Entrevista a um Pai Top

A WOOK é dos sites com o nome mais legal do mundo, afirma Marcos Piangers. Estivemos à conversa com o autor de O Pai é Top, um livro despretensioso e cheio de humor que nos conta, na primeira pessoa, o que é ser pai nos dias de hoje.
Wook está na sua mesa de cabeceira?
Presumo que vocês querem saber o que estou lendo nesse momento. Eu e a minha mulher passámos por uma fase viciados em David Sedaris. O David Sedaris é um escritor com origem grega, mas mora em Nova Iorque há muito tempo. Ele tem alguns livros publicados no Brasil e esses livros em língua portuguesa foram o nosso deleite durante o verão brasileiro. Íamos para a praia e ficávamos lendo David Sedaris e lendo as crónicas maravilhosas e rindo e, enfim, tentando ser o que o David Sedaris é. O meu favorito é Entre as Labaredas (Diário de um Fumador, em Portugal). É um autor e um livro de que gosto muito. Curiosamente também estou lendo poesia da Matilde Campilho, uma poetisa portuguesa. Acho profundamente bonito o texto dela. Ela tem um livro chamado Jóquei que eu gosto muito. As meninas estão muito felizes e interessadas num livro chamado The book with no pictures, é um livro do B. J. Novak, um americano que escreveu um livro inteiro infantil sem nenhum desenho ou figura. Em Portugal é O livro sem bonecos, muito divertido; cria uma interação entre crianças e adultos, é o tipo de livro que a gente realmente gosta, aquele livro em que as crianças têm de participar, em que o pai tem de ser um contador de histórias mais ativo, mais participativo.
Entrevista a Marcos Piangers , O Pai é Top
Pense numa pessoa. Wook diria essa pessoa sobre o seu livro O Pai é Top?
Vou pensar na minha mãe. A minha mãe é das minhas maiores fãs. Eu tinha a certeza que o livro no Brasil não faria tanto sucesso e fez. Mas, se não fizesse, tenho a certeza de que a minha mãe compraria todas as cópias disponíveis e distribuiria entre suas amigas, porque ela é minha fã n.º 1; e ela mesma, lendo o meu livro, achou-o muito interessante e divertido; mas uma das críticas de que mais gosto – acho-a deliciosa - é que ela também leu o livro da minha mulher, A mamãe é rock, (no Brasil eu lancei O Pai é Top e a minha mulher lançou A Mãe é Rock) e uma das críticas mais interessantes foi a minha própria mãe dizendo que o livro da minha mulher é melhor que o meu. Ela ria e dizia: “ah o livro dela é muito melhor do que o seu”. Então acho que é uma crítica boa, a minha própria mãe avaliando a minha mulher como melhor escritora.

Escolhe os temas dos livros ou os temas escolhem-no a si?
Os temas vão-se escolhendo a si mesmos. Sinto durante o dia, e durante o tempo que passo com as minhas filhas, que muito naturalmente os temas vão aparecendo. São temas que geralmente surgem das respostas que elas dão, frases que as minhas filhas comentam, acontecimentos com a gente, e tento anotar tudo no bloco de notas do celular ou num caderninho com lápis para que não se percam esses momentos; ou mesmo quando algum pai me fala alguma coisa interessante, costumo sempre escrever. Por exemplo, ontem mesmo conversando com um pai que tem uma filha já mais adulta, ele estava me dizendo que os filhos em determinado momento vão embora, se despedem, vão viver a vida deles; mas é bonito ver que dez anos depois eles voltam com os netos. Isso me deixou muito feliz e achei muito bonito o que ele disse. Espero que, de verdade, minhas filhas voltem um dia. Porque já sinto a de 11 [anos] meio que se despedindo, não gostando de segurar minha mão na festa da escola. E assim é a vida e a gente tem que se adaptar a ela.

Há algum tema sobre o qual não goste de ler ou escrever?
Não gosto de escrever nem de ler temas que não dizem respeito à verdade do autor, não gosto de escrever nada que não seja profundamente verdadeiro; diversos textos que já escrevi… fui percebendo que não eram plenamente sinceros, não eram plenamente verdadeiros com o meu sentimento; e é tão bonito quando um texto é escrito com o coração, com choro, com ranho, com dedicação e num fluxo de emoção – é tão bonito quando isso acontece. Então me esforço sempre para que isso aconteça com os meus textos.

Qual é a sua rotina de escrita?
Normalmente chego em casa do trabalho, umas 7h00 da noite, as meninas já estão em casa, a gente janta junto, a gente conversa, brinca de tabuleiro ou quebra-cabeça ou dominó ou brincadeiras na cama, ponho elas no banho, seco a mais pequena, visto com pijama, vamos para a cama, conversamos bastante, lemos histórias, espero até elas adormecerem e, quando elas dormem, vou para a frente do computador para escrever. A minha rotina normalmente é escrever da meia noite até às duas da manhã, escrevo de madrugada quando tudo é silencioso e as interrupções são quase nenhumas e gosto muito desse processo. A minha mulher acorda de manhã cedo, 6h00 da manhã, para escrever, e também sem interrupção porque é muito cedo; mas cada um tem o seu estilo de escrita.

