Livros sobre Gente Mal Humorada

Por Ana Bárbara Pedrosa
5 de julho de 2022
Da literatura de cordel à literatura universal, o que mais há são amores proibidos. Aqui seguem alguns casais que nos deixam sofrer com eles.

 
Olive Kitteridge
Comecemos pela cabeça da lista. Basta olharmos para ela que já sabemos que dali vem mau-humor. Mas, ao invés de irritar, aquele é um mau-humor que encanta. Olive é sempre desconcertante e ácida, e é assim que apaixona quando procura afastar. Como dá sempre o que quer dar e não o que é esperado, tem o condão de apontar o ridículo das coisas e de deixar à nora as desgraçadas das outras personagens. Se não é razoável, Olive não aprova. Se não merece, Olive não dá simpatias. Em todos os seus movimentos, vê-se o pragmatismo.
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Um homem chamado Ove
Ove teria feito um belo par com Olive. São os dois diretos e pragmáticos e Ove é tão desagradável que chega a ser rude. Tem aquela cabeça à nórdico: há regras, há que cumpri-las, nenhum sussurro deve perturbar um ouvido alheio. Viúvo aos 59 anos, parece ter desistido da vida, agora que não tem ao lado a sua antítese: ela era otimista, ele era realista; ela era sonhadora, ele era pragmático. Na viuvez, pode confundir-se o mau-humor com o luto, mas há momentos em que se percebe que é apenas mau-humor. Como em Olive, também a intransigência é encantadora – e lúdica para quem lê.
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Britt-Marie esteve aqui
Saiu da mesma pena que Ove. Britt-Marie, para além de obsessivo-compulsiva, não tem talento ou paciência para o teatro social. Recusa-se a meter-se à força em modelos de comportamento social, e por isso ao longo do livro podemos ver as reações às suas posições desconcertantes. Se Ove encarava a viuvez, Ove. Britt-Marie tenta meter para o lado a infidelidade do ex-marido. No meio disto, o leitor tem a sorte de encontrar humor (mau-humor) no quotidiano. .
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Cadernos do subterrâneo
Se tivéssemos a vida dele, talvez também fôssemos assim. O homem do subterrâneo até causa aflição. No seu texto, vê-se que a vida nada tem de bom – tudo é asco, tudo é sombra, tudo é raiva. A primeira parte do livro é um monólogo longo e violento em que o leitor tem de ultrapassar o constrangimento de ver a humilhação de alguém. O homem humilha-se até só haver nada, até só haver degradação. A seguir, vemo-lo em ação, enfrentando a sociedade com que choca.
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Pão com fiambre
Este é outro que nunca está contente. Henry Chinaski é o alter-ego de Bukowski e aqui temos anos de uma vida que foi luta. A infância na Alemanha contou com um pai violento e solidão; a adolescência, para além de borbulhas, teve a perdição do álcool. Enquanto o leitor vê a Grande Depressão nos Estados Unidos, também vê o que mais custa, que é a vida a partir de dentro: Chinaski torna-se adulto enquanto segue o seu caminho até à degradação.
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