Livros a que mudaríamos o fim

Por Ludgero Cardoso/Álvaro Curia
@Literacidades
17 de janeiro de 2020
Alguns finais não nos deixam muito satisfeitos com a opção do autor. Ou, então, somos apenas nós a querer ser os deuses da história. Se o autor assim o apresentou, assim o leremos. Mas não deixamos de imaginar outro desenlace, à semelhança do que fazemos com episódios da nossa própria vida...




PARA ONDE VÃO OS GUARDA-CHUVAS
O fascínio que um determinado Oriente Médio exerce sobre o nosso imaginário não se esgota no exótico das cores e no arenoso das paisagens. É muito mais do que isso. Terreno fértil de fábulas, entre o que é real e o possível imaginar, um espaço onde as emoções são testadas à intensidade máxima, onde talvez o calor tórrido aja no sentido de alucinar quem a ele não pode fugir. Neste Oriente Médio, imaginado por Afonso Cruz, há sobretudo um pai que procura o Bem, uma mãe que nos indigna e duas crianças que sonham para onde vão os guarda-chuvas.
Há muitas histórias paralelas neste livro. Mas serão tão paralelas assim? A mestria do autor nota-se na forma como vai tecendo a trama, entrelaçando as personagens, dando-lhes tanta alma que chegamos a acreditar que se deslocam sozinhas naquele mundo criado. A este tecido tão rico junta-se a surpresa. O autor trata de deslocar o óbvio para um terreno onde este perde a razão de ser. O destino, o pôr do sol, a criança perdida no mercado, os dentes tortos que a irmã não sabe que tem, jogam muito mais na ação do que os grandes eventos e as grandes revelações.
Como pano de fundo, a violência para com os menores e as mulheres. Aqui, nunca descansamos: podemos pausar para observar as fotografias e seguir as imagens, mas o nosso coração está em constante sobressalto, concorrendo para um final que nos põe perante o irreversível como se estivéssemos a ser esbofeteados num exíguo quarto para onde fomos sequestrados. No final, ficaremos talvez sem saber o destino de uma personagem que nos conquistou de imediato… é o inesperado, como Afonso Cruz tão bem sabe fazer acontecer.
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ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ
E se em vez de dizer que conseguia ver, dissesse que estou lúcido? Faria de mim menos cego? Se um país inteiro se levanta e afirma com firmeza, alguma dureza até, que não vai por onde o mandam. Que todos os governos se sentiram oprimidos e desataram a desertar da capital.
Abandonados, os habitantes nunca se tinham sentido tão acompanhados, na sua responsabilidade de seres comunitários. O jornal no sítio, o café quentinho, a torrada com tanta manteiga quanto aquela fome de meio da manhã pode aguentar. Mas, de alguma forma, resta fora dessa cidade alguém que a observa e que repete «mas isto não pode ser». «Mas, camarada, eles não podem dar-se sem nós. Vê aquela mulher, ela, a primeira e única, com que desdém passeia o seu cão e com que gestos nenhuns nos desafia.»
E então tudo é trama e enredo e fecho e desfecho. A lucidez não é mais do que uma cegueira escancarada. É, ainda assim, ela a única que continua a ser capaz de dizer: «vejam bem, que não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar.» É dessa gente madura que ficamos sem saber o rasto. São aquelas duas últimas páginas ignoradas, a intenção de as arrancar ao peito do livro: «não, assim não.» Antes que nos tornemos imagens sem esperança, meras «estátuas de febre a arder», derrubemos a possibilidade daquelas duas páginas se tornarem fibra e osso. Olhemos a humanidade de frente, desafiando-lhe o sentido.
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A HISTÓRIA DE UMA SERVA
Extremistas cristãos de direita derrubaram o governo norte-americano e queimaram a Constituição. A América é agora Gileade, um estado policial fundamentalista onde as mulheres férteis, conhecidas como Servas, são obrigadas a conceber filhos para a elite estéril.
Margaret Atwood decide encerrar o livro com anotações históricas sobre A História de Uma Serva, colocando num suposto Décimo Segundo Simpósio sobre Estudos Gileadianos em 2195, dois professores universitários, que à medida que vão falando sobre o que poderá ter acontecido em Gileade, recorrendo a cassetes gravadas pelas vítimas e diários (sobretudo da anónima, mas o leitor facilmente percebe que falam de Defred), demonstram, por vezes, uma certa dúvida e desconfiança do que realmente terá acontecido. Mais uma vez, o papel da mulher é sempre posto em causa.
O final do livro levanta algumas questões: o que realmente aconteceu? Terá sido tudo fruto de imaginação de algumas mulheres? Até nós nos questionamos como é que aquele modelo de governação se sustentou durante tanto tempo e permaneceu em Gileade. Um final esperançoso teria sido o mais adequado ou então um mais brutal, mas concreto e não com esta nuvem de dúvida e desconhecimento.
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