Distopias à portuguesa
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@literacidades
17 de janeiro de 2020
Se há género literário que nos entretém, é a distopia. A fuga para um futuro imaginado e a iminência de um evento, uma tranquilidade tensa, que quando se desfaz, faz avançar o enredo. A opressão por parte de um governo autoritário, que impõe um lema e controla os cidadãos com o objetivo de manter um determinado status quo e de subjugar as massas para, por exemplo, o trabalho. Os portugueses já andam a dar cartas na distopia há muito tempo. De autores consagrados a novas vozes, aqui fica um panorama da distopia «à portuguesa».
CADERNOS DA ÁGUA
Encontramos muitos dos elementos que caracterizam este género literário em Cadernos da Água, um livro que nos aporta num mundo onde escasseia a água e os habitantes do Sul da Europa são refugiados no Norte. A imaginação e a criatividade são alguns dos pontos fortes do novo romance de João Reis: tendo como ponto fulcral as alterações climáticas, foram muitas as guerras e as reconfigurações que o mundo levou para que chegasse ao ponto onde aqui chega.
Ao ler este livro, vamos viajando pela mirabolante geopolítica criada pelo autor, sempre com os olhos postos num futuro em que a escassez da água e as alterações climáticas transformam por completo a face daquele que é o continente europeu e desencadeiam guerrilhas, em terras onde grassam a corrupção e o medo. Cadernos da Água traz-nos personagens marcadamente bondosas ou cruéis, numa luta entre o bem e o mal tão característica, por exemplo, dos livros de Stephen King, e que são postas em situações onde são levadas a tomar opções que condicionam o desenrolar da história. É impossível não ler o livro sem um copo de água ao lado. Até porque, no final, vamos precisar de o beber de uma vez só.
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Ao ler este livro, vamos viajando pela mirabolante geopolítica criada pelo autor, sempre com os olhos postos num futuro em que a escassez da água e as alterações climáticas transformam por completo a face daquele que é o continente europeu e desencadeiam guerrilhas, em terras onde grassam a corrupção e o medo. Cadernos da Água traz-nos personagens marcadamente bondosas ou cruéis, numa luta entre o bem e o mal tão característica, por exemplo, dos livros de Stephen King, e que são postas em situações onde são levadas a tomar opções que condicionam o desenrolar da história. É impossível não ler o livro sem um copo de água ao lado. Até porque, no final, vamos precisar de o beber de uma vez só.
AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE
Esta não é uma distopia clássica. Mas há sempre muito pouco de clássico em Saramago… As Intermitências da Morte é a história de um povo num país onde não se morre durante algum tempo e todas as consequências práticas e filosóficas que advêm dessa ocorrência. O tom é genial, um humor fino, intimista, que nos permite avançar avidamente entre aqueles parágrafos imensos, povoados ora da referência mais aleatória possível, ora de uma teoria que nos muda totalmente a visão sobre determinado facto. O nosso conselho, para quem se comece a sentir um pouco intimidado pela própria narrativa e por este mundo tão estranho, é de que não desista, que continue até um final sublime. Entre os muitos subtextos da obra, ficou presente a ideia de que a morte é um evento ao qual damos demasiada importância (e aqui Saramago deita mais uma acha para a fogueira dos seus desentendimentos com a Igreja). O Amor, a Arte, a Vida (e compreenderá quem leu o livro a razão de escrever estas palavras com maiúsculas) superam o poder da própria morte, subjugando-a e tornando-a acessória no caminho percorrido por cada um. Como sempre com Saramago que, curiosamente ao falar sobre a morte, coloca em perspetiva muitas das certezas que temos em relação à vida.
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ZALATUNE
E se de repente vivêssemos numa ilha onde, alheios ao mundo, acreditássemos em tudo o que nos dizem? Se há algo que prende e assusta, ao mesmo tempo, neste romance distópico, é o facto de se encontrar tão próximo. Quase conseguimos tocar o ano de 2034, onde se desenrola a ação. Estamos numa ilha algures no Mediterrâneo, onde não chegou uma pandemia. Uma estranha imunidade que desemboca no ideal de superioridade genética. Habitantes «de bem», de bons costumes, de grande amor à pátria e muita transparência. Um primeiro-ministro galã, a ser filmado noite e dia para o Portal da Transparência, onde os cidadãos podem, supostamente, acompanhá-lo a cada segundo. Uma sociedade aterrorizada pela invasão de estrangeiros que lhe vão roubar a pureza. Uma ilha onde a obediência é consensual: habitantes assustados são habitantes controlados. É uma distopia que se aproxima perigosamente dos nossos maiores receios. Os extremismos, o atalhar das liberdades e dos direitos, a política do medo, os Estados securitários e autoritários, a democracia referendária de direitos e liberdades. A este pragmatismo sobrepõe-se uma profusão de elementos fantasiosos, que nos levam para vários mundos. Ponham os cintos, preparem uma bebida e rédea solta nesta ilha.
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ECOLOGIA
Numa sociedade muito pouco diferente da nossa, duas grandes marcas juntam-se para desenvolver uma tecnologia que pretende taxar as palavras pronunciadas. No início, apenas cinco palavras. Mas rapidamente se desenvolve uma teia, sob a pretensa valorização das palavras, que faz com que todas tenham um preço. Há quem possa continuar a manter conversas, há quem tenha de se calar. Não faltam personagens nesta distopia, cujo percurso em meio a esta loucura continua a ter de lidar com os dramas da vida normal. Quadros realistas que talvez acabem por ter um elo comum. Mas esta loucura tem mais de nossa do que aquilo que poderíamos supor. A constante observação, a cultura do medo, as sucessivas concessões que vamos fazendo. Ecologia pode bem ser um livro sobre o ambiente em que vivemos, vigiados, com tamanho perigo de extinção das mais elementares liberdades. Como a linguagem. E a linguagem é a mãe deste livro. Um livro profundamente útil, não só para pensar a distopia, mas para nos dar instrumentos de análise, factos, dados universais e até curiosos. Percebemos Ecologia como obra de elogio ao que nos torna diferentes de todos os outros elementos do planeta mas ao mesmo tempo tão parte deles mesmos. Ecologia pode bem ser um dos livros que mais nos fala de quem somos.
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OS NÚMEROS QUE VENCERAM OS NOMES
Foi inventada uma equação matemática que explica a existência de Deus. A partir daí, a Humanidade reorganiza-se através de um potente Estado, onde as liberdades cessam, a vigilância dos cidadãos é uma constante e a religião domina um quotidiano escuro, solitário, onde a felicidade não é a prioridade. A partir do momento em que se descobre o número de Deus, tudo é substituído por números: nomes de países, pessoas, ruas, dão lugar a algarismos. E é neste ambiente que aparece Um Nove Um Seis, rapaz que trabalha num call center e cuja vida não poderia ser mais banal, até que o avistamento de um gato vadio lhe traz algumas visões sobre um homem, um aviso... ou recordações. Um Nove Um Seis é internado num manicómio e a partir daí a história vai desenrolar-se em torno da ideia da resistência e da luta contra a opressão. O quarto livro de Samuel Pimenta traz um conceito muito interessante e completa todos os parâmetros de uma distopia clássica: há um Estado totalitário, vigilância, uma uniformização dos cidadãos e a vivência baseada no trabalho. A juntar a isto, a ideia de que Deus é explicado é sempre tentadora para o leitor.
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