Entrevista a António Carlos Cortez

Poeta, ensaísta, crítico literário, professor de Literatura Portuguesa e vencedor do Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores em 2011. Estivemos à conversa com António Carlos Cortez. Leia já.
28 de setembro de 2017
Wook está na sua mesa de cabeceira?
Na minha mesa de cabeceira estão contas por pagar, dúvidas, perguntas, nenhuma ilusão e alguns ideais.

Pense numa pessoa. Wook diria essa pessoa sobre o seu livro Animais Feridos?
Dir-lhe-ia que este último livro precede o próximo. Que neste livro estão animais feridos...
Entrevista a António Carlos Cortez
António Carlos Cortez
Considera que o seu último livro é o melhor que escreveu até hoje?
Um livro, para mais de poesia, é uma lição de humildade. Não será o autor a responder, mas quem queira ler e depois queira dar o seu testemunho.

Escolhe os temas dos livros ou os temas escolhem-no a si?
Os meus livros nascem de situações de ruptura: comigo mesmo, com um outro, com o mundo. Os temas, sempre um pouco obsessivos (as palavras, o tempo, a violência, o corpo, a memória...) sobem à página, depois a linguagem assume um tom e eu procuro trabalhar a forma. Cito António Ramos Rosa: "não é o poeta que faz o poema. O poema é que faz o poeta".

Há algum tema sobre o qual não goste de ler ou escrever?
Não gosto de ler a enxurrada de livros de humor que têm aquela capa literata ou literária. Em tempo detergente convém não pactuar.

Há um provérbio sueco que diz: “Quando o livro é bom, o melhor está nas entrelinhas.” Concorda?
Se o provérbio for da academia do grande prémio que dizer? Sabem eles ler nas entrelinhas? Quando um livro é bom isso acontece porque na linguagem o leitor encontra o que, sem essa linguagem tensa, vibrante, criativa, jamais encontraria: emoção estética.

Já alguma vez sentiu que não vai acabar de escrever um livro?
Não escrevo romance. Nunca senti isso. Senti foi que, em diversas ocasiões, o livro não acrescentava nada... Na poesia, depois de um século XX tão marcante, não conseguir escrever um livro seria prova de consciência do passado literário. Como tenho essa consciência, a questão não é se se consegue acabar um livro, mas sim se esse livro dialoga e acrescenta nexos a um passado que devemos conhecer.

Qual é o seu poema favorito?
Se o poema favorito for um meu, talvez "napalm", ou "o nome negro"... Não sei dizer. Se for de outros autores, não chega uma página para fazer o elenco de poemas que me marcaram... Mas sei que o VIII poema de "O Guardador de Rebanhos", de Caeiro, "Ácidos e Óxidos de Ruy Belo, o soneto "rudes e breves as palavras pesam", de Carlos de Oliveira, ou os sonetos de Camões, as canções (as dez) ou Os Lusíadas (um longo poema de 8816 versos, 1102 estrofes!), a poesia de Cesário, Sena, sophia, a de Fiama e a de Gastao Cruz ou Luis Miguel Nava, a de Luis quintais... Bem... Não sei responder. E isto só se portugueses... Que dizer de Wallace Stevens, de alfonso costafreda e das letras do morrisey?... Leonard cohen e douglas dunn, poderei esquecer-me deles? E as letras de Renato russo, vocalista dos legião urbana?... Não dá pra responder.

Nomeie uma coisa que não gosta que lhe digam.
Não gosto que me digam coisas com diminutivos.

Qual é a pior e a melhor parte de ser escritor?
A pior parte: saber que na literatura "há um campo de manobras" (Cesário Verde). A melhor: "segundo o amor tiverdes tereis o entendimento dos meus versos" (Camões).

Se o dinheiro não fosse uma condicionante, onde optaria por fazer a pesquisa do seu próximo livro?
Na biblioteca de Jorge Luis Borges.

Se pudesse partilhar um jantar com qualquer autor (vivo ou morto), quem escolheria?
Para partilhar um jantar? Dos vivos: Chico Buarque ou Caetano Veloso. De certeza que haveria música e não falaríamos de literatura. Dos mortos? Camões: falar-se-ia da vida e da poesia. Aprenderia imenso, decerto.

Se tivesse um superpoder, qual seria?
O super-poder de Carlos Drummond de Andrade: o poder ultrajovem.

Wook gostaria de ler sobre si?
O que sobre mim tenho lido não está mal... Pra pior, antes assim.

Consegue nomear três autores que o inspiram?
Três autores? Não será a santíssima trindade, mas quase: Camões, Rimbaud, Ruy Belo. Ou Gastão Cruz, Baudelaire e Cesário... Posso continuar: de três em três...

Wook mal pode esperar para ler?
O orçamento de estado.

Wook tem vergonha de nunca ter lido?
O orçamento de estado.

Projectos para o futuro?
Continuar contra o Acordo Ortográfico. Continuar a lutar por uma educação mais culta na escola e na universidade. Viver com verdade.

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