Milan Kundera, para sempre

Por Vera Dantas
12 de julho de 2023
O que dizer quando morre um escritor que nos marcou tão profundamente, como Milan Kundera? Quando parte um pensador que transcreveu a História, a dor, o amor, os homens, as mulheres, a vida, para literatura? O que escrever quando a perda de um autor tão humano nos causa tristeza, como se o conhecêssemos em pessoa, como se nos tivesse dado a mão?
Ler os seus livros, ou relê-los, à luz do que a vida nos vai ensinando, é o que nos resta, e não é pouco. E, até, no caso de Kundera, ler pela primeira vez textos seus inéditos, como os que acabam de dar à estampa em Um Ocidente Sequestrado – Ou a Tragédia da Europa Central.

Milan Kundera morreu ontem, 11 de julho, em Paris, aos 94 anos. Mas, sabemos bem, há muito que já tinha lugar firmado entre os imortais. Retratou, como raramente alguém o fez, temas e personagens que oscilam entre a realidade da vida quotidiana e o mundo, amplo, das ideias – questionando, criticando, sonhando e imaginando.
Com uma obra extraordinária na ficção (de que já aqui falámos), mas também no ensaio, chegou a sucessivas gerações de leitores em todo o mundo. Milan Kundera era checo, nascido em Brno, mas vivia em França há quase cinco décadas, já que o seu país o votou ao ostracismo, depois de o escritor ter criticado a invasão soviética da Checoslováquia para pôr fim ao movimento de reforma liberal da primavera de Praga, em 1968. Só em 2019 viu ser-lhe restituída a cidadania checa, que lhe fora retirada 40 anos antes.
Milan Kundera Milan Kundera. Foto © Aaron Manheimer
 
As obras de Kundera, que passou a escrever em francês a partir de 1995, são permeadas por críticas a autoritarismos político-sociais, embora Kundera tenha afirmado que chamar-lhes políticas seria simplificar demasiado a sua interpretação. A Insustentável Leveza do Ser, em 1984, confirmou o seu estatuto de estrela literária internacional. Centrada na atmosfera inebriante da Primavera de Praga em 1968, o romance segue dois casais que se debatem com a política e a infidelidade, examinando a tensão entre liberdade e responsabilidade.
Romancista notável, de índole única e indomável, foi sempre consciente do papel da literatura na sociedade, tendo afirmado, numa entrevista ao New York Times em 1980, que: «O mundo totalitário, seja ele fundado em Marx, no Islão ou em qualquer outra coisa, é um mundo de respostas e não de perguntas. Aí, o romance não tem lugar. Parece-me que, hoje em dia, em todo o mundo, as pessoas preferem julgar em vez de compreender, responder em vez de perguntar, de modo que a voz do romance dificilmente pode ser ouvida sobre a ruidosa tolice das certezas humanas.»
A observação de Kundera é ainda mais pertinente hoje, passado meio século. Assim como é surpreendentemente atual – e ainda mais necessária – a sua análise da identidade europeia. Poucos saberiam fazê-la tão bem como ele, por isso, aproveitando o lançamento do livro Um Ocidente Sequestrado – Ou a Tragédia da Europa Central, damos-lhe hoje aqui o palco que merece, para que nos fale, mais uma vez, na sua voz:

 
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A Europa geográfica (aquela que vai do Atlântico aos Urais) foi sempre dividida em duas metadas que evoluíam separadamente: uma ligada à antiga Roma e à Igreja Católica (sinal particular: alfabeto latino); a outra ancorada em Bizâncio e na Igreja ortodoxa (sinal particular: alfabeto cirílico). Depois de 1945, a fronteira entre estas duas Europas deslocou-se para Oeste, e algumas nações que se tinham sempre considerado como ocidentais acordaram um belo dia e constataram que se encontravam a Leste.
Na sequência disso tomaram forma na Europa três situações fundamentais: a da Europa Ocidental, a da Europa Oriental e, a mais complicada, a da parte situada geograficamente ao centro, culturalmente a Oeste e politicamente a Leste.
(…) A identidade dum povo ou duma civilização reflete-se e resume-se no conjunto das criações espirituais a que normalmente chamamos «cultura». Se esta identidade for ameaçada de morte, a vida cultural intensifica-se, exacerba-se, e a cultura torna-se um valor vivo em volta do qual todo o povo se agrupa. Eis porquê, em todas as revoltas centro-europeias, a memória cultural tal como a criação contemporânea desempenharam um papel tão grande e tão decisivo como nunca em nenhum lugar outra revolta popular europeia.
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Milan Kundera, Um Ocidente Sequestrado – Ou a Tragédia da Europa Central

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