Pode um Desejo Imenso – um poema de Luís de Camões
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20 de junho de 2024
Conhecido pelo seu romance camoniano Pode um Desejo Imenso e por estudos académicos sobre Camões, Frederico Lourenço lançou recentemente Camões – Uma Antologia.
Neste novo livro, pensado como homegem a Luís Vaz de Camões, encontramos as passagens mais brilhantes de Os Lusíadas e das rimas. Destas, escolhemos, para ler sob os primeiro raios do sol estival, um poema de Camões que nos fala de desejo, de formusura e cujo excerto, que pode ler abaixo, o deixará com ânsia de ler mais e mais deste poeta que muito deixou para nos surpreender ainda.
PODE UM DESEJO IMENSO
Ode 6
Pode um desejo imenso
arder no peito tanto
que à branda e à viva alma o fogo intenso
lhe gaste as nódoas do terreno manto,
e purifique em tanta beleza o esprito
com olhos imortais
que faz que leia mais do que vê escrito.
Que a flama que se acende
alto tanto alumia
que, se o nobre desejo ao bem se estende
que nunca viu, a sente claro dia;
e lá vê do que busca o natural,
a graça, a viva cor,
noutra espécie milhor, que a corporal.
Pois vós, ó claro exemplo,
de viva fermosura,
que de tão longe cá noto e contemplo
n’alma, que este desejo sobe a apura;
não creais que não vejo aquela imagem
que as gentes nunca veem,
se de humanos não têm muita ventagem.
Que, se os olhos ausentes
não veem a compassada
proporção, que das cores excelentes
de pureza e vergonha é variada;
da qual a Poesia, que cantou
até qui só pinturas,
com mortais fermosuras igualou;
se não veem os cabelos
que o vulgo chama d’ouro,
e se não veem do rosto as excelências,
a quem dirão que deve
rosa, cristal e neve as aparências;
veem logo a graça pura
a luz alta e severa
que é raio da divina fermosura
que n’alma imprime e fora revebera,
assi como cristal do Sol ferido,
que por fora derrama
a recebida flama, esclarecido.
(…)
Neste novo livro, pensado como homegem a Luís Vaz de Camões, encontramos as passagens mais brilhantes de Os Lusíadas e das rimas. Destas, escolhemos, para ler sob os primeiro raios do sol estival, um poema de Camões que nos fala de desejo, de formusura e cujo excerto, que pode ler abaixo, o deixará com ânsia de ler mais e mais deste poeta que muito deixou para nos surpreender ainda.
PODE UM DESEJO IMENSO
Ode 6
Pode um desejo imenso
arder no peito tanto
que à branda e à viva alma o fogo intenso
lhe gaste as nódoas do terreno manto,
e purifique em tanta beleza o esprito
com olhos imortais
que faz que leia mais do que vê escrito.
Que a flama que se acende
alto tanto alumia
que, se o nobre desejo ao bem se estende
que nunca viu, a sente claro dia;
e lá vê do que busca o natural,
a graça, a viva cor,
noutra espécie milhor, que a corporal.
Pois vós, ó claro exemplo,
de viva fermosura,
que de tão longe cá noto e contemplo
n’alma, que este desejo sobe a apura;
não creais que não vejo aquela imagem
que as gentes nunca veem,
se de humanos não têm muita ventagem.
Que, se os olhos ausentes
não veem a compassada
proporção, que das cores excelentes
de pureza e vergonha é variada;
da qual a Poesia, que cantou
até qui só pinturas,
com mortais fermosuras igualou;
se não veem os cabelos
que o vulgo chama d’ouro,
e se não veem do rosto as excelências,
a quem dirão que deve
rosa, cristal e neve as aparências;
veem logo a graça pura
a luz alta e severa
que é raio da divina fermosura
que n’alma imprime e fora revebera,
assi como cristal do Sol ferido,
que por fora derrama
a recebida flama, esclarecido.
(…)
Camões – Uma Antologia, de Frederico Lourenço