Livros para rir

Por Ana Bárbara Pedrosa
5 de setembro de 2022
A literatura, convém dizer, é uma coisa muito séria. Isso não significa que não possa pegar no humor para desarmar os leitores.

 
A pediatra
Acabou de sair. Está fresquíssimo e tem graça. No meio da graça, uma personagem encantadora – de tão filha da mãe que consegue ser às vezes. Cecília é uma pediatra que não acha piada a crianças. Rompendo com o clichê, toda ela é pragmatismo e eficácia. O excesso de zelo dos pais que a procuram é levado ao ridículo. Através dela, o leitor encanta-se num ácido sentido de humor. Como este está composto por fúria, a voz de Cecília soa sempre a verdade sem filtros. Isto marca o romance o tempo todo, sendo a fúria uma forma de dizer e, ao mesmo tempo, uma forma de viver. O estilo de escrita é rápido e furioso, é fácil para quem lê querer virar as páginas. Entre os momentos de humor incisivo, há ainda a ideia de se poder aceder a uma cabeça que se dá sem travões, vendo a vida que existe depois da maquilhagem emocional.
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Estar vivo aleija
Ricardo Araújo Pereira é um sócio do Benfica que também escreve livros. Neste, reúne crónicas publicadas na Folha de S. Paulo, mas que ninguém vá ao engano, nem por ele nem por mim. O aviso está lá direitinho no primeiro parágrafo da primeira página: «Eu não tenho nada para dizer ao público brasileiro, mas não vale a pena o público brasileiro começar a sentir-se especial, porque a verdade é que eu não tenho nada para dizer a ninguém». E, sem nada para dizer, publicou o livro no Brasil e depois em Portugal. Ainda sem nada para dizer, foi tocando aqui e ali como quem toca em toda a parte. A grande vantagem de Ricardo Araújo Pereira sobre grande parte dos humoristas é a elegância que traz à escrita, e que lhe permite saltar dos Irmãos Karamazov para o Cristiano Ronaldo sem causar fricções no texto. Com todos os temas, o mesmo rigor, embora se tente sempre fingir que não se está a fazer nada de mais.
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Louca por compras
Este é um filme de domingo à tarde versão livro. Não sendo grande literatura, é dos que dão para descomprimir, guilty pleasure sem redenção possível. No centro, temos Rebecca Bloomwood. Louca por compras, quer lá saber das dívidas. Quer é comprar mais qualquer coisa. E não quer que o gerente de conta a chateie, a persiga, a avise. No fundo, não quer que ele exista. O que quer é ganhar mais e gastar menos. Ou ganhar mais para gastar mais. Vive permanentemente neste stress, a tentar equilibrar a corda bamba, a ver se o dinheiro estica e se aguenta, e a única coisa que a consola entre isto é poder comprar mais um cachecol.
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Os diários de Adão e Eva
A inocência tem sempre demasiada graça. E se até nós a podemos ter, quanto mais os desgraçados que existiram pela primeira vez, sem história que os sustentasse, sem pais que os ensinassem. Aqui, assistimos à criação do mundo ao mesmo tempo que à criação de um olhar. Twain é sempre fresco, encantador, exigente com o que faz. A prosa parece sair sem esforço, mas tudo ali é composição orgânica. A história é conhecida, a abordagem é única. Não dá para se ler o livro sem se pensar que a história, se fosse verdade, teria de ter sido mesmo assim, o que significa que Twain pôde pegar em ficção conhecida e dar um vislumbre de uma verdade coesa. Olhar para um peixe pela primeira vez é encantador, ver uma gravidez também. E, como tudo é novo, tudo é confusão.
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Apontar é feio
Anima-me as manhãs, põe-me no YouTube durante horas a ouvir programas antigos. Joana Marques irrita uns poucos, diverte muitos. Há uns anos, os portugueses tinham medo do FMI; hoje têm medo de dizer a coisa errada e irem parar ao podcast. Ou a uma crónica, como estas que temos aqui. No livro como na rádio, Joana Marques tenta enganar-nos a todos, fingindo à descarada que não é a mais cool do país. Mas nós sabemos que sim, porque nos arrasam o olhar sagaz, a inteligência fina, a capacidade ímpar de dar a volta às coisas – e até de encontrar palermices a um ritmo diário. Em Apontar é Feio, há uma escrita simples que pega tanto em elementos banais como nos bizarros. Mas, seja o assunto a compostagem humana ou festas de espuma, a graça é sempre a mesma.
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