Clássicos da Poesia – II
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10 de março de 2025
Um país de cara voltada para o mar só podia dar nisto: grandes poetas, que importa celebrar sempre. Haveria tantos outros para mencionar, mas curiosamente são estes quatro livros que têm estado entre uma ficção e outra, permitindo algum espaço de beleza e fôlego, num mundo que nos tem posto à prova a um ritmo alucinante.
Poesia de Ricardo Reis
Fernando Pessoa (1888-1935) não poderia faltar, quando chamamos os maiores da poesia mundial. Foquemo-nos numa das suas vozes, o heterónimo Ricardo Reis, um dos mais complexos e, por isso mesmo, um dos mais fascinantes. Em Poesia de Ricardo Reis, encontram-se os versos de um heterónimo que une o estoicismo clássico à melancolia moderna. E que mistura será melhor do que esta? Os seus poemas, marcados pelo equilíbrio formal e pela reflexão sobre o destino, o tempo e os deuses, possuem uma certa musicalidade contida e uma serenidade filosófica que ficam connosco para lá do final do último verso. A leitura de Ricardo Reis é um convite à contemplação, onde cada verso ecoa um pensamento depurado. Pessoa, através dele, construiu uma obra de impressionante precisão.
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Luís de Camões – Lírica
Luís de Camões (1524?-1580) é, como sabemos, um dos maiores nomes da literatura portuguesa. Conhecemo-lo sobretudo pela sua obra mestra, Os Lusíadas, mas a sua obra lírica permanece também atual e relevante, servindo de inspiração a muito do que por cá se escreve. Teremos todos Camões na pena? “Lírica” parte das Obras Completas e revela um poeta que transita entre o amor idealizado e o desencanto, com versos de profundo engenho. A leitura de Camões, hoje, permite compreender não só a riqueza da língua portuguesa, da sua estética, mas também as inquietações humanas que atravessam séculos. Os seus sonetos e redondilhas trazem reflexões sobre o tempo, a inconstância e o destino, compondo um legado literário que tantas vezes forma a consciência daquilo a que chamamos cultura lusófona.
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Poesia de Mário Cesariny
Mário Cesariny (1923-2006) é a figura central do surrealismo português, autor de uma obra que desafia convenções e explora o absurdo, o sonho e a liberdade criativa. O livro Poesia de Mário Cesariny reúne a essência da sua produção, trazendo versos que oscilam entre o humor mordaz, a experimentação formal e uma profunda inquietação existencial. Cesariny usa a imagética e a irreverência em poesia como ninguém, e assim consegue romper com a linguagem tradicional, transformando a poesia num espaço de invenção e efabulação ilimitadas. Aconselho a que este livro permaneça na mesa de cabeceira, para que de vez em quando se permita um mergulho na força transgressora da sua obra, onde o real e o imaginário se entrelaçam na matéria de que são construídos os sonhos.
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Poesia, de Sophia M. B. Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) construiu uma poesia marcada pela clareza, pela musicalidade e pelo compromisso ético com a beleza e a justiça. Que belo é ler uma das nossas maiores artistas de sempre. A vida parece-nos um lugar mais honesto – e quanto precisamos de isso hoje – com um verso de Sophia nos lábios. Poesia, coletânea que reúne a sua produção essencial, evidencia a pureza das suas imagens e a influência do mar, da mitologia e da cultura clássica na sua escrita. Através de uma escrita límpida e de um rigor formal exemplar, Sophia transforma a palavra poética num lugar de resistência e contemplação, força e delicadeza convivendo imperturbáveis. O que faz com que a sua poesia seja de rara intensidade, capaz de iluminar a condição humana e a relação do homem com o mundo.
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