Contos para conhecer autores

Por Ana Bárbara Pedrosa

5 de dezembro de 2022
São quase todos conhecidos pelo romance, mas volta e meia enveredam pela narrativa curta. Aqui e ali, em textos pequenos, também vão construindo toda uma literatura.

 
CONTOS, DE EÇA DE QUEIROZ
É uma catedral no romance, mas também escreveu contos, que foram postumamente reunidos num volume, em 1902. Aqui temos Eça de Queiroz, e temos histórias inesquecíveis, algumas delas estudadas na escola. Por exemplo, em O Tesouro, temos três irmãos – a Guanes, Rui e Rostabal – que põem em perspetiva a relação que se estabelece com a riqueza material. Bem construídas, as personagens vão partindo de uma ideia coletiva para traços mais individualizados, e aí surge o egoísmo a dar cabo disto tudo. Em A Aia, há o contraste entre a obrigação de facto, e a obrigação moral, e a rutura da última como a chegada ao fim. Em O Defunto, temos Eça de Queiroz metido na literatura gótica ou fantástica. Para quem é conhecido pelo realismo, não parece coisa pouca. E por aí fora...
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Cartografias de lugares maL situados
Já Portugal conhecia Ana Margarida de Carvalho por extraordinários romances e outro livro de contos, quando surgiu este volume. Aqui, a autora percorre alguns dos cenários de guerra – forçosamente mal situados –, mostrando os extremos das ações e das emoções humanas, desde a generosidade e a compaixão à raiva, à brutalidade, à crueldade, à indiferença. Em dez contos, a autora salta no espaço e no tempo, dando ao leitor mulheres cercadas, bibliotecas intervencionadas, onde os livros servem para tudo menos para serem lidos, uma povoação portuguesa que leva com a Terceira Invasão Francesa em cima e… chega?
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Não mais amores
É o costume: lê-lo é ser vítima de um feitiço. As longas frases fluem, os longos parágrafos afundam as cabeças dos leitores, por momentos parece que a inquietação vai parar, mas páginas depois a leitura ainda é vertigem. Marías, em narrativa curta como em narrativa longa, opta por frases longas que sabem a encantamento, e o que sobra sempre aos desgraçados que o leem é uma sensação de inquietação. Página a página, a estranheza torna-se familiar, mas nada deixa de ser desconcertante. Um dos maiores romancistas da coetaneidade, Javier Marías, que morreu há poucas semanas, é também um brilhante e surpreendente contista.
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O Sol na cabeça
Fez sucesso, e é um mosaico possível do Rio de Janeiro. A editora meteu-lhe um glossário, mas são só algumas dezenas de palavras. A um leitor português, muitas mais serão incompreensíveis. Volta e meia, o melhor é mesmo ignorar o que nos falta em semântica, olhando ao ritmo. Em Geovani Martins, tudo flui, e o que não se compreende intui-se. Não há atalhos para uma ideia de leitor neutro, numa escolha que foi estética e política. Tudo é ritmo e não há concessão a um público específico, invisível. Há histórias diferentes, muita vida, muita gente, muita realidade – e para isso nem importa saber se foi ou não tudo inventado.
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Bichos
São 14 contos, e ali humanos e bichos partilham características. Assim, paralelizam-se as vicissitudes da vida, e lá vão surgindo as questões fundamentais da existência. Publicado em 1940, é hoje considerado um clássico da literatura portuguesa, numa construção em que pessoas e animais estão no mesmo barco, em luta pela vida, em luta contra o mundo. De animais humanizados a humanos que quase parecem bichos, há uma confusão com a condição humana que é, afinal, clareza sobre a vida.
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