Ruben A., um lugar inquieto da nossa literatura

Ruben A. nasceu em Lisboa, a 26 de maio de 1920
«Escritor único, pelas temáticas e pela prodigiosa invenção da sua escrita, Ruben A. atravessou como um meteoro a cena literária portuguesa, desconcertando a crítica, espantando os seus nunca muito numerosos leitores e legando-nos uma obra para a qual, cem anos depois do seu nascimento, ainda é difícil encontrar um lugar especificamente português.» António Mega Ferreira


Contemplar a vida e a obra de Ruben A. passados cem anos do seu nascimento é, na verdade, pensar a vida de um homem que viveu em si muitas vidas diferentes. A da infância passada na Quinta do Campo Alegre no Porto, pertencente à família materna – uma paisagem mítica que partilhou na escrita com a prima Sophia de Mello Breyner Andresen. A de atleta premiado de golfe e ténis, a de aluno do mestre Agostinho da Silva. Ou até aquela outra de leitor de português em Inglaterra onde ensinou, encenou peças e conheceu T.S. Eliot. Em Ruben Andresen Leitão sempre conviveram muitas facetas. Foi um historiador exímio com vários estudos publicados, especialmente sobre D. Pedro V e membro da Academia Portuguesa de História. Desempenhou várias funções ao longo dos anos: foi professor, funcionário da Embaixada do Brasil, administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Foi um cidadão atento, interventivo. Organizou espetáculos de cariz cultural, divulgou a cultura portuguesa foi, a título de exemplo, um dos sócios fundadores do semanário Expresso. Distinguiu-se como um apaixonado defensor do património cultural do país.
 
«ESCREVO PARA TENTAR VIVER AQUILO QUE É VIVIDO EM MIM»
E se em outros autores estas facetas poderiam ser meros aspetos biográficos, em Ruben A. todos estes episódios marcam a vida, mas sobretudo a escrita. Como notou o autor numa entrevista: «Escrevo para tentar viver aquilo que é vivido em mim, publico para encontrar em outros, que não conheço, alguma forma de diálogo.»
Ruben sabe que como o poeta francês Rimbaud também ele é um outro. E é neste exercício de desdobramento constante que vai construindo ao longo de mais de vinte anos uma obra de uma assumida modernidade que desafia a linguagem, os géneros e as classificações. A par da escrita de forte cariz autobiográfico de Páginas e de O Mundo À Minha Procura, escreve também contos (Cores), teatro (Triálogo – Júlia – Relato 1453), novelas (O Outro que Era Eu) e romances (Caranguejo, A Torre da Barbela, Silêncio para 4, Kaos, editado já postumamente). As suas obras são recebidas de forma discreta, com o próprio autor a admitir que perdeu dinheiro com todos os livros que publicou. Ou então com escândalo como em 1950 quando o segundo volume de Páginas chega às mãos de Salazar. O acontecimento daria origem a uma virulenta crítica onde o ditador denuncia «páginas inteiras completamente ininteligíveis e irredutíveis na análise das regras da gramática portuguesa, recheadas de termos de invenção do autor e formadas sem tom nem som. Explora-se o reles, o ordinário, o palavreado porco, não só da língua literária, mas do falar corrente.» Concluindo que «o Autor não pode representar Portugal nem ensinar português», episódio que estaria aliás na origem do afastamento de Ruben A. do ensino de português em Londres e o seu posterior regresso a Portugal.
 
«ENQUANTO SE LÊ NÃO HÁ TEMPO PARA MALDADES»
O autor morreria cedo, aos 55 anos, em 1975, pouco tempo depois de ser convidado para dar aulas na Universidade de Oxford e quando o país ainda despertava aos poucos de um longo período de ditadura. Apesar de todos estes obstáculos, destaca-se em Ruben A. um homem apaixonado pela música, pela pintura, pelas viagens, que bebia com curiosidade e entusiasmo a vida para a transformar numa prosa originalmente sua e que ainda hoje não encontra eco em toda a Literatura Portuguesa. O «maluco do homem», como lhe chamou Salazar, deixou nas letras portuguesas um testemunho do seu tempo, uma lição de individualidade e de diferença, mas também uma crítica feroz da pequenez do país, de certos traços da portugalidade que satirizou como poucos. No centenário de Ruben A. a melhor homenagem será lê-lo porque, como bem notou o autor, «enquanto se lê não há tempo para maldades, a existência humana pode não melhorar com a receita de leituras, mas de certeza que não piora, o que já é notável.»
 
OBRAS IMPRESCINDÍVEIS
Páginas
Páginas I, publicado em 1949, seria não só o primeiro livro publicado por Ruben A., mas também o primeiro de seis volumes editados entre 1949 e 1970. Em Páginas é evidente a forma como deste o início a escrita de Ruben A. resiste à catalogação. Diário? Memórias? Ficção? Livro de Viagens? Páginas é tudo isso e nenhuma destas coisas. Um retrato vivo do seu autor e simultaneamente do país (e muitas vezes da Europa) ao longo de mais de vinte anos.

Caranguejo
Livro insólito, como bem observou Eduardo Lourenço, no panorama literário dos anos 50. Caranguejo é um livro ao contrário, que começa no décimo capítulo e vai andando para trás, onde as personagens não têm nome e as páginas não têm número. A história de um casamento entre «Ele» e «Ela» é também um romance de crítica social. Um livro que desafia o seu leitor.

A Torre da Barbela
Descrito por José Augusto-França como «um dos mais importantes romances da língua portuguesa moderna», é um romance onde se cruzam tempos, ficção e realidade, o trágico, o cómico, o fantástico, o lado de ficcionista, mas também o lado de historiador de Ruben A. Nas palavras do seu autor: «Uma história cujo único tema é: o absurdo. A família Barbela identifica-se com a história de Portugal, com os oito séculos da história de Portugal.»

O Mundo à Minha Procura
O retrato de um homem à procura de si mesmo, um livro que nasce da «premência absoluta de radiografia para ver o que está e o que anda lá dentro.» Dos primeiros anos na Quinta do Campo Alegre, da adolescência à juventude, os três volumes que constituem O Mundo à Minha Procura encerram em si a ternura da infância, os primeiros amores, os anos da Segunda Grande Guerra, mas também a fina ironia e o aguçado sentido de observação que caracterizam toda a escrita de Ruben A.

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