José Rodrigues: «Tenho muito medo da solidão»

O Tempo nos Teus Olhos é um livro centrado na terceira idade, na possibilidade de se ser feliz até ao fim. Por que é que este tema lhe despertou interesse?
O livro centra-se na terceira idade e o seu personagem principal é Manuel, com 75 anos. No entanto, ao longo do romance, existem personagens relevantes, bem mais jovens, e o amor surge como algo sublime que não exige pré-requisitos etários.
Bem diz o ditado que «o amor não escolhe idades» e, de facto, está ao nosso alcance podermos optar por louvar tudo o que um espírito maduro permite. Chegando lá, poderemos incluir no nosso dia a dia uma série de laços invisíveis de intimidade com o mundo, incluindo amar. Mesmo depois de uma perda dolorosa.
José Rodrigues
José Rodrigues
Este romance nasceu na minha cabeça, num dia absolutamente extraordinário, repleto de momentos que me fizeram refletir. Num belo dia, pela manhã, dirigi-me a uma loja de artigos desportivos para adquirir uns novos e modernos óculos de natação. Na referida secção, fui abordado por um casal septuagenário, que se encontrava a efetuar uma compra para as aulas de hidroginástica e a senhora perguntou-me: - O menino não se importa de nos ajudar na escolha?
Ser tratado por «menino» aos 49 anos é algo de fabuloso. Além do tratamento afetuoso, ainda tive a sorte de ensinar o casal a utilizar o referido equipamento, como se fosse um livro de instruções vivo. Os meus humildes ensinamentos completaram a minha satisfação por ter sido tratado por menino.
Nesse dia, tinha uma consulta com o meu médico de família, andava com algumas queixas abdominais e ia-lhe mostrar uns exames que me tinha prescrito. Depois de analisar, o Dr. Lemos dirigiu-se a mim e, com a habitual simpatia, disse-me:
- O meu amigo José Rodrigues, com estes exames, está um «jovem atleta».
Ainda não tinha chegado o meio do dia e eu já tinha sido «menino» e «jovem atleta». Algo de absolutamente extraordinário.
No final do dia, na aula de natação, o professor entendeu dar-nos alguns ensinamentos de mergulho. Fui incluído numa fila de mergulho, numa das pistas da piscina e, de forma quase automática, a classe de crianças abeirou-se do espetáculo, provavelmente para se rirem dos velhos a mergulhar. Depois do primeiro mergulho, saí da piscina, preparando-me para o segundo mergulho e uma criança, com cerca de 10 anos, chegou-se a mim e disse:
- O senhor, se não quiser ficar com o peito vermelho como está, tem de inclinar mais os joelhos e colocar melhor a cabeça entre os braços esticados.
Assim fiz e resultou.
Como costumo fazer, refleti acerca do dia que estava a terminar. De facto, impressionante. Comecei o dia como «menino», depois «jovem e atleta» e terminei como «senhor».
Mas importante, mesmo importante, foi ter concluído que ensinei como «menino» e aprendi como «senhor». E, de facto, se podemos ser meninos, senhores, jovens e atletas num só dia, talvez possamos ser tudo o que quisermos…
         

«Com a luz do dia raramente escrevo uma letra que seja»


Este é o seu terceiro romance. Como define a sua evolução enquanto escritor?
Não procuro evoluir de uma forma forçada ou programada. Sinto que, de uma forma absolutamente natural, as palavras vão saindo mais facilmente, de uma forma mais madura e, como não poderia deixar de ser, mais sentida. A escrita, o gesto de me sentar a escrever, nunca acontece com horário marcado ou dia certo e penso que isso faz parte do circuito de evolução natural. Depois de reler, tenho ficado com uma sensação interessante e que me satisfaz: sentir que melhorei e cresci.

Ao longo destas páginas, temos várias referências geográficas e temporais. Situar-se no lugar e no tempo foi importante para a narrativa?
Sim. À medida que o livro vai crescendo, vou, de certa forma, sendo teletransportado para cada um dos lugares, para cada um dos tempos. Ao mesmo tempo, sinto que o relógio para em cada um dos lugares ou tempos onde me encontro. Ainda que de forma ilusória, fico com a sensação de que os minutos se transformam em horas e as horas em noites inteiras. Como se conseguisse fazer com que o tempo não passe ou que passe bem mais devagar. Esta sensação, difícil de descrever, agrada-me. Como se me mentalizasse que a ideia de envelhecer deixe de ser uma tarefa árdua contra a qual nada é possível fazer.

«O amor não escolhe idades», nem a idade o impede. É esta a moral da história?
Faz parte de um conjunto bastante vasto que compõe essa moral. «O amor não escolhe idades», mas o amor também não escolhe o tempo nem o espaço. Não escolhe sexo nem religião. Sobretudo, procuro também lembrar-me e lembrar todos os leitores que devemos contentar-nos com o tempo que nos é dado, seja ele qual for, porque não temos outro. Como muito bem escreve a Sara Augusto no seu brilhante prefácio, o avançar da idade pode conseguir colocar-nos acima da morte e dos medos e que a felicidade pode bater à porta quando menos se espera, mesmo depois de longas e atribuladas travessias.

Descreva-nos a sua rotina escrita.
Com a luz do dia, raramente escrevo uma letra que seja. A noite quase sempre me ajuda e inspira. Sem horas certas ou previamente definidas para me sentar. Com a noite acabada de começar ou com a madrugada já perto. Com duas ou três noites passadas sem escrever uma linha, ou com páginas inteiras apenas em algumas horas. Vou espreitando pela janela e gosto de ver o céu coberto de nuvens ou de sentir a chuva a cair, tal como gosto de contemplar as estrelas. Gosto de começar no inverno, sem explicação para isso. Talvez por sentir que a primavera seja a próxima estação a chegar, acreditando, ao mesmo tempo, que uma longa noite de escrita dará lugar a um dia em que as flores e as árvores se querem mostrar cada vez mais bonitas.
Já tentei contrariar isto, procurando escrever alguma coisa em plena luz do dia. Saiu quase sempre asneira…

Quais são as suas inspirações enquanto escritor? Refira três nomes.
Por motivos profissionais, a leitura técnica ocupa muito do meu tempo. No entanto, sou um apaixonado pela «inteligência emocional» e por tudo o que ela envolve. Daniel Goleman faz parte da minha vida, há muitos anos. Leio e releio todas as suas obras, constantemente. Gosto muito de poesia. Por isso, vou referir Cecília Meireles, Mário Quintana e Camões. Sou igualmente um fiel seguidor do blog «Estrada de Prata», de Sara Augusto. Aqui, as palavras que acompanham as fotografias deixam-me quase sempre a pensar sobre o quanto somos breves na nossa existência…

Qual foi o último livro que comprou?
O último livro que comprei foi Atos Humanos, de Han Kang.

E o último que leu?
As últimas linhas destas mãos, de Susana Amaro Velho.

Uma pergunta que nunca ninguém lhe fez e à qual gostasse de responder.
Nunca ninguém me perguntou se tenho medo de envelhecer. Se, entretanto, alguém me perguntar, vou responder: Não tenho. Mas tenho muito medo da solidão.

Sábado, dia 16 de março, às 17h00, José Rodrigues apresenta o livro O Tempo nos Teus Olhos, na Almedina Estádio, em Coimbra.

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