Autor da semana: Stieg Larsson
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28 de julho de 2017
Stieg Larsson | Fotografia: David Lagerlöf / Expo
UM
Stieg Larsson foi, com a série Millennium, o autor responsável por deixar o mundo inteiro de olhos postos no policial nórdico. Criador de duas personagens emblemáticas, Mikael Blomkvist, um jornalista caído em desgraça e, Lisbeth Salander, uma hacker nada convencional e com um passado sombrio, nos seus livros o escritor expôs, com uma profundidade inabitual e uma minúcia quase opressiva, inquietações latentes da sociedade atual, como a violência contra as mulheres, o abuso de crianças e a promiscuidade entre dinheiro e poder.
DOIS
Nascido em 1954 na Suécia, Larsson cresceu com os avós, numa aldeia no norte do país. O avô, Severin Boström, era assumidamente antifascista e durante a II Guerra esteve preso num campo de trabalhos forçados, devido às ideias que defendia. Se fosse dinamarquês, teria certamente sido enviado para um campo de concentração alemão. Esse facto marcou profundamente o escritor, que decidiu desde cedo lutar pela democracia e pela liberdade de expressão, de forma a impedir que a História (e o que aconteceu ao seu avô) se repetisse.
TRÊS
Aos nove anos, depois da morte do avô, precisamente, foi viver com os pais e o irmão mais novo. No 12º aniversário, recebeu de presente uma máquina de escrever, que martelava de forma insistente pela noite dentro, ao longo da juventude, mantendo toda a família acordada com o matraquear caraterístico das teclas.
QUATRO
Não andou na universidade e, depois de terminar a escola e o serviço militar, viajou pelo continente africano, de mochila às costas e quase sem dinheiro. No final da jornada, para conseguir comprar o bilhete de volta para a Suécia, teve de vender as próprias roupas e lavar pratos num restaurante.
CINCO
Trabalhou durante 22 anos numa empresa de multimédia, como designer gráfico. Mas nos tempos livres, influenciado pela história do avô, foi mapeando a evolução dos movimentos de extrema-direita na Suécia, tendo esta pesquisa resultado, em 1991, no seu primeiro livro (de não ficção), escrito em parceria com Anna-Lena Lodenius. Em resposta à obra, um jornal neonazi publicou um artigo com as fotografias dos dois autores, bem como as suas moradas e números de telefone. O texto terminava perguntando se “Larsson deveria poder continuar este tipo de trabalho ou se algo deveria ser feito para impedi-lo.” Na sequência disso, o editor do jornal foi condenado a quatro meses de prisão, mas o episódio deu ainda mais força a Larsson para prosseguir com a sua luta. No início dos anos 80 tinha já começado a colaborar com a revista britânica antifascista Searchlight e, em 1995, fundou uma publicação similar na Suécia, a revista Expo, da qual foi o principal editor.
SEIS
Numa entrevista a um jornal, Anna-Lena Lodenius afirma que já no início da década de 90 Stieg tinha planos para escrever policiais, mas seriam necessários dez anos para que o autor pusesse finalmente o seu plano em prática. O projeto inicial consistia numa série de dez volumes, a saga Millennium, de que escreveu apenas três: Os Homens Que Odeiam as Mulheres, A Rapariga que Sonhava com Uma Lata de Gasolina e Um Fósforo e A Rainha no Palácio das Correntes de Ar. Pouco depois de entregar à editora sueca os três livros, em 2004, Larsson morreu de ataque cardíaco, aos 50 anos, não tendo chegado a assistir ao fenómeno mundial em que a sua obra se transformou.
SETE
Para criar Lisbeth Salander, o autor inspirou-se na famosa personagem de Astrid Lindgren, Pipi das Meias Altas. Começou a pensar no que aconteceria se esta criança fosse agora uma mulher, como seria e o que pensaríamos dela. No entanto, Lisbeth Salander não é a Pipi das Meias Altas, este foi apenas o clique que o levou depois a desenvolver a sua própria protagonista.
Capa do livro Os Homens Que Odeiam as Mulheres
OITO
Aos 18 anos, numa manifestação contra a Guerra do Vietnam, Larsson conheceu aquela que se tornaria a sua companheira, a arquiteta Eva Gabrielsson. Viveram juntos até à morte do escritor, mas nunca casaram nem tiveram filhos. Como Larsson não deixou testamento escrito, isto provocou um problema legal, uma vez que à luz da lei sueca Eva não tem direito ao património do escritor, que transitou assim para o seu pai e para o seu irmão. Eva afirma, no entanto, que estes nunca fizeram parte da vida do casal e considera que não são as pessoas indicadas para gerirem a obra de Larsson.
NOVE
A arquiteta terá, supostamente, em sua posse um computador portátil com o quarto volume incompleto da saga Millennium, Guds hämd (em português, A Vingança de Deus), para além de sinopses ou manuscritos inacabados do quinto e sexto livros da série. Mas como a companheira em vida do escritor não é a responsável pelo seu legado, não permitiu que estes textos fossem trabalhados ou publicados. Entretanto, os gestores legais do seu património entregaram a continuação da série ao também escritor e jornalista sueco David Lagercrantz, que escreveu já os volumes IV e V: A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha e O Homem que Perseguia a Sua Sombra, que terá lançamento mundial a 7 de setembro.
DEZ
Quando combinamos o trabalho intenso e absorvente de Larsson na revista Expo, onde ficava frequentemente até às quatro ou cinco da manhã, com a escrita de livros sobre a extrema-direita, policiais, palestras sobre política internacional, mais de 60 cigarros por dia e refeições irregulares, facilmente percebemos que o escritor era um workaholic clássico. Mas quando o colega e amigo próximo, Kurdo Baksi, o confrontava com esse facto, Larsson respondia, alegremente: “Para o ano será melhor.”
Fonte: stieglarsson.com