Escrever é um processo partilhado ou solitário?
Muito solitário. Gosto de escrever solitariamente, gosto de ficar pensando em tudo aquilo que anotei durante o dia ou durante a semana. Gosto de tentar desenvolver alguns temas; e acho que o processo de escrita, pelo menos para mim, é muito solitário.

Escrever: dá energia ou tira energia?
Dá energia e também tira energia. É muito desgastante, mas, ao mesmo tempo, é revigorante quando você consegue escrever um texto com todo o seu sentimento, com todo o seu coração. Aquilo te energiza novamente, sem dúvida.
O que é preciso para ser um Pai Top?
As pessoas me perguntam muito isso. Acho que um pai top é um pai que participa, é um pai que em primeiro lugar quer participar. Em segundo lugar, para você ser um pai top você tem também de ser um marido top, você tem de valorizar sua mulher. Tem de entender que, separado de sua mulher, você perde muito da paternidade. Ou seja, você tem de ser um pai top, um pai responsável, que valoriza sua esposa, sua mulher, então você é um pai que valoriza seus filhos e o tempo com eles, e que trabalha para pagar as contas, mas também trabalha para ser feliz – e ser feliz é estar junto de quem você ama. Então acredito que um pai Top é um pai que sabe equilibrar trabalho e tempo com os filhos.
Entrevista a Marcos Piangers , O Pai é Top


Há um provérbio que diz: “A criança que lê será um adulto que pensa”. Concorda?
Claro que concordo. Porque a leitura é a forma mais fácil de adquirir conhecimento. Hoje a gente tem milhões de livros à disposição e o livro, diferente das notícias que são o rascunho da história, é a consolidação da história. Ou seja, você pode ler livros a respeito das coisas mais interessantes e distantes do seu mundo e mesmo assim conhecer bastante sobre esse assunto. Ler um livro é como conversar com uma pessoa muito proximamente, uma pessoa muito inteligente (enfim, os autores todos clássicos) e, especialmente, gosto dos livros mais antigos, os livros que aguentaram a prova do tempo. Então considero que uma criança que lê é uma criança que pensa. E um pai que lê para uma criança é um pai que está construindo um mundo melhor.

Há alguma coisa que um leitor seu tenha dito ou feito que o tenha marcado para sempre?
Há, com certeza. Meus leitores me marcam quase que semanalmente. Todos os dias mandam mensagens que me marcam: mães que, por lerem o livro, decidiram não abortar; ou pais que, porque leram o livro, decidiram ser próximos e não abandonar os seus filhos; ou mesmo pais que estavam pensando em se matar por conta de alguns erros ou envolvimento com drogas e, por causa de algum texto meu, decidiram não se matar. Ou seja, são os textos e o livro salvando algumas vidas e construindo famílias mais unidas, mais amorosas, mais afetuosas, mais presentes – pais, homens, descobrindo a possibilidade de serem pais mais presentes e isso me deixa profundamente emocionado e lisonjeado.

Se o dinheiro não fosse uma condicionante, onde optaria por fazer a pesquisa do seu próximo livro?
Adoraria ter a oportunidade de escrever um livro no Japão. A minha filha mais velha é fascinada pela cultura japonesa e isso faz com que eu também tenha muito interesse em conhecer a cultura japonesa e escrever de lá acho que seria incrível. Os japoneses têm uma relação com a tecnologia muito interessante. Gostaria muito de entender essa postura de cobrança profissional - até muito extrema -, a relação com a tecnologia e a dificuldade que os japoneses têm de criar suas famílias com afeto e com amor. Acho que isso seria muito interessante de analisar.

Se pudesse partilhar um jantar com qualquer autor (vivo ou morto), quem escolheria?
Com certeza, Kurt Vonnegut, o meu autor favorito, um humanista, um homem que lutou na Segunda Guerra e sobreviveu ao bombardeamento de Dresden, o homem que eu mais admiro na literatura mundial; aquele com quem me relaciono quase familiarmente - considero um pai, um tio, um familiar próximo. Li todos os livros dele. Kurt Vonnegut tem livros publicados de discursos que fez, que me parecem muito próximos do Sermão da Montanha, de textos importantes para a gente se entender como humanos e sem dúvida alguma adoraria jantar e, mais do que jantar, passar um fim de semana, ou quem sabe uma semana inteira, com Kurt Vonnegut, alguém que considero enorme na literatura mundial.

Se tivesse um superpoder, qual seria?
O superpoder de proteger as minhas filhas de tudo, de todos os perigos - minhas filhas, minha mulher, minha mãe. E poder, enfim, levá-las comigo, com muito amor, pelo resto da minha vida.

