Maria Gabriela Llansol: o mundo como texto

Maria Gabriela Llansol
Considerada por muitos como uma das vozes mais inovadoras da ficção portuguesa contemporânea, Maria Gabriela Llansol (1931-2008) inaugurou uma forma de escrever: o texto como uma extensão do mundo; o mundo como texto.

Não são contos, diários, ensaios ou romances. Talvez quadros, telas abertas à imaginação, fronteiras diluídas entre prosa e poesia, meditações nem sempre inteligíveis para o leitor comum. A sua obra nunca coube nos cânones herméticos ou hermenêuticos.

Escritora portuguesa de ascendência catalã pelo lado materno, Maria Llansol nasceu em Lisboa em 1931 e exilou-se, com o marido na Bélgica, em 1965. Regressou a Portugal vinte anos mais tarde, tendo fixado residência em Sintra, onde viveu até 2008, o ano da sua morte.

Publicou 24 livros e deixou dezenas de milhares de páginas escritas. Num desses cadernos, constava o seguinte: «Não imaginava a morte como o fim da vida e de si mesma, mas a continuação, sob a forma desconhecida de metamorfoses, de outros ocultos fenómenos vistos sob a perspectiva da viagem infinita.»
«A SUA ESCRITA É DE UMA INAUDITA E JUBILANTE ABERTURA A TUDO QUANTO É VIVO, A TODOS OS SERES (PESSOAS, ANIMAIS, PLANTAS)» - António Guerreiro, Jornal Expresso (2008)
O ensaísta e crítico literário João Barrento, responsável pelo espólio da escritora e fundador do Espaço Llansol, deixou-nos algumas considerações sobre o seu indelével legado:

A obra de Maria Gabriela Llansol é a de uma escritora que se dizia simplesmente «escrevente» (porque «não faz livros, limita-se a escrever», intensa e quotidianamente), alguém que um dia, nos seus começos, ao ver-se «sem normas» no panorama literário que a rodeava, operou uma das mais originais inflexões no século XX pós-Pessoano. O que leva Eduardo Lourenço, numa grande entrevista de 2008, a reconhecer que «quem a encontra é difícil não ficar fascinado por essa escrita fulgurante, que não tem nada que se lhe possa comparar», e a vaticinar que «Gabriela Llansol será o próximo grande mito literário português» depois de Pessoa.

A obra singular de Llansol criou de facto, desde O Livro das Comunidades (1977) e em perto de trinta livros, um universo único de linguagem, de figuras históricas e quotidianas, uma nova paisagem humana alimentada por uma visão universal e sem hierarquias. Ler Llansol leva-nos a perceber como «escrever é o duplo de viver» – e vice-versa: a escrita é uma pulsão vital –, e também a reaprender modos de ler que passam por uma nova estética (do fulgor da palavra, da língua sem impostura, das dobras do mundo) e uma nova ética (a da liberdade de consciência, dos esquecidos da História, dos inteiros e intensos).

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