Entrevista a Camilla Grebe [com Vídeo]
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6 de dezembro de 2023
Nascida em Estocolmo, na Suécia, Camilla Grebe é famosa pelos seus thrillers autónomos com um elenco de personagens recorrentes, incluindo a profiler Hanne Lagerlind-Schön e os polícias Peter Lindgren, Manfred Olsson e Malin Brundin. Os livros de Grebe, aclamados pela crítica e adorados por leitores em todo o mundo, foram muitas vezes premiados pela sua capacidade infalível de surpreender os leitores com as suas reviravoltas inesperadas.
Camilla Licenciou-se em Economia e foi co-fundadora de uma editora de audiolivros, mas sempre gostou mais da área criativa do que dos negócios. Ganhou coragem e, com a sua irmã, Åsa Träff, escreveu um primeiro livro, ao qual se seguiram muitos mais.
Depois de ter escrito duas séries de sucesso em co-autoria – a série de Siri Bergman com Åsa Träff, e a trilogia Moscow Noir com Paul Leander-Engström, já adaptada a série televisiva – Grebe estreou-se como autora a solo com O Gelo Sob os Seus Pés (2015), que se tornou um bestseller internacional.
Camilla Licenciou-se em Economia e foi co-fundadora de uma editora de audiolivros, mas sempre gostou mais da área criativa do que dos negócios. Ganhou coragem e, com a sua irmã, Åsa Träff, escreveu um primeiro livro, ao qual se seguiram muitos mais.
Depois de ter escrito duas séries de sucesso em co-autoria – a série de Siri Bergman com Åsa Träff, e a trilogia Moscow Noir com Paul Leander-Engström, já adaptada a série televisiva – Grebe estreou-se como autora a solo com O Gelo Sob os Seus Pés (2015), que se tornou um bestseller internacional.
Camilla Grebe, em entrevista ao wookacontece
Atualmente vive em Portugal, país que adora. Em entrevista ao wookacontece, fala da sua carreira de escritora, de como enfrenta a insegurança que sente sempre que escreve um novo livro, e de como as suas personagens arranjam sempre forma de «inventarem as suas próprias coisas», ganhando vida própria. Tal como acontece em O Diário do Meu Desaparecimento, o segundo e mais recente livro da autora a ser publicado por cá.
«A história desenvolve-se organicamente. Conheço as minhas personagens, mas elas inventam as suas próprias coisas.»
O que a levou a começar a escrever?
Foi o amor pela ficção policial. Eu cresci numa casa com muitos livros e li-os quase todos. Comecei a ler muito cedo, tal como a minha irmã, que é dois anos mais nova do que eu. Eu escrevi o primeiro capítulo do meu primeiro livro e pedi à minha irmã para escrever o segundo capítulo. Ela fê-lo, embora tudo tenha demorado muito tempo e fosse apenas um passatempo nessa fase. Nunca pensámos que o livro fosse publicado. Mas alguns anos mais tarde enviei o manuscrito para editoras em Estocolmo. Três delas responderam-nos e disseram que estavam interessadas. Esse foi o início de uma carreira totalmente nova para mim e para a minha irmã.
Nessa altura, já tinha fundado uma editora de audiolivros…
Sim, fui diretora-geral de uma editora de audiolivros muito pequena, mas tínhamos grandes escritores, como Henning Mankell, um escritor de policiais muito famoso. Estava com um pé neste negócio, nesta indústria, o que era mau, porque me deixava muito nervosa. Eu sabia como era difícil fazer com que um manuscrito fosse aceite por uma editora. Estava muito relutante em enviar o meu manuscrito para as editoras, porque podia conhecer as pessoas e elas poderiam não gostar dele. Mas, no fim, acabei por enviá-lo e correu tudo muito bem.
Como se sentiu do outro lado, a ser escritora?
Estava nervosa, é um trabalho estranho e muito especial, porque trabalhamos com uma coisa durante um ano ou mais, e depois toda a gente nos julga. Mas senti-me libertada, porque é algo que sempre quis fazer. Nunca me senti feliz a trabalhar com questões comerciais ou de negócios, era muito mais feliz na parte criativa.
Agora sente-se mais confiante quando escreve um novo livro?
Sim, estou mais confiante e também acho que sou melhor no que faço agora do que há 15 anos. Mas fico sempre nervosa, de cada vez que escrevo um livro, e isso nunca desaparece. Duvido de mim própria e da minha capacidade de escrever o livro, mas, de certa forma, acho que essa dúvida me torna uma melhor escritora, porque sou muito meticulosa e certifico-me de que tudo é tão bom quanto pode ser.
