Poemas de José Tolentino Mendonça
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Do novo livro Introdução
à Pintura Rupestre
17 de janeiro de 2020
A HISTÓRIA SOCIAL DA BICICLETA
Na sua bicicleta o meu pai soldou um selim
e levava-me com ele aos domingos
por onde as estradas não têm nome
até aos primeiros contrafortes do mar
Nessa década dizia-se que o socialismo
se chegasse seria de bicicleta
Mas a bicicleta torna-nos só semelhantes
ao que somos sobre a terra
prontos para aspirar o som do ar
num redemoinho longínquo
ou num pesar que já não precisamos
de esconder de nós próprios
Não raro nos sentíamos os únicos
hóspedes da estalagem
contemplando as grandes nuvens indiferentes
os poços desativados nos campos, os ratos
a neblina que quando descer tonará inúteis
os montes de lenha deixados
naquele lugar pelos aldeões
Através da fronteira avançada
eu ouvia a respiração do meu pai
e ele a minha
e revelávamos desse modo um ao outro
uma cena auroral
que não era cópia
que não sei o que era
Ficávamos por longo tempo embaraçados
cada um a digerir para si esse espanto
e outras vezes cantávamos
mesmo se a escutar melhor
percebíamos serem as ervas
que cantavam
à nossa passagem
A ALEGRIA
Perguntamo-nos pela origem da alegria
que nenhum dicionário explica
a alegria não é da ordem dos bens apropriáveis
conserva um parentesco com espécies selvagens
flores informes, orifícios, labaredas
ela já existia quando os humanos desconheciam o fogo
e se alimentavam apenas de vento
Está sempre erguida e desencadeada, a alegria
vai assobiar no silêncio da noite
numa língua primitiva, sem gramática
os seus longos dedos frágeis pousam na minha cabeça
pouco importa que a vida seja atroz
a alegria introduz um silêncio novo
escava na noite um silêncio como uma espécie de braço
a fazer lembrar o diamante
uma ideia de prodígio
coisas insuspeitas
que por seu intermédio irradiam
A alegria sacode-se como um cão ao sair da água
gira em círculos com movimentos rápidos
é impossível não amar esta cara ofegante
sobre os telhados em direção ao futuro
ressoa o fausto do seu queixo de ouro
a alegria ladra aos passageiros nas traseiras da estação
para lhes fazer compreender o girassol
o vale coberto de erva exuberante
a mestria do funâmbulo que transporta a manhã
José Tolentino Mendonça, Introdução à Pintura Rupestre
Na sua bicicleta o meu pai soldou um selim
e levava-me com ele aos domingos
por onde as estradas não têm nome
até aos primeiros contrafortes do mar
Nessa década dizia-se que o socialismo
se chegasse seria de bicicleta
Mas a bicicleta torna-nos só semelhantes
ao que somos sobre a terra
prontos para aspirar o som do ar
num redemoinho longínquo
ou num pesar que já não precisamos
de esconder de nós próprios
Não raro nos sentíamos os únicos
hóspedes da estalagem
contemplando as grandes nuvens indiferentes
os poços desativados nos campos, os ratos
a neblina que quando descer tonará inúteis
os montes de lenha deixados
naquele lugar pelos aldeões
Através da fronteira avançada
eu ouvia a respiração do meu pai
e ele a minha
e revelávamos desse modo um ao outro
uma cena auroral
que não era cópia
que não sei o que era
Ficávamos por longo tempo embaraçados
cada um a digerir para si esse espanto
e outras vezes cantávamos
mesmo se a escutar melhor
percebíamos serem as ervas
que cantavam
à nossa passagem
A ALEGRIA
Perguntamo-nos pela origem da alegria
que nenhum dicionário explica
a alegria não é da ordem dos bens apropriáveis
conserva um parentesco com espécies selvagens
flores informes, orifícios, labaredas
ela já existia quando os humanos desconheciam o fogo
e se alimentavam apenas de vento
Está sempre erguida e desencadeada, a alegria
vai assobiar no silêncio da noite
numa língua primitiva, sem gramática
os seus longos dedos frágeis pousam na minha cabeça
pouco importa que a vida seja atroz
a alegria introduz um silêncio novo
escava na noite um silêncio como uma espécie de braço
a fazer lembrar o diamante
uma ideia de prodígio
coisas insuspeitas
que por seu intermédio irradiam
A alegria sacode-se como um cão ao sair da água
gira em círculos com movimentos rápidos
é impossível não amar esta cara ofegante
sobre os telhados em direção ao futuro
ressoa o fausto do seu queixo de ouro
a alegria ladra aos passageiros nas traseiras da estação
para lhes fazer compreender o girassol
o vale coberto de erva exuberante
a mestria do funâmbulo que transporta a manhã
José Tolentino Mendonça, Introdução à Pintura Rupestre