Comediantes portugueses que brincam com coisas sérias

Por Vera Dantas

15 de novembro de 2022
Neste país em que, durante tanto tempo, não se podia brincar com coisas sérias, é muito refrescante poder ver, ouvir e ler as ideias de humoristas talentosos, que nos fazem rir. Com eles, até conseguimos perceber melhor a realidade à nossa volta e os sentimentos dentro de nós.

 
Ideias Concretas sobre Vagas – Uma História da Pandemia
Ricardo Araújo Pereira reuniu os textos que escreveu sobre a pandemia de Covid 19, na revista Visão e na Folha de São Paulo, desde março de 2020, até outubro de 2021, neste livro que é um retrato desse período tão difícil quanto bizarro.
Afinal, a quarentena não foi «uma espécie de regresso a um tempo mais lento, um misto de século XIX com campismo à volta da lareira», umas «férias culturais» que nos ensinaram a apreciar a vida simples, num «híbrido entre Umberto Eco e São Francisco de Assis».
O humorista foi procurar, na obra de Alexandre Dumas, ensinamentos úteis para os tempos de pandemias, mas não os encontrou; observou que estivemos todos a viver nas mesmas metáforas – a bélica e a naval; sentiu efeitos secundários, não do vírus, mas por causa do que as pessoas diziam dele, como Bolsonaro, que lançou um inacreditável «E daí?» perante a constatação de o número de mortos no Brasil tinha ultrapassado o da China.
Se está à procura de ideias concretas sobre vagas, fique com esta: «nenhum de nós sabe alguma coisa», e nada reforça tanto a união como esta constatação. Pode ser muito difícil ser chalupa, mas é muito bom deixarmo-nos levar pela mão deste talentoso e mordaz guionista, humorista e escritor para aquele lugar em que nos rimos, muito, de tudo (incluindo de nós mesmos).
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Deve Ser, Deve
Em Deve Ser, Deve, Guilherme Fonseca começa por explicar que tipos de chalupa existem, dos negacionistas e teóricos da conspiração aos cínicos e “contrarianos”. E até refere quais são as fontes de informação de um chalupa, por vezes herdadas da família, como o provérbio «laranja de manhã é ouro, à tarde, prata e à noite, mata».
Mas, a brincar, a brincar, este autor, que chegou às letras vindo da esfera do cinema, alerta para os perigos do «zohnerismo» - a escolha seletiva de verdades para levar o ouvinte a concluir o que dá mais jeito ao interlocutor. Nesta excelsa categoria, poderíamos incluir os negacionistas da pandemia de Covid-19, de que nos falava Ricardo Araújo Pereira, para quem este livro é «uma magnífica, extraordinária, muito bem argumentada perda de tempo».
Há espaço para a análise minuciosa das teorias dos que defendem que a Terra é plana, que o Homem não foi à Lua e que celebridades como Elvis Presley ou John Lennon não morreram. O autor ainda arranja forças para discorrer sobre os argumentos de quem jura que o clima não está a mudar. Entre as conclusões, diz que o negacionismo ser carismático não ajuda, mas que, entre a inofensividade de certos e a perigosidade de outros negacionistas (como os anti-vacinação), se esforçou por ir rindo. Enquanto a chalupice é mais divertida do que mortífera, aproveitemos par rir também!
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Somos Todos Estranhos
António Raminhos nasceu nos anos 80, no seio de uma família que ele descreve como disfuncional, como aliás o eram quase todas, pois, como recorda, «os pais não deixarem os filhos morrer já era uma grande prova de afeto». Neste livro, Raminhos recorda a sua vida através das memórias que tem das pessoas mais próximas: o pai, a mãe, os irmãos e a avó («uma espécie de oficial das SS», controladora, que se fazia constantemente de vítima e infernizava a vida na sua casa). Conta ao leitor episódios da sua vida que o marcaram, como o dia em que uma professora o esmurrou por ele ter errado uma conta. E fá-lo sabendo que «as memórias não são a realidade, são as emoções que ficam das experiências que tivermos». Abre-se para nos contar que o medo excessivo e extrapolado, bem como a falta de autoestima, faziam parte da sua vida. E vai intercalando esse relato com notas e observações bem-humoradas, capaz de ver o lado cómico das coisas, apesar do trágico que carregam.
Somos Todos Estranhos – Até Percebermos que Isso é Normal fala, a brincar, de uma coisa muito séria: a saúde mental. Todos temos fragilidades e é importante não termos medo de pedir ajuda, pois não estamos sós nesta jornada, em que encontramos, sempre, pedras no caminho.
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O Lixo na minha cabeça
Se há pessoa que tem sempre a cabeça a fervilhar de ideias, é Hugo van der Ding. Ficou conhecido pelas tiras humorísticas d’A Criada Malcriada, que o catapultaram para a ribalta através do Facebook. E nunca mais parou de pôr no papel o que se passa na sua cabeça, felizmente para nós, que gostamos de nos rir. Ele chama-lhe «lixo», mas na verdade este novo livro de BD contém joias de boa disposição, tiras coloridas, que ele rabisca e que dão vida a personagens em micro-histórias. O Lixo na Minha Cabeça são 400 páginas e quase 1000 tiras distribuídas entre a sarcástica psicanalista Juliana Saavedra, a velha mas moderna Celeste da Encarnação, Duas Amigas, Esteves & Marina e as suas mocas de erva, Dois Astronautas, e mais – oh, se há mais… Hugo van der Ding cria piadas irresistíveis a partir dos vários sentidos possíveis de expressões como «cintura de vespa» ou «Retiro o que disse» - sim, tem mesmo de ver para perceber. Porque se, como ele nos lembra todos os dias nas suas rubricas da rádio, Vamos Todos Morrer, enquanto estamos por cá, riamos muito e bem alto.
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