Nomeie uma coisa que não gosta que lhe digam.
Me incomoda um pouco que, por defender a participação masculina na família, alguns pais me critiquem por achar que eu faço o papel da mulher. Mas isso não é uma verdade: eu faço o papel do homem que descobriu que a vida em família pode ser uma vida prazerosa, que descobriu que a vida que é totalmente dedicada ao dinheiro e à profissão é uma prisão que nos colocaram socialmente, é uma mentira que nos contaram, que nós temos que ser o provedor, temos que ganhar dinheiro e pagar as contas e que a gente não deve cuidar da família, não deve lidar com as questões familiares de uma forma carinhosa, afetuosa e presente. E isso é uma mentira que nos contaram. Alguns homens acham que esse discurso é feminino, é um discurso que defende só as mulheres, mas não: é um discurso que defende também os homens, é um discurso que oferece a opção de um homem ser feliz perto da sua família, que oferece a opção de um homem não se arrepender no final da vida por não ter participado e não ter valorizado a sua mulher, a sua filha, o seu filho, sua mãe e tudo o mais.

Qual é a melhor e a pior parte de ser pai?
A melhor parte é o dia a dia, a capacidade de aprender com elas, conversar com elas todos os dias, de passear de mão dada, de acordar com elas, aprender e ouvir conceitos novos, interessantes, diferentes e mágicos que as crianças têm para nos oferecer. A pior parte, sem dúvida, são aqueles momentos em que você está exausto, cansado e a sua filha quer brincar e você está sem um pingo de paciência para tudo isso. Você se sente mal, culpado, você está cansado, precisa de descansar, seu filho quer mais de você e você não tem o que oferecer e só oferece dureza. Não é nada fácil quando isso acontece!

Qual é a pior e a melhor parte de ser escritor?
Não sou somente um escritor, sou também jornalista – trabalho com rádio, tv, internet, jornal. Mas a melhor parte é a autonomia, a capacidade de viver em qualquer lugar do mundo, viajar e andar por aí e, mesmo assim, conseguir ser produtivo – isso é extremamente fascinante: poder de qualquer lugar estar produzindo um livro, uma reportagem, um texto. A pior parte de ser escritor é que muitas pessoas não valorizam os livros, não valorizam a cultura e infelizmente existe um discurso de celebração à ignorância que parece ser cada vez mais crescente, visto a eleição de governantes que celebram a ignorância e que celebram a desinformação. Isso me deixa profundamente triste e a pior parte de ser escritor é parecer um outsider, um underdog, uma voz solitária no meio de uma multidão ignorante. Mas espero que essas coisas mudem.

Wook gostaria de ler sobre si?
Gostaria de ler o que as minhas filhas têm para falar sobre mim depois de eu morrer. Adoraria ler algo que a minha filha mais nova ou mais velha escrevesse a respeito da minha vida como uma obra, a minha vida como um começo, meio e fim. Depois que eu morra, o que elas teriam para me dizer, me sentiria realizado se fossem textos elogiosos e carinhosos. E é por isso que eu trabalho todos os dias.

Consegue nomear três autores que o inspiram.
Claro. Kurt Vonnegut, em primeiro lugar, em segundo lugar o Hemingway – li todos os livros do Ernest Hemingway e depois todo os livros do Fitzgerald e depois todos os amigos de todos os amigos de Hemingway e todos os escritores que o influenciaram. O Hemingway era muito fã do Mark Twain e aí eu fui seguindo tudo o que o Hemingway dizia para eu seguir. E adoro ele como uma figura de escritor, masculina e sensível ao mesmo tempo. E por último gostaria de citar o David Sedaris, um cronista da vida real, de mão cheia, maravilhoso, sensível, e muito engraçado. São três autores que me inspiram muito.

Que livros lhe colocam um brilhozinho nos olhos?
Todos os livros destes três autores. Deixe-me pensar em mais algum livro que me coloca um brilhozinho nos olhos. Gosto muito do Jonathan Safran Foer. O Jonathan Safran Foer escreveu o Extremamente Alto e Incrivelmente Perto que é muito bonito. E todos esse livros que trazem uma visão infantil a respeito de coisas muito sérias me interessam. Acho que a criança nos traz uma forma diferente de ver o mundo e isso me deixa profundamente inspirado. Gosto desses livros que tratam da temática do ponto de vista da criança.

Wook tem vergonha de nunca ter lido?
Irmãos Karamazóv e As Vinhas da Ira. Não li nenhum e tenho a certeza que são maravilhosos - são clássicos que me faltam.

Projetos para o futuro?
O Pai é Top vai sair em quadrinhos, tem propostas para seriados. A Mãmae é Rock talvez saia em outros países do mundo. De momento temos O Pai é Top em Portugal, Espanha e Catalunha; temos Daddy is cool nos Estados Unidos e Londres. E Mom rocks em inglês também. E a nossa ideia é expandir cada vez mais a mensagem de famílias unidas, pais mais presentes, filhos divertidamente sendo bem tratados e uma vida mais feliz e realizada em família, independente do que você ganha ou da sua posição no trabalho.
Uma mensagem especial do autor

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