre da minha vida, embora eu tente retirar quase todos os elementos que sejam biográficos. Certas coisas que me inspiraram são transformadas de tal maneira que já ninguém as reconheceria. Há este lado de sátira, mas é uma sátira da Vida com maiúscula, de acharmos que sabemos coisas e a vida insistir subtilmente em negá-las, não nos retirando a convicção de que estamos certos.

Deixas que as tuas personagens te surpreendam?
Quando as personagens desobedecem aos narradores, as histórias são muito mais credíveis. Aliás, uma das personagens deste livro chama-se Tomé e a história do Tomé da Bíblia é precisamente alguém que insiste em tocar na carne de uma outra figura para ver se ela é mesmo real. Eu quero que as minhas personagens façam sempre isso, que digam «tudo bem, escritor, estás a dizer-me que eu tenho de ir por aí, mas deixa-me tocar nas chagas», para dar uma certa realidade, porque de facto elas desobedecem, embora eu tente ter um plano para elas. A literatura é uma reprodução do que acontece lá fora, que é querermos que a vida nos obedeça, e ela desobedece-nos. Tentamos que seja uma cura de uma doença, mas é um sintoma de uma loucura.

É difícil conseguir um equilíbrio entre humor, ironia e tragédia?
É difícil eu sentir-me satisfeito em geral, mas o humor vem sempre como carro-vassoura da tragédia no meu livro, tentando banalizá-la, mas aumentando o desconforto. É um sinal de que estou a precisar de me rir para não chorar. São equilíbrios sempre ténues.

O vazio existencial sentido por várias personagens de Campo Pequeno é um retrato dos nossos dias?
Pode ser, mas incomodam-me escritores que dizem querer ser a voz de uma geração, ou que captam algum tempo específico. Tudo o que a literatura faz é apontar para coisas que estão cá desde sempre. Não acho que o telefone, o Instagram ou o que quer que seja, tenham vindo a mudar algo no que somos. Talvez capte o nosso tempo, mas em coisas que já existiam antes, e se captam o nosso tempo e se descrevem bem um uma certa sociedade é só porque eu sou fruto dessa sociedade e estou a tentar descrever-me a mim mesmo. Proust refere que a universalidade se encontra quando mergulhamos a fundo na interioridade de alguém. Se existe alguma universalidade no livro é completamente involuntária e surge só de um mergulho em profundidade e não de um salto em altura.

Por que dizes no livro que gostas mais da Mafalda do que de outras personagens?
A Mafalda tem uma maneira de estar na vida que é radicalmente diferente da minha, pois é está constantemente a sentir coisas e eu gostava de sentir. Gosto muito dela porque todas as personagens do livro são mais ou menos reproduções de mim próprio, de coisas que vejo em mim de que gosto ou não e a Mafalda, não, é o outro por excelência. Ela fura esse muro que existe entre mim e o que não consigo compreender, e é para mim o que o Gabriel e o cão do pai da Laura (o Francisco) são para este: seres muito diferentes, mas que aos quais ele se afeiçoa precisamente por isso, e que o deixam comovido, contra a sua vontade.

A forma como o Francisco vai deixando as pessoas entrarem no seu mundo reflete a evolução da sociedade portuguesa?
Completamente, acabo por retratar a sociedade porque sou fruto dessas contradições. O título do livro, Campo Pequeno, vem desta ideia de haver um centro na cidade onde as pessoas vão assistir a uma tourada, ou protestar contra touradas, fazem as compras de Natal, assistem a um concerto de uma banda famosa, … É este polo onde tantas tensões e maneiras diferentes de viver a cidade se cruzam. O Francisco é fruto dessa dessas contradições todas, de se agarrar muito a uma ideia que tem dele próprio, mas que depois é constantemente furada pelo amor aos outros, e ainda bem.

Como conseguiste entrar na cabeça do bebé Tomé?
Quando estava a escrever o livro, e fascinava-me olhar para o meu sobrinho bebé e imaginar como ele estaria a ver o mundo. O exercício da literatura é olhar para pessoas e corpos estranhos e pensar como seria estar “dentro” deles, e isso está-se a perder. Parece-me que nós, enquanto sociedade, achamos que se uma pessoa se comportou de determinada forma, não merece ter subjetividade, nem ser entendida, mas antes repudiada.

Sabias qual era a personagem que iria entrar em catarse no final do romance?
É como um sismo e as réplicas: há uma grande explosão e depois tudo à volta começa a explodir aos poucos. Eu sabia que ia haver esse momento final, mas não sabia era que ia acontecer daquela forma.

