As nossas melhores leituras de 2021
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@literacidades
17 de janeiro de 2020
Se escolher um livro para ler, entre tantos outros, já é difícil, então escolher as melhores leituras deste ano torna-se ainda mais difícil, sobretudo quando foi um 2021 com livros muito bons. Conseguimos chegar a um top 3 pleno de leituras que nos fizeram sentir na pele o quotidiano das personagens… ou das pessoas reais retratadas.
COISAS DE LOUCOS
Este livro devolve a dignidade a uma série de pessoas que dela se viram privadas ao serem encarceradas num hospital psiquiátrico, quando a regra era prender o «louco» para a vida.
Ao longo dos séculos, a saúde mental foi um campo de experimentalismos brutais, retratados com alguma teatralização em séries e filmes, mas que nada tinham de humano. Os eletrochoques, os interrogatórios, a privação de liberdade, a lobotomia, eram práticas comuns, vivendo o doente mental num limbo entre um condenado e um inquilino de um lugar onde não queria viver.
Catarina Gomes interpreta, investiga e organiza uma série de biografias a partir de objetos encontrados em caixas do antigo «Manicómio Bombarda». Partindo apenas de meras pistas, consegue descobrir quem foram e retirá-los de um anonimato forçado. Encontramos pessoas com sonhos, com ambições, com família. Em todos eles, um sentimento comum: o de que estar ali era temporário. As cartas que enviavam à direção, os planos que faziam, a vida sobre a qual queriam ter novidades, mas que já era absolutamente irrelevante...
A autora consegue fazer passar este sentimento de angústia, do mendigar de pequenos direitos e das importantes conquistas, apresentando-nos um leque de seres humanos cuja vida e singularidade não foram respeitadas. A sensação no fim deste livro é a de tempo suspenso, da irreversibilidade das opções e de como tudo são processos, cujo fim, cuja resolução, pode nunca acontecer.
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Ao longo dos séculos, a saúde mental foi um campo de experimentalismos brutais, retratados com alguma teatralização em séries e filmes, mas que nada tinham de humano. Os eletrochoques, os interrogatórios, a privação de liberdade, a lobotomia, eram práticas comuns, vivendo o doente mental num limbo entre um condenado e um inquilino de um lugar onde não queria viver.
Catarina Gomes interpreta, investiga e organiza uma série de biografias a partir de objetos encontrados em caixas do antigo «Manicómio Bombarda». Partindo apenas de meras pistas, consegue descobrir quem foram e retirá-los de um anonimato forçado. Encontramos pessoas com sonhos, com ambições, com família. Em todos eles, um sentimento comum: o de que estar ali era temporário. As cartas que enviavam à direção, os planos que faziam, a vida sobre a qual queriam ter novidades, mas que já era absolutamente irrelevante...
A autora consegue fazer passar este sentimento de angústia, do mendigar de pequenos direitos e das importantes conquistas, apresentando-nos um leque de seres humanos cuja vida e singularidade não foram respeitadas. A sensação no fim deste livro é a de tempo suspenso, da irreversibilidade das opções e de como tudo são processos, cujo fim, cuja resolução, pode nunca acontecer.
ALMOÇO DE DOMINGO
É quase como conseguir esticar a mão e abarcar com esse gesto todo o estio alentejano. Fazer caber a vida em três dias, deitarmo-nos a conjugar o verbo «lembrar-se» sempre na primeira pessoa. Do singular e do plural. Pontuar o desfile das memórias, dos anos a passar e do tempo a fugir-nos dos pés à conta de tanto percorrer caminho. Almoço de Domingo é de uma ternura implacável. E se a vida fosse um dia?, pergunta-se o senhor Rui. Seríamos manhã, cheia de promessas, ou anoitecer, cheio de perplexidades? Os noventa anos do senhor Rui colocam-no numa linha fininha, algures no tempo das lembranças.
Neste livro há uma senhora que escreve uma carta a um ditador pedindo-lhe que salve o filho da guerra; há uma menina frágil, cujo peito lhe vai depenando a vida; há um homem que tenta derrubar fronteiras entre países; uma modista modesta, tão prestável; miúdos que brincam com as faíscas dos peões e um sol abrasador de Alentejo, grande e alto. Existe um homem e a sua família. E tudo aqui é verdade, é a magia realista. Acompanhamos três dias que são presente cheio de passado. Que eram presente e hoje são passado, mas foram escritos como futuro.
