Entrevista a Alice Feeney

17 de janeiro de 2020
Ela diz que, mas ele diz que. Quantas vezes ouvimos isto nas discussões entre casais? Agora imagine que o casal em causa já está divorciado, cortou até relações, mas é forçado a reencontrar-se na sequência de um homicídio...
É justamente isto que acontece no primeiro policial de Alice Feeney publicado em Portugal, Ele & Ela, uma história narrada a duas vozes, em que uma delas está a mentir. Quisemos saber mais, claro, por isso fomos falar com a autora.



Alice Feeney
Alice Feeney
Por que é que escreve policiais?
Sempre fui uma leitora ávida e, mesmo quando era criança, preferia ler histórias obscuras e intrigantes. Agora escrevo os livros que gostaria de ler, por isso as minhas obras tendem a ser um pouco sombrias e tortuosas também!


No seu livro Ele & Ela, as personagens principais são a jornalista Anna Andrews e o inspetor-chefe Jack Harper, um casal divorciado que é forçado a reencontrar-se quando ocorre um homicídio na sua cidade natal. Acha que as famílias e as relações muito próximas são um bom contexto para questões de vida e morte?
Gosto de escrever histórias com as quais todos nos possamos identificar. Quase toda a gente sabe o que é amar e ser amado. E a maioria das pessoas já experimentou o desgosto provocado pelo fim do amor. O conflito que existe em todos os relacionamentos é um tema sobre o qual escrevo com frequência, porque acho que é algo com que todos nós preferíamos não ter de viver. Questões de vida e morte são sempre importantes, mas são-no mais quando dizem respeito àqueles que amamos.


 
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Ele & Ela é o primeiro livro da autora publicado em Portugal.
Ele & Ela passa-se em Blackdown, uma pequena vila em que aparentemente nada acontece. Acredita que as localidades pequenas são cenários mais interessantes no que toca a histórias policiais?
Acho que uma boa história pode passar-se em qualquer lugar! Blackdown foi importante para Ele & Ela porque este livro é sobre enfrentar o passado e esta pequena aldeia sonolenta representa tudo o que as personagens estão a tentar esquecer.
A meu ver, as comunidades pequenas, onde toda a gente sabe tudo sobre toda a gente, são fascinantes. Escrevo muitas vezes sobre os meus medos e, como sou bastante tímida e muito reservada, a ideia de viver num sítio assim apavora-me.

Como planeia os seus livros? Sabe sempre quem é o assassino antes de começar a escrever?
Sou muito organizada. Penso durante muito tempo numa história antes de me dedicar a escrevê-la e planeio tudo num quadro gigante antes de escrever uma palavra que seja. Uso cartões de cores diferentes para personagens e linhas temporais diferentes, e sei sempre como será o final antes de começar.
Todos os livros são diferentes, por isso o processo de criação de cada um deles é sempre uma jornada diferente também, mas essa é uma das coisas que tornam este trabalho divertido! Alguns livros são mais fáceis de escrever, outros são mais “bem-comportados”. Nesse aspeto, os livros são como crianças, mas gosto muito de todos eles.
Não existe uma forma certa ou errada de escrever, mas, para mim, começar um romance sem um plano seria como ir fazer uma longa caminhada com o meu cão sem um mapa - passaria o tempo todo com medo de me perder em vez de aproveitar o passeio.


Segundo o seu Instagram, o seu cão é o seu parceiro de escrita. Qual é a sua rotina enquanto escritora?
Sim, o meu cão é o meu dono e é definitivamente o meu parceiro no crime! Esse companheiro de escrita (quase sempre) silencioso passa o dia todo comigo, todos os dias, sentado na cabana onde escrevo, e leva-me a passear quando estou a precisar de fazer uma pausa. Já teve algumas participações especiais nos meus livros, mas não deixou que isso lhe subisse à cabeça!
Gosto de começar a escrever cedo, assim que acordo, se possível, e preciso de silêncio. Não consigo compreender as pessoas que escrevem em cafés, acho que provavelmente são extraterrestres.
A cabana onde escrevo é aconchegante e quente (porque ligo o aquecedor) e tem uma secretária, um sofá confortável e algumas das minhas coisas favoritas (incluindo o meu cão!). Ser escritor é de facto uma profissão de sonho e, quando entro na cabana, de manhã, é como se desaparecesse noutro mundo. Quando a realidade se torna demasiado ruidosa, o que acontece frequentemente, a cabana é um lugar seguro, onde me posso refugiar.


Já alguma vez se assustou com as coisas que escreve?
Sim, já aconteceu! Mas a maior parte das vezes é o meu marido quem fica perturbado com o que escrevo. Ficou tão assustado quando leu o meu primeiro livro que ameaçou dormir noutro quarto da casa!


Qual é o livro mais assustador que já leu?
Rosemary’s Baby, de Ira Levin.


E que policial de outro autor gostaria de ter escrito? Porquê?
Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie, porque tem uma das minhas reviravoltas favoritas.


Qual é a sua palavra assustadora preferida?
Acho que é a palavra «pés» porque tenho pavor de pés! Mas também gosto muito da palavra «Bu!».


Qual é a sua paixão ou hobby mais surpreendente?
A minha maior paixão é escrever (o que não é nada surpreendente, eu sei!). Também adoro cozinhar e gosto de cantar e dançar enquanto estou na cozinha!


Se pudesse jantar com uma personagem de ficção, quem escolheria?
Hercule Poirot.


Qual é o maior mistério por resolver?
Gostaria muito de saber o que aconteceu a Amelia Earhart.

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