6 livros de Milan Kundera para prolongar o verão
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Kundera faz-nos meditar sobre a vida, sobre cada um de nós e sobre o mundo como um todo. Estes seis livros são uma incursão na obra deste grande escritor, capaz, como poucos, de abordar temas sérios com uma leveza envolvente e uma ironia refrescante.
1 de setembro de 2022
A Valsa do Adeus
Originalmente publicado em 1976, este romance leva-nos a espreitar as vidas de oito personagens, que se intercruzam através de uma série de situações, numa pequena estância termal na Europa Central. Klima, um famoso trompetista de jazz, recebe um telefonema de Ruzena, uma jovem enfermeira, com quem passou uma noite, dizendo-lhe que está grávida dele. Este é o ponto de partida para uma sucessão de acontecimentos que se vão desenrolando durante cinco dias, iluminados por uma grande lua cheia, a uma velocidade cada vez maior. A bela e ciumenta esposa de Klima, o namorado da enfermeira, um ginecologista que toma em mãos a procriação de mulheres com maridos estéreis, um americano benevolente e rico, e um ex-prisioneiro político que se prepara para deixar o país, são todos atraídos por esta comédia negra. Em A Valsa do Adeus, Milan Kundera coloca questões sérias, entre as quais a luta para se (sobre)viver num país sob um regime totalitário, com uma leveza realista, ficando no ar a ideia de que o mundo moderno nos retirou o direito à tragédia.
A Imortalidade
A Imortalidade é uma brilhante meditação sobre a vida no século XX, olhando de forma cómica para as relações do escritor Johann Wolfgang Goethe com a sua esposa, Christiane e a muito mais jovem amiga do escritor, Bettina von Arnim, em contraste com um triângulo amoroso moderno entre três parisienses imaginários: Paul, a sua mulher, Agnes, e a irmã desta, Laura. Em resposta à morte do seu pai, Agnes confronta a sua própria vida e descobre que nunca conheceu a paixão. Laura, uma divorciada, nunca experimentou o amor que vai para além do sexo. Ambas as irmãs desejam Paul e torna-se claro que a sua luta por ele resultará numa vencedora e numa perdedora. A narrativa desenrola-se de forma circular, contando com o próprio Kundera como personagem proeminente.
A Festa da Insignificância
Esta é uma narrativa na tradição das comédias existenciais. Neste caso, é no diálogo que está o drama. Alain, Ramon, Charles e Caliban, as quatro personagens de A Festa da Insignificância, passam os seus dias nos jardins, museus e cafés de Paris, conversando e filosofando. Durante um passeio diurno no Jardim do Luxemburgo, Ramon choca com um antigo colega que, mentindo sobre ter cancro, pede a ajuda de Ramon para planear a sua festa de aniversário/morte. À semelhança dos romances anteriores de Kundera, o livro utiliza a leviandade e o humor para compreender os efeitos duradouros dos horrores perpetrados durante a Segunda Guerra Mundial, embora se situe no presente.
A Lentidão
A tese lançada por Kundera em A Lentidão é que nós, os modernos, perdemos o dom de viver devagar e, portanto, de recordar. Vivemos depressa, por isso esquecemos. Kundera resume de forma lúcida e, depois dialéctica, ideias do filósofo grego Epicuro sobre a interação entre o prazer e a privacidade, o romance epistolar de Laclos As Ligações Perigosas (1782) e a novela Sem Amanhã (1777) de Vivant Denon. Vários capítulos neste livro são cedidos às personagens desses outros livros. Kundera narra estas histórias de amor do século XVIII juntamente com as suas do século XX, como forma de demonstrar que ocorrem no mesmo teatro humano.
A Identidade
Em A Identidade, Kundera faz uso da sua capacidade prosaica para meditar sobre a natureza precária do sentido humano do eu. A protagonista desta história é Chantal. Recentemente divorciada e a passar férias com o seu namorado mais novo, Jean-Marc, acredita que é demasiado velha para ser considerada atraente por outros homens. Para ela, a identidade é definida pelas perceções de estranhos. Quando começa a receber cartas de um admirador anónimo, suspeita que cada novo homem que encontra é o autor das cartas e fantasia como cada um pode percebê-la. Gradualmente, estas cartas, juntamente com alguns sonhos, afetam a forma como Chantal se vê e a sua relação com Jean-Marc, até que os seus sentimentos e identidade se tornam irreconhecíveis tanto para o seu amante como para si própria.
A Ignorância
Estamos em Praga em 1989. O comunismo acaba de cair. No aeroporto de Paris, Irena, uma emigrante checa, reconhece um ex-compatriota, Josef que, há mais de 20 anos, quase a seduziu num bar em Praga e os dois concordam em encontrar-se novamente na cidade. Irena regressara à capital checa após ter fugido da perseguição política, em 1968, com o seu marido, que já não é vivo, por pressão do seu amante sueco, Gustaf. Josef, veterinário, deixara o país após a invasão russa, por repugnância, e está de regresso ao país para satisfazer um pedido da sua esposa recentemente falecida. Além das amarguras antigas, ambos descobrem aspetos novos e irritantes de Praga. Em A Ignorância, Kundera mostra-se mais uma vez a sua mestria enquanto escritor tanto do erudito como do carnal.