Histórias de amor à filme
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14 de fevereiro de 2024
Perdoe-se o título. A língua portuguesa tem maroscas destas: há mesmo a ideia de que nos filmes a coisa é mais dramática. Mas, desligando-se a televisão ao domingo, arranja-se coisa mais pungente.
A única história
É uma delicadeza de tal forma delicada – sensível e subtil – que é como levar cinco chapadas seguidas. O romance começa com uma pergunta: «Preferiam amar mais e sofrer mais; ou amar menos e sofrer menos?» Só um totó escolherá a segunda opção, e o narrador deste romance não é totó nenhum, embora saiba o que a vida custa quando se põe o pé na poça. Aos 19 anos, apaixonou-se – e do que vem daí até poderia, é certo, deduzir-se que o rapaz era um totó. A senhora Macleod era casada, tinha filhos, e tinha 40 e muitos anos. Dois jogavam ténis, e uma bola atirada de um lado para o outro perde a magia perante o susto do amor. Pela mão de Julian Barnes, é esse susto que o leitor vê – e vê-o como a memória que fica da história contada, da emoção pura como edificação emocional, moral, social. Finda a leitura, não é que haja uma história de amor bonita ou fácil – mas há um leitor desgraçado com a cabeça a andar à roda.
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A paixão do jovem Werther
A sério, alguém dê um ansiolítico ao homem. Um anti-histamínico, um analgésico, um rebuçado de mentol, sei lá. Aquilo não é paixão, já é doença. E, ainda por cima, doença apanhada por causa de Lotte, a insípida Lotte que não tem graça nenhuma. Li-o tantas vezes e pensei-o sempre: mas o que é que ela tem de especial? Nem importa que esteja noiva de Albert, que o amor não escolhe estados civis. Importa que não se perceba a graça do gesto, o timbre da voz, o som do riso. Entra-se aqui num dos mais famosos triângulos amorosos da literatura ocidental – e num dos mais trágicos também. Para Werther, a tragédia foi mesmo ter-se apaixonado. Fechado o livro, o leitor lá pensa: há que não ceder ao cinismo, mas também não é preciso tanto drama.
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O amor nos tempos de cólera
Para muito boa gente – não confirmo nem desminto se faço parte do grupo –, este romance disputa o lugar de primeiro, entre a obra de García Márquez, com Cem Anos de Solidão. Quanto a mim, ninguém se engane: eu acho graça ao exagero. E haverá alguém mais exagerado do que Florentino Ariza? Coitado, aquilo até dá pena: 50 anos à espera de uma mulher. E sempre da mesma, sempre à espera de que a mesma lhe ligasse, de que lhe desse uma sombra de afeto, meio segundo de atenção. Sim, é verdade que pintou um clima quando eram os dois jovens, mas, para ela, esse clima foi ao ar quando lhe ouviu a voz pela primeira vez. O amor idealizado era, afinal, um equívoco, e Ariza esperou um casamento inteiro – uma vida – até que a viuvez dela fosse deixá-la disponível para ele – para o amor dele, ali ainda hirto. Como é literatura, tudo se perdoa. Se for fora dos livros, 50 anos de espera podem ser motivo para fugir.
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