Teve sucesso a escrever livros sozinha e em duo. Quais os desafios de cada método, e qual prefere?
Ser escritora pode ser solitário. Está-se em frente ao computador durante meses. Escrever um livro com outra pessoa é divertido, pois temos alguém com quem falar, podemos apoiar-nos mutuamente, brincar, resolver problemas em conjunto. Mas, em última análise, penso que a escrita em si não é mais fácil só porque somos duas pessoas a fazê-lo. Agora que escrevi seis livros sozinha, para mim é mais fácil escrever sozinha.
Qual foi a reação na Suécia por ter abordado o tema dos refugiados em O Diário do Meu Desaparecimento?
Publicaram-se muitos artigos sobre o facto de eu ter escrito sobre o tema e até no meu círculo de amigos e na minha família as pessoas estavam divididas. Algumas pessoas apoiavam-me e outras não. Se lerem a história toda, e também as últimas frases, vão perceber qual é a minha opinião sobre este assunto. Nem toda a gente concordou comigo, o que gerou muito debate.
O conflito entre a identidade pessoal e o papel social é um dos temas predominantes na sua escrita?
Sim, a maior parte dos tópicos e temas com que tenho trabalhado são questões que vemos atualmente na sociedade, por isso sou influenciada pelo mundo e pela forma como o mundo é hoje. A identidade é um assunto de que se fala atualmente e, para mim, as personagens são a parte mais importante na criação e na escrita de um livro.
Como mostra a personagem Malinda, as nossas certezas são frágeis. Esse é também um elemento de suspense em O Diário do Meu Desaparecimento?
É fundamental garantir que se tem personagens interessantes, que pareçam vivas, pessoas reais com as quais o leitor se envolve emocionalmente, porque é isso que cria o suspense. suspense não surge de uma perseguição de carros ou de alguém a correr com uma arma, mas sim quando se está emocionalmente ligado a uma personagem.
Projeta-se nas suas personagens?
Não propriamente. Criei-as todas, pelo que há pedaços de mim neles, mas nenhuma delas sou eu, ou qualquer outra pessoa.
Na trilogia Moscow Noir, Tom Blixen é um reflexo do seu co-autor Paul Leander-Engström?
Paul baseia-se principalmente nas suas experiências na Rússia, não que ele tenha vivido tudo o que Tom Blixen viveu, porque este é como um agente secreto, e ele não era. Mas todo o conhecimento sobre a Rússia na trilogia vem de Paul. Eu nunca tinha estado na Rússia quando escrevi o primeiro livro. É interessante e assustador que algumas das coisas sobre as quais escrevemos estejam a acontecer agora.
Que escritores mais a inspiram?
Há tantos escritores realmente bons. Eu leio principalmente ficção, tanto ficção policial como romances. Gosto muito de Joyce Carol Oates e Ian MacEwan. Também temos alguns escritores policiais muito bons na Suécia, e um dos meus preferidos é Asa Larsson, autora de romances de mistério e crime que se passam na parte norte da Suécia.
É uma escritora metódica?
Se eu vos falasse do meu processo de escrita, pareceria muito estruturado e metódico, porque escrevo uma sinopse muito completa, talvez de 20 páginas, onde esboço toda a história, discuto-a com o meu editor e depois começo a escrever. Mas, depois, a história desenvolve-se organicamente, nem sempre sei o que vai acontecer. Isto é, sei o fim da história, a reviravolta que vai ter, conheço as minhas personagens, mas elas inventam as suas próprias coisas. .
Qual dos seus livros foi mais difícil de escrever?
Foi o The Shadow Hunter, que ainda não foi publicado em Portugal. É um romance policial, claro, mas estende-se de 1944 até aos dias de hoje, e isso foi um verdadeiro desafio por causa de toda a pesquisa que tive de fazer. Tive de entrevistar mulheres polícias ou polícias reformados para me certificar de que tinha todos os pormenores corretos, o que demorou muito tempo. Li livros, dissertações, artigos… muito trabalho.
E o que mais prazer lhe deu escrever?
O Diário do Meu Desaparecimento. Foi muito divertido de escrever porque gosto muito das personagens. Há um rapaz no livro que se chama Jake que gosta de se vestir com as roupas da mãe. É um pouco doce e inocente quando pensamos nisso, mas para ele é um grande segredo e uma coisa terrível. Eu apaixonei-me pelo Jake quando escrevi este livro e acho que os leitores também gostaram muito dele.
Como ex-editora de audiolivros, qual a importância deste formato para os livros chegarem a novas e maiores audiências?
