Crónicas para se ir lendo

Por Ana Bárbara Pedroso
12 de dezembro de 2022
São textos pequenos que, volta e meia, têm o mundo lá dentro. Dá para ir lendo ou para ler de enfiada.

 
Autobiografia não autorizada
Depois do estrondoso sucesso de Eliete (2018), que recebeu o prémio Oceanos e foi finalista do prémio Femina, veio a público este livro de crónicas de Dulce Maria Cardoso. Publicadas anteriormente na revista Visão, juntam-se agora num volume que, para além da boa técnica narrativa a que a autora nos habituou, mostra a capacidade que esta tem de criar intimidade com o leitor. Dulce Maria Cardoso vai mostrando a memória, compondo cenários, partindo do individual para dar o universal a quem a lê. São bocados de vida, peças de um puzzle que cabe ao leitor montar. Quem conhecer a autora pelo seu trabalho no romance e no conto tem aqui mais terreno fértil de leitura.
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E Assim Sucessivamente
Neste volume, Abel Barros Baptista, professor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Nova de Lisboa, entrega um conjunto de textos formidáveis e surpreendentes, mostrando ao leitor uma lente cómica sobre a ação humana. Ao mesmo tempo que revela uma grande erudição, o autor vai estabelecendo paralelismos e explicando assuntos tão diversos como a ameaça bolchevique ou a obsessão do ministro da Educação da altura com os exames. O sentido de humor prova-se, uma vez mais, como a melhor das armas, desarmando os leitores.
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Homem Fatal
Em cada página, há uma fatal surpresa. O livro reúne algumas das crónicas publicadas diariamente no jornal O Globo, numa coluna chamada «Confissões». Frequentemente polémico, Nelson Rodrigues tinha uma acidez rara, e um olho que apanhava o que escapava aos outros, como quem cristaliza o transitório. Homem Fatal reúne 80 textos e ali temos o autor brasileiro no seu esplendor. Se pega em temas quase eruditos, como quem faz análise política, também mergulha no passado, trazendo à prosa o que mais marca a memória – no caso, e por exemplo, a vontade que tinha, no recreio da escola, de comer um pão com ovo, sentindo a gema a escorrer. Se temos a intimidade da fuga à pobreza, também temos o anti-esquerdismo e um retrato individual do Brasil.
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De maneira que é claro...
Vamos tendo a vida de Mário de Carvalho em fragmentos. São textos breves, flashes sobre a vida. Como em Dulce Maria Cardoso, os flashes vão montando a luz. E aqui temos a infância entre a Graça e a Penha de França (bairros em Lisboa), a vida familiar, a prisão do pai, a formação da consciência política, os movimentos associativos, a militância no Partido Comunista Português, os encontros clandestinos e tudo o mais que a memória foi guardando. Fragmento a fragmento, sem ordem cronológica, com aparente aleatoriedade, compõe-se não só a narrativa, mas também a vida. E que vida.
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