Literatura sobre amor
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17 de janeiro de 2020
É um tema tão badalado que chega a ser clichê. Ainda assim, ninguém o entende. Vamos a escritores que tentaram encará-lo.
A PAIXÃO DO JOVEM WERTHER
Será o expoente máximo do romantismo e ali está tudo: exagero, intensidade, tragédia. Werther ama Lotte com tamanha obsessão que tudo o que lhe dá nos soa a ridículo. Por um lado, é possível querer meter-lhe uns travões. Por outro, não há como não querer embarcar na tragédia a que Werther resolve conduzir a sua vida. Apaixonado pela insípida Lotte, casada com outro, Werther fica derreado e esgotado, caído num abismo sem rumo. O leitor percebe que se condena, quer sussurrar-lhe um «Arranja outra vida», mas quem ainda está molhado não ouve a voz que lhe diz que a tempestade há de acabar. E Goethe, no meio de uma tragédia quase idílica, pouco mais fez do que gozar com o sentimentalismo da época.
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FOLHAS CAÍDAS
Para além de uma construção sensorialista, eis a fúria de Garrett. Explorando os sentidos, mencionando-os e repetindo-os, dando tanta atenção à componente lógica da estrutura interna dos poemas como à realidade física, eis emoção, carne, dor em bruto. Nestes poemas, metade é ironia, metade é desespero. No centro, estará Rosa Montufar, também no centro de Cartas de Amor à Viscondessa da Luz, embora o segundo seja terno e o primeiro, aqui e ali, soe a vingança de um amor traído. O processo criativo tem máscaras postas, e por isso muita gente que ali procurou verdade terá sido enganada. Há, então, que ler o autor português procurando o verso depurado, os corpos degradados pela fúria sexual, incapazes do amor que a legitimaria moralmente. Há demasiadas coisas num só verso de Garrett.
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DEIXA-TE DE MENTIRAS
A mágoa, a melancolia, a crueza de uma dor em bruto: eis este primeiro amor, pela mãos de Besson. Dois rapazes apaixonam-se e o que mais vale no livro é a febre de um primeiro amor que fica depois de tudo ter arrefecido. Vai cada um à sua vida e a prosa crua tem o efeito de deixar o toque. Ainda por cima, Besson dá-nos a conhecer o futuro à medida que desfia o passado, e por isso a efemeridade de cada momento está sempre a bater, tornando tudo mais intenso. Não bastasse e os rapazes também sabem a priori que aquilo não tem caminho. O livro, que se lê num trago, obriga a parar – também o leitor quererá que aquilo dure um pouco mais. Com uma prosa funcional, sem entulho, Besson vai aonde dói mais e deixa lá a faca para que continue a doer.
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UMA PAIXÃO SIMPLES
Se é coisa que abala a vida, claro que se impõe na literatura. A paixão totalizante deixa toda a gente à-toa. Neste livro, temos a receita para a catástrofe: uma mulher divorciada, já com filhos adultos, e um homem casado, mais jovem. Ela perde a cabeça por ele e os dias tornam-se em coisas suspensas à espera. Isto parece um clichê, e é, até porque os clichês não aparecem por acaso. Tudo parece ir ao osso, a paixão extasia e sufoca, sonega tudo à volta. Para o leitor, fica a pergunta: o que se faz com os dias quando a paixão faz arder o tempo?
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