Wook se escreve na Ucrânia – Parte I

Por Vera Dantas
28 de agosto de 2023
A literatura ucraniana é ainda terra incógnita para muitos leitores, em parte devido à falta de traduções de muitos dos seus autores mais antigos. Mas isso está a mudar. Os autores contemporâneos ucranianos estão a alcançar o seu merecido reconhecimento internacional. Nem todos podem, ainda, ser lidos em português, mas se quiser descobrir a riqueza da ficção ucraniana, este é um excelente começo.


Nota: Este artigo foi originalmente publicado na Revista Wookacontece nº 9, em de Maio de 2023
Ilustração original de Aurora Sant’Ana
DO SÉCULO XII AO SÉCULO XX
Com uma longa e profunda história que reflete os desenvolvimentos culturais, políticos e sociais do país, da poesia épica aos romances modernos e contos, a literatura ucraniana é uma janela para a identidade e o património desta nação.
Se olharmos para o processo literário do último milénio como um todo, é possível dividi-lo em vários períodos amplos: o da criação de literatura original em Rus de Kiev (séculos IX a XIV), o cossaco (século XVI a XVIII), o do vernáculo (século XIX), o do renascer na década de 1920, o da pré-independência (década de 1980), e o contemporâneo.
Temos de recuar até ao século XII para encontrar O Conto da Campanha de Igor (1187), um poema épico carregado de orgulho nacional que relata a campanha (fracassada, mas heroica) do príncipe Igor Svyatoslavich, o Bravo, contra os cumanos, e que é o mais notável marco da literatura ucraniana antiga.
Mas é importante saber que a língua usada na escrita (ucraniano padrão), empregue nos rituais religiosos cristãos, evoluiu a um ritmo mais lento do que a palavra falada. Até que, no despontar no século XIX, coincidindo com um despertar nacional, surge uma língua literária completamente nova, baseada na variante falada (vernáculo ucraniano nativo). Foi uma era de escrita prolífica, de afastamento do estilo épico tradicional em direção ao realismo e ao romantismo. Vários escritores desempenharam papéis-chave neste movimento, defendendo o uso da língua ucraniana e promovendo um sentido de identidade nacional. Mas um, em especial, ficará para sempre ligado à Ucrânia:
Taras Shevchenko (1814-1861), poeta, escritor, artista, e humanista, foi um visionário que contribuiu para o renascimento nacional ucraniano. Todas as cidades ucranianas – e muitas europeias, incluindo Lisboa – têm monumentos a este escritor, e as crianças ucranianas continuam a declamar os seus poemas nas escolas do país.
Shevchenko nasceu servo, uma condição de quase escravatura vigente no Império Russo até 1861. Graças ao seu talento para a pintura, alcançou a alforria aos 24 anos, tendo estudado Arte em São Petersburgo. Mas foi na expressão poética que se notabilizou, tanto pela genialidade, como pelo seu espírito de revolta e defesa da liberdade. A sua primeira coleção de poemas, Kobzar, obteve permissão para ser publicada, em 1840, um feito importante numa altura em que as publicações ucranianas estavam proibidas. Mas a filiação do escritor numa sociedade secreta que defendia a independência da Ucrânia e a transformação do Império Russo numa federação de nações eslavas, e a sua autoria de poemas – em ucraniano – que satirizavam a opressão da Ucrânia pela Rússia, fizeram com que o czar Nicolau I o condenasse, pessoalmente, à prisão, proibindo-o de escrever ou pintar. Shevchenko não se vergou, e foi condenado ao exílio em condições duríssimas, que acabariam por precipitar a sua morte, aos 47 anos.
 
Taras Shevchenko
Taras Shevchenko, retratado pelo pintor Ivan Kramskoi
Taras Shevchenko é considerado o fundador da língua ucraniana moderna escrita e influencia, até hoje, a vida cultural, intelectual e literária no país. A sua vida e obra marcaram de tal forma a Ucrânia, que Taras Shevchenko é considerado o fundador da língua ucraniana moderna escrita. A sua poesia contribuiu muito para a consciência nacional ucraniana e influencia, até hoje, várias facetas da vida intelectual, literária e nacional.

Pouco depois da morte deste herói nacional, o regime czarista proibiu ainda mais severamente a atividade literária em língua ucraniana, o que fez com que, até 1905, muitos trabalhos tenham permanecido inéditos ou publicados apenas fora do Império Russo. Apesar de severamente afetados por fortes convulsões no início do século XX – a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa e o domínio soviético –, os escritores ucranianos continuaram a produzir obras de significado, explorando os temas da injustiça social, da opressão, e da luta pela liberdade

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