Julgámos os livros pela capa!

Por Álvaro Curia/Ludgero Cardoso
Quem nunca julgou um livro pela capa que atire a primeira pedra. Muitas vezes nem sequer pegamos num livro porque a capa é feia de mais para o nosso gosto e acabamos por perder grandes histórias. Felizmente o contrário também acontece: a capa é bonita e o conteúdo da obra é de deixar o leitor encantado. As próximas sugestões falam por si!


 
TORTO ARADO
Opinar sobre a capa de Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, sempre foi um assunto polémico para nós, sobretudo se a compararmos com a edição brasileira que é belíssima e cheia de significado. E se pensarmos ainda que o autor sugeriu que na edição portuguesa fizessem uma capa a partir de um retrato do fotógrafo italiano Giovanni Marrozzini até nos dói o coração. A Leya optou por outra via: sobrepôs dois rostos femininos num pôr do sol com pássaros a voar.
O mais irónico disto tudo é que a ilustradora da capa brasileira, Linoca Souza, teve como inspiração o retrato sugerido por Itamar para a edição portuguesa, sem nunca terem trocado ideias. Assim, nessa capa vemos duas mulheres, de mãos dadas, com duas espadas-de-São-Jorge na outra mão, preparando o leitor para uma história fortíssima.
Torto Arado venceu o Prémio Leya, o Prémio Jabuti 2020 e o Prémio Oceanos 2020 com todo o mérito. Dentro dos assuntos abordados neste livro, o que mais se destaca são os resquícios da escravidão no Brasil, abolida trinta anos antes deste enredo. Através da história de duas irmãs, Itamar Vieira Junior levanta, de forma minuciosa, questões sobre a História daquele país e de tantos outros que passaram pelo mesmo. Afinal de contas o que resta aos que trabalharam forçadamente durante anos naquelas terras, que viram nascer, crescer e morrer outros iguais? Como é que um povo se pode sustentar não lhes sendo reconhecido um pedaço de terra para viver e cultivar?
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AS AVES NÃO TÊM CÉU
Uma das mais belas capas dos últimos tempos pertence a este As aves não têm céu, de Ricardo Fonseca Mota. Sem cair na melancolia possível que poderia estar associada a um título tão forte como este, a imagem do homem pendurado, com o casaco ao contrário, cabeça escondida, deixa muito espaço para a interpretação e relaciona-se fortemente com este romance. Num primeiro olhar, nem entendemos bem aquela figura, confundindo-se com a de um animal, talvez um pássaro. A curiosidade fica, assim, ao rubro.
Quanto à história, esta tem o peso do coração. Se o Cubismo tivesse tido a mesma importância na literatura que teve na pintura, seria assim. Impera aqui a fragmentação da realidade na implosão de flashes muito cinematográficos, onde o autor vai sobrepondo assuntos, trazendo memórias, intercalando temas que formam uma amálgama geométrica mas encadeada.
Conta-nos a história de um pai que foi de certa forma responsável pela morte da filha e do peso que carrega. Mas pode não ser isto. É, decerto, um relato da noite que existe para todos, são sketches de esquinas e praias, urgências de hospitais e o silêncio da cidade adormecida que contrasta com o peso da maquinaria dentro da cabeça.
Neste livro, semifinalista do Prémio Oceanos 2021, o autor conta-nos que as aves não têm céu para voar, tal como não temos forma de escapar a uma determinada inevitabilidade geométrica da nossa própria história.
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O HOMEM DO CASACO VERMELHO
Vivia-se a Belle Époque, os trajes eram exuberantes, os gestos afetados e calculados. Descobrimos mais tarde que este não seria tanto um casaco vermelho quanto um robe de quarto carmim. E o bom aspeto do jovem médico, que conhecemos nas primeiras páginas, deixa logo entrever uma história de conquistas e duelos à boa moda da altura.
O período compreendido entre as duas últimas décadas do século XIX e o início da I Guerra Mundial, a Belle Époque, foi um tempo de excessos. Os dândis mergulhavam em bebida, sexo e coscuvilhice, perdiam-se a arranjar inimigos e os duelos eram a norma, disputados pela mais trivial das questões.
Desse retrato sobressaem três mosqueteiros: Pozzi, o «doutor deus»; Colignarc, o príncipe caído em desgraça, e Montesquiou, gay no armário mas cravado de brilho. E estão bem acompanhados: Oscar Wilde, Marcel Proust e Flaubert são personagens que dão o ar da sua graça. Parecemos constantemente mergulhados num ambiente boémio, onde o contraste com o puritanismo britânico é sempre evidenciado. Neste livro, temos não-ficção com a beleza com que se conta uma história.
O livro é uma biografia do atraente Pozzi. Mas, mais do que fazer justiça a um dos médicos mais importantes para a profissionalização dos tratamentos ginecológicos, é a biografia de uma época.
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