Entrevista a Paula Hawkins, a escritora britânica de thrillers perfeitos

Por Patrícia Freitas
30 de janeiro de 2025
Paula Hawkins
Desde a publicação do seu primeiro thriller, o fenómeno A Rapariga no Comboio, Paula Hawkins tem vindo a superar-se a cada livro. Não admira que o mais recente, A Hora Azul, seja o melhor - e um thriller absolutamente brilhante. Ambientado numa ilha remota, acessível apenas na maré baixa e com uma única casa, o livro começa com uma descoberta inusitada: o osso usado numa das obras da aclamada artista Vanessa Chapman, em exposição na Tate, poderá ser humano. Não ajuda que o marido da pintora, que lhe era assumidamente infiel, tenha desaparecido sem deixar rasto há anos... Para tentar perceber o que se passa, Becker, que trabalha para a fundação responsável pelo espólio de Chapman, é enviado a essa ilha isolada, onde esta passou os últimos anos, e que é agora a casa de Grace, uma amiga da artista. O que se segue é uma inteligente história sobre obsessão, arte e o que significa ser realmente livre. Fomos falar com a autora para descobrir como se constrói o thriller perfeito.*

Vanessa Chapman está no centro do seu novo romance, A Hora Azul, mas já está morta quando o livro começa. Quando decidiu que ela seria uma presença fantasmagórica ao longo do livro, à semelhança de Rebecca, de du Maurier?
Sabia que queria escrever sobre uma artista, mas só quando comecei a pensar no enredo é que me apercebi de que ela já estaria morta quando o livro começasse. Cheguei a considerar acrescentar à história uma segunda linha temporal, mas depois decidi incluir o elemento do diário. Isso foi útil, porque permite ao leitor aceder ao que Vanessa pensava e sentia sobre o seu trabalho e a ilha, mas também funcionou como um ponto de tensão fundamental na narrativa: a propriedade das cartas e dos diários de Vanessa é disputada, o que é mais uma razão para Becker viajar para a ilha, e mais um ponto de conflito e negociação entre ele e Grace.
As obras de Chapman estão tão presentes no romance, e são descritas de forma tão vívida, que é difícil lembrar-nos que não são reais e que não podemos simplesmente procurá-las no Google Images. Sempre teve uma ligação com as artes visuais? Há algum artista ou obra específica que tenha inspirado as obras de Vanessa?
Houve algumas inspirações para as pinturas, mas a mais forte foi a pintora escocesa Joan Eardley, que pintava paisagens terrestres e marítimas. Li uma biografia de Barbara Hepworth enquanto escrevia o romance, assim como o maravilhoso livro de memórias de Celia Paul, Self Portrait, pelo que também foram fortes influências.
 
«É interessante como as pessoas reagem ao que sofreram na vida: algumas encontram uma maneira de deixar a luz entrar, outras deixam sair a escuridão.»
Apesar de as descrições das obras de Chapman serem muito ricas, não há imagens delas no livro, o que contribui para a atmosfera de mistério da história. Mas, se este romance fosse adaptado ao cinema, as suas descrições teriam de ser transformadas em quadros reais...
Essa é uma pergunta interessante – nem sequer tinha pensado nisso! Mas sim, suponho que teriam de ser tornadas reais se o livro fosse adaptado para o cinema. Acho que ficaria confortável desde que quem fizesse o filme tivesse uma noção muito clara da minha visão e inspirações.

Os excertos do diário de Vanessa são muitas vezes sobre temas artísticos. Até que ponto é que isso reflete o seu próprio processo criativo?
A Vanessa tem muitas ideias e sente-se puxada em várias direções mas, quando se decide por algo, dedica-se a isso de forma obstinada. Duvida de si mesma. Às vezes, preocupa-se com a relevância do seu trabalho, outras vezes sente que o mesmo não importa, que o importante é manter-se fiel a si própria. Tudo isso também é verdade para mim.
A obra de Vanessa Division II combina fragmentos de cerâmica com objetos encontrados e um fio dourado. Inspirou-se no Kintsugi*, a arte japonesa de reparar cerâmica com ouro, e pela sua filosofia de encarar as rachas como parte do objeto?
Sim, sem dúvida. Li um pouco sobre Kintsugi e vi muitas imagens de vasos e potes reparados de forma muito bonita, e quando pensei na Vanessa e no seu trabalho, que tinha sido danificado e destruído, percebi que ela poderia querer recuperar parte dos pedaços partidos, e que utilizar uma técnica como o Kintsugi seria apropriado.

