Maria Velho da Costa (1938-2020), a escrita indomável

Escritora morreu aos 81 anos na sua casa, em Lisboa
Maria Velho da Costa (aliás, Maria de Fátima de Bivar [Moreira de Brito] Velho da Costa) foi uma voz inconfundível na literatura portuguesa.

Prémio Camões 2002, escreveu romances, contos e teatro. Apesar da sua entrada tardia no meio literário e dos períodos espaçados entre a publicação de livros, o seu legado é feito de verdadeiros monumentos literários.
Dela se regista a conhecida participação na notável obra Novas Cartas Portuguesas (1972), em que, com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno, numa coleção dirigida por Natália Correia, reescreveram à luz do século XX as Cartas Portuguesas da freira Mariana Alcoforado. No livro, as «Três Marias», como desde então ficaram conhecidas, reúnem um conjunto de textos que formam uma obra que as próprias denominaram de «inclassificável», por fugir à arrumação tradicional das ordens e géneros literários, juntando cartas, ensaios, poemas e fragmentos onde se expõe intertextualmente o poder arbitrário do patriarcado, as injustiças cometidas sobre as mulheres e a opressão em que o país vivia mergulhado, sob uma ditadura longeva assente numa guerra colonial absurda e cruel. Obra coletiva, dialógica, resultado do encontro de três grandes escritoras, ainda hoje não se sabe quem escreveu o quê, por vontade expressa e patada das autoras. Pela sua ousadia transgressora, enfrentaram as garras da censura e da polícia política, num mediático processo judicial antes do 25 de Abril.

Os romances de Maria Velho da Costa desafiam também a expetativa dominante. Sempre com um pé no real, dando particular atenção aos conflitos de classe numa sociedade tão desigual como a portuguesa (Maina Mendes (1969), Casas Pardas (1977)), não deixam de trabalhar a linguagem sob novas formas, jogando com a sequência cronológica e a hierarquia narrativa, muito por declarada influência do autor de Ulisses, de James Joyce. Maria Velho da Costa vive escrevendo-se, pelo ofício tão subtil quanto intenso da reinvenção das formas tradicionais de escrita.
«CONSIGO NÃO ESCREVER COM A MAIOR DAS FACILIDADES»
Já com Myra, o seu último romance publicado, que conta a história de uma jovem imigrante russa em Portugal, venceu o Prémio PEN Clube de Novelística, o Prémio Literário Correntes d’Escritas, o Prémio Máxima de Literatura e o Grande Prémio de Literatura dst.

Outro aspeto que merece ser destacado prende-se com a capacidade de articular uma análise sociológica das personagens e seus contextos com uma complexa trama pessoal. Não por acaso, Maria Velho da Costa foi bolseira Gulbenkian de Sociologia (tendo escrito um valioso ensaio - Ensino Primário e Ideologia, em 1972 - onde se analisa e desmonta o trabalho de dominação simbólica da ditadura) e embrenhou-se pela psicanálise, tendo completado o curso de Grupo-Análise da Sociedade Portuguesa de Neurologia e Psiquiatria.

Voz indomável, mulher livre, palavra inventiva.
Eis o retrato breve de uma escritora que, pela literatura e pela vida, afirmou a luta pela dignidade e insubmissão das mulheres.
«Novas Cartas Portuguesas», de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta

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