Os cenários mais marcantes da obra de José Saramago

Vera Dantas
9 de junho de 2026
A obra de José Saramago está fortemente ligada aos lugares que a habitam. Sejam espaços reais, reinventados ou imaginados, todos eles contam com o olhar crítico, poético e profundamente humano do escritor. Ao viajarmos por estes cenários, percebemos melhor como o autor observava o mundo e o transformava em literatura.
Faz este mês 16 anos que o Nobel da Literatura partiu, a 18 de junho de 2010. Para celebrar a sua vida e a sua obra, “visite” aqui três destinos emblemáticos que se tornaram parte da identidade literária de Saramago.
 Ensaio sobre a cegueira
🌋 Lanzarote, o refúgio que se tornou casa e laboratório literário
Quando Saramago se mudou para Lanzarote, em 1993, encontrou na ilha vulcânica um lugar de silêncio, luz e despojamento. Foi ali que escreveu alguns dos seus romances mais marcantes, como Ensaio sobre a Cegueira, A Caverna e O Homem Duplicado. A paisagem árida, quase lunar, permitiu-lhe focar-se no essencial da condição humana, com as suas fragilidades e contradições.
A ilha de Lanzarote tornou-se também o pano de fundo dos seus Cadernos de Lanzarote, em que o autor conta os dias pelos dedos, meditando sobre os eventos, as pessoas, as paisagens, as políticas. Escritos na ilha que se tornou casa, além de território de observação e criação, estes diários são uma porta de entrada íntima para o pensamento de Saramago.
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 O ano da morte de Ricardo Reis
🏙 Lisboa, a cidade real e a cidade reinventada
Lisboa é talvez o cenário mais recorrente e mais metamorfoseado na obra de Saramago. Em O Ano da Morte de Ricardo Reis, a cidade surge enevoada, melancólica, atravessada por fantasmas literários. Um romance onde Lisboa se torna personagem, acompanhando o regresso do heterónimo de Fernando Pessoa à cidade.
Em História do Cerco de Lisboa, a cidade transforma-se num palco onde passado e presente se sobrepõem, questionando a própria ideia de verdade histórica.
Mas Lisboa é também o lugar do quotidiano, das ruas estreitas, dos elétricos, das colinas que moldam o ritmo da narrativa. É uma cidade que Saramago observa com ternura crítica, sempre atento ao que revela e ao que esconde.
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 A jangada de pedra
🌍 A Península Ibérica, um território simbólico em movimento
Em A Jangada de Pedra, Saramago imagina a Península Ibérica a desprender se da Europa e a navegar pelo Atlântico. Este cenário fantástico permite ao autor explorar temas como identidade, pertença, fronteiras e relações entre povos. A geografia torna se metáfora: a terra move se porque também as sociedades precisam de se mover, questionar, reinventar. Saramago torna assim um território num dos cenários mais ousados da sua obra, um espaço que existe e não existe, que é familiar e estranho ao mesmo tempo. Com a Península Ibérica numa deriva física e simbólica, A Jangada de Pedra é uma das obras mais imaginativas do autor.
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