As personagens são quase todas imperfeitas, é como se também estivessem quebradas ou rachadas. Acha que estas brechas permitem que a luz entre em nós ou que, pelo contrário, deixam sair a nossa escuridão para o mundo?
Todos têm falhas, em maior ou menor grau. O que é interessante é como as pessoas reagem ao que sofreram na vida: algumas encontram uma maneira de deixar a luz entrar, outras deixam sair a escuridão – mas não acho que isso seja consequência de se ser uma boa ou má pessoa, mas mais uma combinação de circunstâncias. Muito dependerá do facto de as pessoas serem amáveis ou cruéis umas com as outras em momentos cruciais.

A Hora Azul passa-se no local mais solitário possível, uma ilha escocesa isolada onde o acesso a terra é limitado pelas marés. De onde veio essa ideia?
Há algum tempo, muito antes de começar a escrever o livro, fui de férias à costa da Bretanha, que está repleta de ilhas, muitas delas ilhas de marés. Passei muito tempo a caminhar por lá e, na maré baixa, era possível caminhar pela areia até essas ilhas. Lembro-me de ver uma ilha minúscula com uma única casa solitária. Olhei para ela e senti um arrepio, um formigueiro na nuca. Soube de imediato que um dia escreveria sobre uma ilha assim, e sobre uma casa assim.

Tanto Vanessa como Grace são personagens mais complexas e interessantes do que Becker, mas também menos simpáticas do que ele. Além disso, a vida de Becker parece girar em torno de mulheres: a esposa, a artista que idolatra, a mãe, Lady Emmeline. Foi uma escolha deliberada tornar estas personagens femininas mais fortes e menos simpáticas do que os homens?
Não costumo colocar homens no centro dos meus livros, mas fi-lo neste. Becker é um bom homem, e acho-o mesmo interessante: é muito moderno em certos aspetos e bastante antiquado noutros; quer ser nobre, mas às vezes não o é; sente-se muito culpado por alguns dos seus comportamentos e receia que essas coisas voltem para o assombrar. É distraído, e isso é um problema, como descobrimos a certa altura no romance. Quanto à simpatia – não penso nisso. Não me interessa muito se as pessoas são vistas como simpáticas ou não – e é algo muito subjetivo, de qualquer forma.
 
«As palavras não são assustadoras. As pessoas é que são assustadoras.»
Há alguns anos, disse ao The Guardian: «Há sempre um momento num romance em que se pensa: Ó meu Deus, isto não vai acontecer! Mas percebemos que temos de continuar a remar. Terra firme vai aparecer. Há sempre um momento muito negro em que nos sentamos à secretária e choramos.” Isso ainda lhe acontece?
Adorei escrever este romance, por isso acho que não chorei nenhuma vez! Mas tenho a certeza de que voltarei a chorar. Cada romance é diferente, e apresenta problemas distintos. Algumas tramas surgem com mais facilidade do que outras, algumas personagens são mais difíceis de entender... Nunca se sabe como vai correr até nos sentarmos e começarmos a escrever.

Há referências à pandemia de COVID no livro, mesmo que, enquanto sociedade, às vezes pareça que apagámos esses anos da memória coletiva – alguma vez sentiu vontade de eliminar essas referências do livro?
Não acho que tenhamos apagado esses anos da memória coletiva – a experiência com a Covid está sempre a surgir nas conversas: as pessoas falam sobre como foi terrível para elas, ou às vezes como foi fácil, e como se sentem culpadas por terem gostado da experiência de estar em confinamento. Fez sentido para mim mencionar a COVID neste romance, especialmente porque Grace é médica, pelo que a pandemia teve mais impacto para ela do que para muitos.
A água desempenha um papel importante em A Hora Azul, Um Fogo Lento e Escrito na Água. O que tem a água de tão inquietante?
Sinto-me atraída pela água: gosto de nadar no mar, e adoraria ter uma casa na costa. A água é bela, por vezes hipnotizante, mas também perigosa. E, quando escolhemos, como foi o meu caso, escrever sobre uma casa numa ilha, não é possível escapar à água! A água determina onde podemos ir e quando. Pode proteger-nos, pode salvar-nos e pode fazer com que nos afoguemos, também.

Qual foi o último livro que leu e de que realmente gostou?
Recentemente terminei A Guardiã, de Yael Van Der Wouden, que é um romance muito bonito sobre uma jovem mulher a viver na Holanda, pouco depois da Segunda Guerra Mundial. Fala de amor e perda, e tem uma reviravolta perfeita mesmo no centro do livro, que faz com que olhemos para tudo o que aconteceu antes sob uma luz diferente. É muito inteligente e bastante perturbador.

Qual é o livro mais assustador que já leu?
Starve Acre, de Michael Andrew Hurley.

Qual é o seu cenário ideal para escrever?
Sentada à minha secretária no meu escritório em Edimburgo, com nada para fazer o dia inteiro a não ser escrever, em paz.

Qual é a palavra mais assustadora em inglês?
As palavras não são assustadoras. As pessoas é que são assustadoras.

.* Este artigo foi originalmente publicado na Revista Wookacontece nº 13, de novembro de 2024.

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