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João Pedro Vala é o vencedor do Prémio WOOK Novos Autores

João Pedro Vala João Pedro Vala é o vencedor da 1ª edição do Prémio WOOK Novos Autores.
O júri, presidido pelo escritor João Tordo, considerou que a obra Campo Pequeno se destacou das demais pela linguagem literária fluída, que recorre ao humor e à coloquialidade, confirmando, assim, João Pedro Vala como um caso singular dentro da ficção portuguesa contemporânea.
Numa nota à imprensa, o Júri acrescenta:

«Um casal à espera do primeiro filho é o ponto de partida para um romance que se aproxima da comédia de costumes. Campo Pequeno é o centro de um universo ficcional rico em que o leitor tem acesso privilegiado ao mundo interior das personagens. Com uma voz original, simultaneamente irónica e erudita, o autor cria uma narrativa que reflete a fragmentação e o insólito do mundo contemporâneo. Guiados por um narrador que participa na farsa, o escritor faz-nos crer que estamos a ver à lupa as suas personagens, enquanto, na verdade, nos aponta um espelho.
João Pedro Vala é certamente uma das vozes mais fortes da nova ficção portuguesa, de quem muito se espera, sobretudo depois dos dois romances de estreia, nos quais se começa a entrever uma melodia própria, que o futuro confirmará.
O AUTOR E A SUA OBRA João Pedro Vala (Lisboa, 1990) é licenciado em Gestão e doutorado em Teoria da Literatura e trabalha como revisor e tradutor, tendo sido crítico literário no Observador. Em 2022 estreou-se com Grande Turismo, o seu primeiro romance, a que se seguiu o mais recente Campo Pequeno, publicado em 2024. É ainda autor de Terra, um livro sobre a história da Herdade do Esporão editado em 2023.
Em Campo Pequeno, um bebé prestes a nascer, uma freira semiatropelada, um conquistador mongol, uma mulher roxa, um beatboxer amador, um casal sadomasoquista, um caçador ocasional, um cangalheiro que tira cervejas durante os Santos Populares, uma mãe negligenciada, um ator italiano, um jogador de futebol dos campeonatos distritais, um consultor chato como tudo e um cão ajudam Heitor, Laura, Gabriel e Mafalda na procura de um sentido para as suas vidas. Se em Grande Turismo, o seu romance de estreia, João Pedro Vala era narrador e personagem principal, agora, em Campo Pequeno, é o demiurgo criador de um universo em que ora participa, de que ora se abstém, mas que manipula a seu bel-prazer. SOBRE O PRÉMIO Foram finalistas da primeira edição os autores: • Stênio Gardel com A Palavra que Resta;
• Marta Hugon, com Souvenir;
• Rita Canas Mendes, com Teoria das Catástrofes Elementares;
• Henrique Rapos,o com As Três Mortes de Lucas Andrade;
• Victor Vidal, com Não há Pássaros Aqui. A data da cerimónia de entrega do prémio será anunciada em breve.

Campo Pequeno

by João Pedro Vala

Property Description
ISBN: 9789897229565
Publisher: Quetzal Editores
Release Date: February of 2024
Language: Portuguese
Dimensions: 150 x 235 x 16 mm
Cover: Softcover
Pages: 216
Format: Book
Collection: Língua Comum
Categories: Books in Portuguese > Fiction > Romance
EAN: 9789897229565
Recommended Minimum Age: Not applicable

Sem pressas

Rui

Atrativas descrições do quotidiano. Quando a juventude do autor der lugar à maturidade assente em experiência de "olhar e ver" os seus semelhantes, poderemos aqui ter um vulto significativo das nossas "letras pensantes". Em "Campo Pequeno" de João Pedro Vala há laivos de boa profundidade que, com o tempo, acredito, levarão o autor a um patamar superior de "prosador-pensador". Um bom começo com caminho para ser percorrido, espero que com mais paciencia para chegar ao fim.

Campo Pequeno

Rui Pinto

Confesso que li todo o livro procurando entender o que pretendia o autor e no final não tive grande resposta. A leitura sucedia-se como o embaralhar de cartas que me deixou também completamente baralhado. Sinceramente… não gostei.

Fantástico

M

Livro muito bem escrito, com umas personagens fantásticas. A identificação do leitor com a personagem principal faz viver na 1.ª pessoa a fantasia da história. Recomendo.

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João Pedro Vala

João Pedro Vala nasceu em Lisboa, em 1990. É licenciado em Gestão e doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade de Lisboa, com uma tese sobre Marcel Proust na Universidade de Chicago. Grande Turismo (2022), finalista do Prémio Fundação Eça de Queirós, é o seu romance de estreia, a que se seguiu Campo Pequeno. Foi o primeiro distinguido, em 2025, com o Prémio Wook, por esse último romance. Em 2026, tornou-se o primeiro autor português a vencer o Prémio PEN/O. Henry, nos Estados Unidos da América. O conto «Inês» é o primeiro capítulo do livro Grande Turismo e foi lançado como conto em inglês na revista The Common, em 2025.

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