A poesia de Cesariny, no seu centenário
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10 de agosto de 2023
Mario Cesariny nasceu há cem anos, a 9 de agosto de 2023, e a Assírio e Alvim celebra esta importante data com o lançamento da antologia Poesia, um livro único que reúne todos os poemas do autor. Poeta, autor dramático, crítico, ensaísta, tradutor e artista plástico português, Cesariny é a figura mais destacada do surrealismo português, por cuja autenticidade sempre se bateu.
Conheça o seu Jovem Mágico, figura de um poema originalmente publicado no livro Uma Grande Razão.
O JOVEM MÁGICO
O jovem mágico das mãos de ouro
que a remar não se cansa muito
e olha muito depressa (como se fosse de moto)
veio hoje ficar a minha casa
Vivia longe já se sabia
tão longe que era absurdo querer determinar
metade campo metade luz
aí era a sua casa o sítio onde era longe
mesmo de olhos fechados (como ele estava)
e de braços cruzados (como parecia dormir)
o jovem mágico das mãos de ouro
que era todo de empréstimo à minha noite
que falou por acaso que nem se chamava assim
(segundo também me contou) tinha vivido há muito
ele que, estava ali, era um falsário
um fugido de outro basta ver os meus olhos
nada sabemos de nós a não ser que chegámos
sem uma luz a esconder-nos o rosto
belos e apavorados estranhos casacos vestidos
altos de meter medo às aves de longo curso
nem há noites assim não há encontros
ao longo das enseadas
não há corpos amantes não há luzeiros de astros
sob tanto silêncio tão duradoura treva
e não me fales nunca eu sou surdo ou não te oiço
eu vou nascer feliz numa cidade futura
eu sei atravessar as fronteiras das coisas
olha para as minhas mãos que te pareço agora?
No entanto surgiu como simples criança
conseguia sorrir sentar-se verter águas
Com as mãos na cintura livre natural
Ele que era um fantasma um fugido de outro
um que nem mesmo se chamava assim
o jovem mágico das mãos de ouro
desaparecido nu de todos os sítios da Terra
Conheça o seu Jovem Mágico, figura de um poema originalmente publicado no livro Uma Grande Razão.
O JOVEM MÁGICO
O jovem mágico das mãos de ouro
que a remar não se cansa muito
e olha muito depressa (como se fosse de moto)
veio hoje ficar a minha casa
Vivia longe já se sabia
tão longe que era absurdo querer determinar
metade campo metade luz
aí era a sua casa o sítio onde era longe
mesmo de olhos fechados (como ele estava)
e de braços cruzados (como parecia dormir)
o jovem mágico das mãos de ouro
que era todo de empréstimo à minha noite
que falou por acaso que nem se chamava assim
(segundo também me contou) tinha vivido há muito
ele que, estava ali, era um falsário
um fugido de outro basta ver os meus olhos
nada sabemos de nós a não ser que chegámos
sem uma luz a esconder-nos o rosto
belos e apavorados estranhos casacos vestidos
altos de meter medo às aves de longo curso
nem há noites assim não há encontros
ao longo das enseadas
não há corpos amantes não há luzeiros de astros
sob tanto silêncio tão duradoura treva
e não me fales nunca eu sou surdo ou não te oiço
eu vou nascer feliz numa cidade futura
eu sei atravessar as fronteiras das coisas
olha para as minhas mãos que te pareço agora?
No entanto surgiu como simples criança
conseguia sorrir sentar-se verter águas
Com as mãos na cintura livre natural
Ele que era um fantasma um fugido de outro
um que nem mesmo se chamava assim
o jovem mágico das mãos de ouro
desaparecido nu de todos os sítios da Terra