O senhor Rui, querido, a sua mulher Alice, tão atenta. E tanto chão que a certa altura ele foge-nos e ficamos a pensar quanto de nós havia nestes tempos. Reconhecemo-nos nestas lembranças de alguém com mais meio século do que nós; fizemos nossos, momentos que a história nos dizia que aconteceram muito antes de nascermos.
A literatura cumpre-se quando ficamos mais ricos. Uns ricos diferentes. Daqueles que encontram, entre paredes de alabastro, o seu espaço num livro. Almoço de Domingo, de um só fôlego, entregou-nos memórias que, sem saber, eram todas elas nossas.
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Neste livro há uma senhora que escreve uma carta a um ditador pedindo-lhe que salve o filho da guerra; há uma menina frágil, cujo peito lhe vai depenando a vida; há um homem que tenta derrubar fronteiras entre países; uma modista modesta, tão prestável; miúdos que brincam com as faíscas dos peões e um sol abrasador de Alentejo, grande e alto. Existe um homem e a sua família. E tudo aqui é verdade, é a magia realista. Acompanhamos três dias que são presente cheio de passado. Que eram presente e hoje são passado, mas foram escritos como futuro.
O senhor Rui, querido, a sua mulher Alice, tão atenta. E tanto chão que a certa altura ele foge-nos e ficamos a pensar quanto de nós havia nestes tempos. Reconhecemo-nos nestas lembranças de alguém com mais meio século do que nós; fizemos nossos, momentos que a história nos dizia que aconteceram muito antes de nascermos.
A literatura cumpre-se quando ficamos mais ricos. Uns ricos diferentes. Daqueles que encontram, entre paredes de alabastro, o seu espaço num livro. Almoço de Domingo, de um só fôlego, entregou-nos memórias que, sem saber, eram todas elas nossas.
DEUS PÁTRIA FAMÍLIA
Se já é historicamente aceite que Viriato era andaluz, que de lusitanos temos tanto ou menos quanto de celtas, árabes ou romanos, o mesmo consenso não existe para todas as narrativas criadas para os portugueses no séc. XX. A figura de Salazar, a redoma do Estado Novo, os milagres de Fátima e a (não) participação portuguesa na II Guerra Mundial cobrem-se de especulações, devido à falsa crença de que a análise histórica pode ser ficcional ou opinativa e não um método baseado em pesquisa, contraposição e interpretação de fontes e dados.
Hugo Gonçalves, neste livro, ficciona o recheio da portugalidade dos anos quarenta do séc. XX. O que temos é um romance em que página sim, página não, nos questionamos sobre o que há de historicamente verdadeiro no que o autor descreve. Vamos, rédea solta, vento em popa, ver onde nos leva o autor ao recriar e imaginar uma história alternativa daqueles anos.
Foi um dos livros que nos deu mais gozo ler nos últimos tempos. Se há um tom de mistério marcado, há também o de intriga política, análise social, humor, retrato de época e conspiração. Foi uma experiência por si só, de vários tons. Estamos constantemente a viajar entre estilos, a questionar, a urdir teorias, para chegarmos a uma trama que nos aporta numa história empolgante, que tem como base os pilares de um certo séc. XX português: Deus, Pátria e Família.
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Hugo Gonçalves, neste livro, ficciona o recheio da portugalidade dos anos quarenta do séc. XX. O que temos é um romance em que página sim, página não, nos questionamos sobre o que há de historicamente verdadeiro no que o autor descreve. Vamos, rédea solta, vento em popa, ver onde nos leva o autor ao recriar e imaginar uma história alternativa daqueles anos.
Foi um dos livros que nos deu mais gozo ler nos últimos tempos. Se há um tom de mistério marcado, há também o de intriga política, análise social, humor, retrato de época e conspiração. Foi uma experiência por si só, de vários tons. Estamos constantemente a viajar entre estilos, a questionar, a urdir teorias, para chegarmos a uma trama que nos aporta numa história empolgante, que tem como base os pilares de um certo séc. XX português: Deus, Pátria e Família.