Há vida para além do bullying?

Por Álvaro Cúria e Ludgero Cardoso
@literacidades
17 de janeiro de 2020
Nenhuma criança deveria adormecer com medo de acordar. Parece-nos claro que ser vítima de bullying é das agressões mais traumatizantes a que se pode estar sujeito. Há exemplos, na literatura, que nos tocam e nos fazem perceber o que é a vida para quem é vítima desse tipo de agressão. Após ler estes livros, os três de inspiração autobiográfica, talvez também se pergunte: “há vida para além do bullying”?



SERVIDÃO HUMANA
As agressões a que Philip é sujeito, desde criança, moldam a sua imagem do mundo, estruturam a sua personalidade, a forma como se relaciona com os outros e as suas próprias opções de vida. No início da magistral obra de Somerset Maugham, somos apresentados a um menino que nos apetece imediatamente pegar ao colo e mimar, pela sua imensa fragilidade: o pé boto, a orfandade, colocam-no numa posição em que é um alvo fácil de adultos e outras crianças. Um dos excertos onde as lágrimas nos vêm aos olhos é quando Philip, ao ser deixado num colégio interno, chama o tio à parte e lhe pede baixinho, em súplica, que avise o diretor de que tem um problema no pé, como se este não fosse visível. É a clara noção que a criança tem, fruto do que lhe dizem, que, à partida, já não será capaz de estar à altura de viver da mesma forma que os outros.
Mas, neste romance de construção de personagem, altamente inspirado pelas vivências do próprio autor, Philip vai procurar formas de se livrar da pesada herança que as ofensas físicas e verbais que sofreu na infância lhe deixaram. Nesse percurso de vida, contudo, vai passar pelo inferno às mãos da caprichosa Mildred e vacilar muito na hora de escolher um rumo. Tudo para que, no fim, nos questionemos qual a dimensão da servidão a que as nossas próprias vivências nos sujeitam.
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DEIXA-TE DE MENTIRAS
Até que ponto o bullying homofóbico pode anular a identidade de alguém? Neste romance, comparado ao americano Brokeback Mountain, Besson mostra-nos a vivência da sexualidade em diferentes décadas e opõe Philippe, personagem autobiográfica, a Thomas.
O primeiro vive em constante sobressalto ao longo da sua adolescência: a violência de que é vítima por causa da sua orientação sexual é o resultado da vida numa pequena aldeia francesa, nos anos oitenta do século passado. Os constantes atropelos à sua liberdade, a humilhação e as agressões de que é alvo não o levam, no entanto, a esconder-se numa capa de normatividade, mas antes a enfrentar a sociedade.
O colega, Thomas, é o oposto: para evitar sofrer do mesmo tipo de bullying de que Philippe é alvo, mascara a sua própria identidade e leva uma vida dupla, recalcando aquilo que tem de mais íntimo.
É possível, nas páginas deste livro, sentir a pressão a que os dois rapazes estão sujeitos: a de seres humanos constritos às limitações do contexto e da época em que se encontram. No romance, percebemos que Philippe viveu a sua sexualidade sem constrangimentos, após a escola secundária, ao passo que Thomas não se permitiu vivê-la, acomodando-se na pressão que a sociedade lhe impôs. A superação de Philippe contrasta com a anulação de Thomas, levando-nos a pensar no quanto o bullying moldou as personalidades destes adolescentes.
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A GORDA
Ao longo deste livro percorremos as várias divisões da casa de Maria Luísa. Divisões essas que, no fundo, são palcos que descrevem momentos cruciais da sua vida, como a morte do pai, a relação amorosa com David, a faculdade, a vida profissional e a sua relação com a mãe. Esta última sempre a alertá-la para as formas do seu corpo, volumoso, sugerindo-lhe que não use determinadas peças de roupa, reparando na sua pele, nas suas formas, fazendo com que Maria Luísa encare e pense o seu corpo a todo o instante. Esta atitude vai fazer com que se refugie na comida, engolindo as palavras da mãe.
À sua volta, o mundo não é um lugar amistoso: o bullying que enfrenta torna-lhe o peso do corpo menos difícil de suportar do que o peso dos dias. É precisamente fora do ambiente familiar que se tornam mais evidentes os preconceitos perante o peso. Os reparos à sua condição física partem também dos amigos de um namorado, condicionando a relação com a nossa protagonista. A constante análise a que foi sujeita por parte dos outros e os reparos, disfarçados de conselhos, que todos pareciam ter em relação ao corpo de Maria Luísa, moldaram-lhe a identidade. Mesmo após emagrecer, e logo no início do livro, diz: “ainda penso como gorda. Serei sempre uma gorda.”
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