Esse formato vai ser o futuro também para o mercado livreiro português. Os audiolivros “explodiram” na Suécia graças ao estabelecimento de plataformas de streaming online. Temos a nossa aplicação e podemos fazer stream de um audiolivro, não temos de ir comprar DVDs. Cerca de 50% do mercado livreiro da Suécia é constituído por audiolivros, se falarmos de ficção, o que é imenso. E não são apenas os jovens, é toda a gente. As pessoas ouvem-nos quando estão no carro ou à noite, ou quando vão correr ou ao ginásio. Penso que isso também vai acontecer noutros países europeus.
Qual é a sua maior conquista?
Ver os meus filhos crescidos e felizes a explorar o mundo. Isso é maior do que qualquer outra coisa.
O que a faz mais feliz?
Viver em Portugal e todas as pequenas coisas, como um passeio na floresta. Hoje fizemos uma longa caminhada nas montanhas e vimos ovelhas. Coisas pequenas e bonitas, como uma chávena de chá com um bom amigo, um bom livro, uma boa série de TV.
Foi o amor pela ficção policial. Eu cresci numa casa com muitos livros e li-os quase todos. Comecei a ler muito cedo, tal como a minha irmã, que é dois anos mais nova do que eu. Eu escrevi o primeiro capítulo do meu primeiro livro e pedi à minha irmã para escrever o segundo capítulo. Ela fê-lo, embora tudo tenha demorado muito tempo e fosse apenas um passatempo nessa fase. Nunca pensámos que o livro fosse publicado. Mas alguns anos mais tarde enviei o manuscrito para editoras em Estocolmo. Três delas responderam-nos e disseram que estavam interessadas. Esse foi o início de uma carreira totalmente nova para mim e para a minha irmã.
Nessa altura, já tinha fundado uma editora de audiolivros…
Sim, fui diretora-geral de uma editora de audiolivros muito pequena, mas tínhamos grandes escritores, como Henning Mankell, um escritor de policiais muito famoso. Estava com um pé neste negócio, nesta indústria, o que era mau, porque me deixava muito nervosa. Eu sabia como era difícil fazer com que um manuscrito fosse aceite por uma editora. Estava muito relutante em enviar o meu manuscrito para as editoras, porque podia conhecer as pessoas e elas poderiam não gostar dele. Mas, no fim, acabei por enviá-lo e correu tudo muito bem.
Veja também em VÍDEO a nossa entrevista a Camilla Grebe.
Como se sentiu do outro lado, a ser escritora?
Estava nervosa, é um trabalho estranho e muito especial, porque trabalhamos com uma coisa durante um ano ou mais, e depois toda a gente nos julga. Mas senti-me libertada, porque é algo que sempre quis fazer. Nunca me senti feliz a trabalhar com questões comerciais ou de negócios, era muito mais feliz na parte criativa.
«Duvido de mim própria e da minha capacidade de escrever o livro, mas acho que essa dúvida me torna uma melhor escritora, porque sou muito meticulosa.»
O Diário do Meu Desaparecimento, o romance da autora mais recentemente publicado em Portugal.
Sim, estou mais confiante e também acho que sou melhor no que faço agora do que há 15 anos. Mas fico sempre nervosa, de cada vez que escrevo um livro, e isso nunca desaparece. Duvido de mim própria e da minha capacidade de escrever o livro, mas, de certa forma, acho que essa dúvida me torna uma melhor escritora, porque sou muito meticulosa e certifico-me de que tudo é tão bom quanto pode ser.
Teve sucesso a escrever livros sozinha e em duo. Quais os desafios de cada método, e qual prefere?
Ser escritora pode ser solitário. Está-se em frente ao computador durante meses. Escrever um livro com outra pessoa é divertido, pois temos alguém com quem falar, podemos apoiar-nos mutuamente, brincar, resolver problemas em conjunto. Mas, em última análise, penso que a escrita em si não é mais fácil só porque somos duas pessoas a fazê-lo. Agora que escrevi seis livros sozinha, para mim é mais fácil escrever sozinha.
Qual foi a reação na Suécia por ter abordado o tema dos refugiados em O Diário do Meu Desaparecimento?
Publicaram-se muitos artigos sobre o facto de eu ter escrito sobre o tema e até no meu círculo de amigos e na minha família as pessoas estavam divididas. Algumas pessoas apoiavam-me e outras não. Se lerem a história toda, e também as últimas frases, vão perceber qual é a minha opinião sobre este assunto. Nem toda a gente concordou comigo, o que gerou muito debate.
O conflito entre a identidade pessoal e o papel social é um dos temas predominantes na sua escrita?
