Poemas de André Osório

17 de janeiro de 2020

ARTE POÉTICA

Os teus dedos são teclas de compasso.
Delimitam a silhueta na sombra,
inventam o ritmo da pele
sobre a tela que constroem.

O seu sangue pauta o movimento
confinado ao tempo,
na artéria em que se baldeia a infância
contra o mármore do quarto.

Não há mobília ou adereços à memória.
Um poço só,
com as suas mãos de granito
a confinar o estrangeiro ao granular da moldura
de vidro, à ondulação das rochas, ao magma,
à epistemologia dos objectos.
Gatinham quotidianamente como um sol:
põem-se das árvores para cair

com toda a humanidade
num gesto.

O indicador toca-te devagar:

acolhes a minha voz
como uma noite que espera o anel do amanhecer.






FRUTO

O fruto pertence ao tempo
que escapa

o tempo do fruto
cheio com a força do mundo
como circunvalação

a unidade do fruto
abarcada pela saliva
da terra

o fruto que colhe o tempo
sem o estiolar na boca.

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