Entrevista a Alexandra Lucas Coelho

Alexandra Lucas Coelho foi durante muitos anos grande repórter do PÚBLICO. Em 2012 estreou-se no romance com «E a Noite Roda», o livro vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela APE. Cinco anos depois, o seu primeiro romance volta a ser editado e nós aproveitamos para conversar um pouco com a autora - sobre livros, escritores e vida.
Existe a gaveta romancista e a gaveta jornalista ou cabe tudo na mesma gaveta?
O ideal é não caber nas gavetas.

Há cinco anos publicava o seu primeiro romance, E a noite Roda, que volta agora a ser reeditado. O que mudou na sua escrita desde que publicou o primeiro romance?
Tudo o que mudou na minha vida. Gente que conheci, lugares onde estive, coisas que vi, li e ouvi. A escrita está sempre em mudança. Cada livro é uma experiência.
Entrevista a Alexandra Lucas Coelho
Alexandra Lucas Coelho
Já escreveu crónicas, romance, literatura de viagem. Em que género se sente mais em casa?
O meu ideal é estar fora de casa de cada vez, para que cada livro não seja conforto, hábito. Vou continuar a escrever crónicas semanalmente, e isso é compatível com continuar a escrever romances, mas também outro tipo de textos que até agora nunca publiquei. Vejo o romance não como um género, mas como um transgénero, portanto nele cabem muitas coisas. Entretanto em Outubro vou estrear-me noutra espécie de coisa, não apenas escrita.

Se tivesse de escolher uma palavra que faça a ligação entre todos os seus livros, qual seria?
Vida.

Há algum tema sobre o qual não goste de ler ou escrever?
Não.

Antes de se estrear na literatura, cobriu várias zonas de conflito como repórter de rádio e imprensa. Já viveu em Jerusalém e no Rio de Janeiro. Como é a sua relação com as pessoas e com os locais após a partida?
Varia. Há regiões a que tenho voltado sempre, como Israel/Palestina ou o Brasil. Outros a que não voltei mais, como o Afeganistão ou a Rússia. Há sempre lugares novos, como este ano a Guiné-Bissau. E tudo depende bastante da relação com as pessoas, de haver amigos lá, ou algumas pontes, o que acontece em vários lugares, gente com quem falo muito regularmente.

Escrever: dá energia ou tira energia?
Ambas. Esgota e dá vida.

Ego: ajuda ou prejudica o escritor?
Ego no sentido de vaidade? Certamente prejudica. Mas se é ego no sentido de autonomia, liberdade, independência, não há escrita sem isso.

Considera que escrever é uma forma de ativismo?
Sim. Activismo como contrário de propaganda. No sentido amplo de política.

Para uns os seus livros são Amantes de Domingo e para outros amores de uma vida inteira a quem devem fidelidade e respeito. Já houve algo que um leitor seu tenha dito ou feito que a tenha marcado para sempre?
Várias coisas ao longo dos anos, de forma e conteúdo. Um exemplo simples: uma vez, há anos já, uma leitora comentou algures que tinha problemas com os meus parágrafos demasiado curtos. Será um resquício dos meus anos na rádio, de escrita curta, sincopada. A rádio é uma escola interessante, e as marcas do texto para ouvir fazem parte do que escrevo. Mas essa leitora tinha razão. Os parágrafos eram repetitivamente curtos, um padrão que tentei desfazer.

Se pudesse jantar com 3 autores (vivos ou mortos), quem escolheria?
Vivos, não escolheria, ia ficar nervosa demais. Mortos, por onde começar? Emily Brontë, Herman Melville, Virginia Woolf, Hugo Pratt, Rimbaud, Sade, Pasolini, Pêro Vaz de Caminha, os ameríndios que compunham narrativas orais quando os portugueses chegaram ao Brasil em 1500, Babur, Marco Polo, os autores das tabuinhas do Gilgamesh, Edward Said, Marguerite Yourcenar, João Guimarães Rosa, Mary Shelley, Agatha Christie, Gertrude Bell, Isabel Burton, Jane Digby, Rilke, Machado de Assis, Amadou Hampâté Bâ...

Livro subvalorizado preferido.
Não consigo pensar nos favoritos como subvalorizados.

Poema que não lhe sai da cabeça.
Não sei de cor poemas inteiros. Não me saem da cabeça muitos versos. Hibernam e estão a sempre a voltar.

Um superpoder.
Estar vivo.

Acredita, à semelhança da narradora de E a Noite Roda, que “as histórias felizes são relâmpagos”? Porquê?
Porque não é possível ser feliz em contínuo. Viver é a coisa mais difícil que há.

O que é que os livros lhe dão para que não pare de escrever?
Muitas vidas.

Projetos para o futuro?
Em Outubro vou publicar um livro que abre um caminho novo (aliás, dois :) ). E em 2018, espero, o quarto romance e algo mais.


Por opção da autora, este texto não foi escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico.

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