Sim, a maior parte dos tópicos e temas com que tenho trabalhado são questões que vemos atualmente na sociedade, por isso sou influenciada pelo mundo e pela forma como o mundo é hoje. A identidade é um assunto de que se fala atualmente e, para mim, as personagens são a parte mais importante na criação e na escrita de um livro.
«O suspense não surge de uma perseguição de carros ou de alguém a correr com uma arma, mas sim quando se está emocionalmente ligado a uma personagem.»
Como mostra a personagem Malinda, as nossas certezas são frágeis. Esse é também um elemento de suspense em O Diário do Meu Desaparecimento?
É fundamental garantir que se tem personagens interessantes, que pareçam vivas, pessoas reais com as quais o leitor se envolve emocionalmente, porque é isso que cria o suspense. suspense não surge de uma perseguição de carros ou de alguém a correr com uma arma, mas sim quando se está emocionalmente ligado a uma personagem.
Projeta-se nas suas personagens?
Não propriamente. Criei-as todas, pelo que há pedaços de mim neles, mas nenhuma delas sou eu, ou qualquer outra pessoa.
Na trilogia Moscow Noir, Tom Blixen é um reflexo do seu co-autor Paul Leander-Engström?
Paul baseia-se principalmente nas suas experiências na Rússia, não que ele tenha vivido tudo o que Tom Blixen viveu, porque este é como um agente secreto, e ele não era. Mas todo o conhecimento sobre a Rússia na trilogia vem de Paul. Eu nunca tinha estado na Rússia quando escrevi o primeiro livro. É interessante e assustador que algumas das coisas sobre as quais escrevemos estejam a acontecer agora.
Que escritores mais a inspiram?
Há tantos escritores realmente bons. Eu leio principalmente ficção, tanto ficção policial como romances. Gosto muito de Joyce Carol Oates e Ian MacEwan. Também temos alguns escritores policiais muito bons na Suécia, e um dos meus preferidos é Asa Larsson, autora de romances de mistério e crime que se passam na parte norte da Suécia.
É uma escritora metódica?
Se eu vos falasse do meu processo de escrita, pareceria muito estruturado e metódico, porque escrevo uma sinopse muito completa, talvez de 20 páginas, onde esboço toda a história, discuto-a com o meu editor e depois começo a escrever. Mas, depois, a história desenvolve-se organicamente, nem sempre sei o que vai acontecer. Isto é, sei o fim da história, a reviravolta que vai ter, conheço as minhas personagens, mas elas inventam as suas próprias coisas. .
Qual dos seus livros foi mais difícil de escrever?
Foi o The Shadow Hunter, que ainda não foi publicado em Portugal. É um romance policial, claro, mas estende-se de 1944 até aos dias de hoje, e isso foi um verdadeiro desafio por causa de toda a pesquisa que tive de fazer. Tive de entrevistar mulheres polícias ou polícias reformados para me certificar de que tinha todos os pormenores corretos, o que demorou muito tempo. Li livros, dissertações, artigos… muito trabalho.
E o que mais prazer lhe deu escrever?
O Diário do Meu Desaparecimento. Foi muito divertido de escrever porque gosto muito das personagens. Há um rapaz no livro que se chama Jake que gosta de se vestir com as roupas da mãe. É um pouco doce e inocente quando pensamos nisso, mas para ele é um grande segredo e uma coisa terrível. Eu apaixonei-me pelo Jake quando escrevi este livro e acho que os leitores também gostaram muito dele.
Como ex-editora de audiolivros, qual a importância deste formato para os livros chegarem a novas e maiores audiências?
Esse formato vai ser o futuro também para o mercado livreiro português. Os audiolivros “explodiram” na Suécia graças ao estabelecimento de plataformas de streaming online. Temos a nossa aplicação e podemos fazer stream de um audiolivro, não temos de ir comprar DVDs. Cerca de 50% do mercado livreiro da Suécia é constituído por audiolivros, se falarmos de ficção, o que é imenso. E não são apenas os jovens, é toda a gente. As pessoas ouvem-nos quando estão no carro ou à noite, ou quando vão correr ou ao ginásio. Penso que isso também vai acontecer noutros países europeus.
Qual é a sua maior conquista?
Ver os meus filhos crescidos e felizes a explorar o mundo. Isso é maior do que qualquer outra coisa.
O que a faz mais feliz?
Viver em Portugal e todas as pequenas coisas, como um passeio na floresta. Hoje fizemos uma longa caminhada nas montanhas e vimos ovelhas. Coisas pequenas e bonitas, como uma chávena de chá com um bom amigo, um bom livro, uma boa série de TV.