«Literatura, esse animal a chafurdar», uma crónica

Por Ana Bárbara Pedrosa
24 de janeiro de 2024
Irrita-me que se procure na literatura uma resposta, que se veja no virar de uma página um caminho. E irrita-me que se julgue que um escritor é um messias, um profeta da moral, um salvador – um catequista que traz uma lição ou uma mensagem. Quem escreve tem de enterrar as mãos na lama.
Na literatura, procuro sempre a falha. Não me interessa se é a minha ou a dos outros, antes encontrar a frincha na moral, a vergonha de um dissimulado, o buraco negro na paisagem. Gosto de pensar o romance como monstro vivo a estripar entranhas: depois do exercício da escrita, há vísceras, sangue, horror; há a vida sem capacetes, pensos rápidos, folhinhos cor-de-rosa. A literatura, ao nascer, trouxe à vida o que se fingia estar escondido – o que é recalcado aparece no papel escancarado, e o romance é uma retroescavadora a vasculhar no lodo.
Leva-se ao terreno literário o que não se pode admitir, explora-se a sensibilidade, a quebra de expectativas. Nisto, pouco será mais humano, mais amplo e mais filho-da-mãe do que a inveja. Tê-la passa sempre por ter de fingir que não se a tem. É uma coisa muito linda, pois não? Um monstro cheio de fome a rasgar o estômago com os dentes.
 Crónica wookacontece
 
Está nos primórdios da vida, e da tradição escrita também. No Génesis, lá está ele: Caim, que não tinha quase ninguém à volta e escolheu o homem mais próximo para invejar até morrer por dentro. Ora, quem morre por dentro tem a necessidade de matar. Uma espécie de kill your darlings levada aos extremos. Um homem matava-se a tentar fazer com que a terra cuspisse qualquer coisa, e havia um Deus gatuno que lhe deitava a oferta ao lixo. E depois o outro – plácido, calmo – que mais nada fazia para além de passear gado pelos campos, que oferecia um carneiro aceite de bom grado. Nesta situação, claro que o primeiro gajo nem quis saber de que o segundo era irmão dele: foi pegar numa pedra e limpar-lhe o sebo, a ver se se limpava também o sebo que tinha em torno das artérias coronárias. Desta sensação que come, nasceu no imaginário ocidental a Humanidade: o homem, marcado pela inveja que levou ao assassinato, teve de fugir dali, encontrar uma mulher, fundar povos. Na Bíblia, somos todos filhos do pecado capital da inveja – muito mais incisivo do que comer uma maçã que só servia para enfeitar um jardim. Em meia dúzia de traços, compôs-se uma história inteira, e disse-se tanto disto que é a massa humana: por vezes, a própria falha leva a querer partir o outro. E, perante a História, nem é preciso a explicação: basta ver para o impacto parecer capaz de partir ossos.
A tragédia de Caim foi ser humano. E o mesmo se passou com Otelo, seu filho, nosso pai. A vida foi-lhe tão trágica que parecia encravada logo ao nascer. Ali, o monstro a corroer por dentro teve o mesmo efeito que com Caim – comeu tanta coisa de um peito descarnado que lhe pôs nas mãos um crime irreversível. Depois de matar por ciúmes Desdémona, sua esposa, já não havia nada que o safasse. Para tanta dor duradoura, estrangulamento tão veloz. Criara-se ali um diz-que-disse, e Otelo vira Desdémona na cama. Acusara-a de traição, mas de que vale uma negação para quem acusa? Um cego, bem se sabe, é incapaz de ver, e não há sentimento carniceiro que acalme à mansidão da voz. Que ela negasse a acusação de Otelo enfureceu-o, e a fúria meteu as mãos num pescoço inocente. Ora, quando Otelo se apercebeu do erro, já a irreversibilidade era como uma bola de aço a bater-lhe na cabeça. Portanto, só porque Shakespeare era mesmo, mesmo trágico, Otelo suicidou-se a seguir. Quem nunca? A inveja deu nisto, e ainda por cima de nada.
Ora, caída nas asas da literatura, também eu tive esta pulsão: pegar em alguém consumido por um desejo e que se julgasse injustiçado. Foi terrível, admito – e que maravilha foi. Escrever é esta coisa lixada e boa ao mesmo tempo. Desta vez, nem houve um Deus no céu a preferir um irmão, nem houve um amante a recear a existência de outro. O que criei foi outra coisa: um homem que, pese embora a forma como o álcool o corroía e transformava, achava que o que o afastava do amor dos irmãos e da mãe era a mulher que ele, volta e meia, espancava forte e feio. Este é o Manel de Amor Estragado, a mais infame das minhas personagens – a mais divertida também. Admito que, ao fazê-lo, no sossego de um escritório ou de uma biblioteca, me senti poluída por aquela inveja. Ora, alguém que escreve, ao sentir a mão viscosa do que vem do texto, voa com a vitória – se a sensação existe, é porque a vida é mesmo assim.
Da literatura, um leitor exigente não pode aceitar mantras, nem pode aceitar o desrespeito de um autor que vem com uma mensagem declarada. A escrita é um movimento exploratório, não uma explicação do mundo a ser dada de mão-beijada. E é assim que faz com que as mãos pareçam coisas que nem servem para agarrar. Não tem de servir para nada, muito menos para catequizar. Não tem de apontar um caminho. Só se não sujar as mãos é que é inútil.


Nota:
Este artigo foi originalmente publicado na Revista Wookacontece n.º 10.

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