Dois Poemas de Federico García Lorca
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21 de novembro de 2022
Federico García Lorca, o prodigioso poeta e dramaturgo espanhol do início do século passado, ficou consagrado entre os poetas do seu país com a publicação de Romanceiro Cigano. Nesta obra, Lorca transpõe para a poesia a sua «compreensão simpática dos perseguidos», tendo afirmado, sobre os ciganos: «gente mais oprimida não há, gente onde se espreme e condensa a mais densa substância lírica de Espanha». Ao reunir neste romanceiro histórias inspiradas na tradição oral, plenas de simbolismo e vitalidade, Lorca revolucionou a poesia ocidental, e os seus poemas tornaram-se um fenómeno popular.
Por contraste, em Poeta em Nova Iorque, a poesia de Lorca é de um dramatismo denso, em que o autor explana o seu desagrado pela sociedade americana da Grande Depressão, tanto na sua decadência como no seu progresso.
Agora reunidas num único livro, estas duas obras refletem a poesia de um autor que soube adentrar as contradições humanas, o desejo e a liberdade, de forma singular e marcante. Assassinado pelos franquistas quando tinha apenas 38 anos, em 1936, no início da Guerra Civil Espanhola, Lorca tornou-se o poeta símbolo da resistência à ditadura.
Eis dois poemas de Romanceiro Cigano e Poeta em Nova Iorque.
ROMANCE DA LUA, LUA
De «Romanceiro Cigano»
A lua chegou à frágua
Com sua anquinha de nardos.
O menino olha e olha.
O menino a está olhando.
Em todo o ar comovido
agita a lua os seus braços
e exibe, lúbrica e pura,
seus seios de duro estanho.
Foge, lua, lua, lua.
Se vissem os ciganos,
Do teu coração fariam
colares mil e anéis brancos.
Menino, deixa que eu dance.
Se vierem os ciganos,
Vão achar-te na bigorna
com os olhinhos fechados.
Foge, lua, lua, lua,
que já oiço os seus cavalos.
Larga-me, ó moço, não pises
meu brancor tão engomado.
O ginete aproximava-se,
De várzea o tambor tocando.
Tem os olhos o menino
dentro da frágua fechados.
Do olival já lá vinham,
bronze e sonho, os ciganos.
Com as cabeças levantadas
e os olhos meio fechados.
Como canta o noitibó
ai, na árvore está cantando!
Pelo céu a lua segue
um menino segurando.
Dentro da frágua já choram,
dando gritos, os ciganos.
O ar vela-a, vela-a, vela-a.
Eis que o ar a está velando.
REGRESSO DO PASSEIO
De «Um Poeta em Nova Iorque»
Assassinado pelo céu.
Por entre as formas que tendem à serpe
e as formas que procuram o vidro,
deixarei crescer os meus cabelos
Com a árvore de cotos que não canta
E o menino com o branco rosto de ovo
Com os animaizinhos de cabeça rachada
E a água esfarrapada dos pés secos.
Com tudo o que tem cansaço surdo-mudo
e borboleta afogada no tinteiro.
Tropeçando no meu rosto todos os dias diferente.
Assassinado pelo céu!
Por contraste, em Poeta em Nova Iorque, a poesia de Lorca é de um dramatismo denso, em que o autor explana o seu desagrado pela sociedade americana da Grande Depressão, tanto na sua decadência como no seu progresso.
Agora reunidas num único livro, estas duas obras refletem a poesia de um autor que soube adentrar as contradições humanas, o desejo e a liberdade, de forma singular e marcante. Assassinado pelos franquistas quando tinha apenas 38 anos, em 1936, no início da Guerra Civil Espanhola, Lorca tornou-se o poeta símbolo da resistência à ditadura.
Eis dois poemas de Romanceiro Cigano e Poeta em Nova Iorque.
ROMANCE DA LUA, LUA
De «Romanceiro Cigano»
A lua chegou à frágua
Com sua anquinha de nardos.
O menino olha e olha.
O menino a está olhando.
Em todo o ar comovido
agita a lua os seus braços
e exibe, lúbrica e pura,
seus seios de duro estanho.
Foge, lua, lua, lua.
Se vissem os ciganos,
Do teu coração fariam
colares mil e anéis brancos.
Menino, deixa que eu dance.
Se vierem os ciganos,
Vão achar-te na bigorna
com os olhinhos fechados.
Foge, lua, lua, lua,
que já oiço os seus cavalos.
Larga-me, ó moço, não pises
meu brancor tão engomado.
O ginete aproximava-se,
De várzea o tambor tocando.
Tem os olhos o menino
dentro da frágua fechados.
Do olival já lá vinham,
bronze e sonho, os ciganos.
Com as cabeças levantadas
e os olhos meio fechados.
Como canta o noitibó
ai, na árvore está cantando!
Pelo céu a lua segue
um menino segurando.
Dentro da frágua já choram,
dando gritos, os ciganos.
O ar vela-a, vela-a, vela-a.
Eis que o ar a está velando.
REGRESSO DO PASSEIO
De «Um Poeta em Nova Iorque»
Assassinado pelo céu.
Por entre as formas que tendem à serpe
e as formas que procuram o vidro,
deixarei crescer os meus cabelos
Com a árvore de cotos que não canta
E o menino com o branco rosto de ovo
Com os animaizinhos de cabeça rachada
E a água esfarrapada dos pés secos.
Com tudo o que tem cansaço surdo-mudo
e borboleta afogada no tinteiro.
Tropeçando no meu rosto todos os dias diferente.
Assassinado pelo céu!